O fantoche de grilo

Esportes Artigos 20 Junho / 2012 Quarta-feira por Gustavo De Marchi

As cores naturais são intensificadas no Outono. A luz realça o mundo e tudo fica mais belo. É a estação da economia da natureza, ela propõe guardar todas as energias para agüentar o inverno. Para os peixes isto significa morder. Morder tudo que passa pela frente. Para quem pesca com moscas é um momento grandioso, pois qualquer imitação de inseto derivando na corredeira é uma vítima em potencial.

A caminhada até a Ponte do Raposo transcorreu com muita tranqüilidade, animada pelas conversas do pequeno grupo. Alguns pontos da estrada são dignos de paradas obrigatórias: um vale que se abre em cânion, à direita, após uma curva; o arroio encaixado no meio do campo entre as corticeiras do banhado; algumas propriedades rurais muito antigas que remetem ao tempo da colonização; uma laranjeira na beira da estrada com frutos bem maduros, azedos e adocicados, climatizados pela primeira geada do ano; uma exótica taipa abandonada; três cachorros soltos que atacam em matilha e exigem respeito ao caminhante; um moinho virado em tapera; uma ponte sobre o regato; o barulho de uma cachoeira; cenas bucólicas do nosso belo interior rural, como alguém entretido na confecção de vassouras de piaçava; entre tantas coisas que despertam o interesse dos olhares e das lentes das câmeras.

O dia estava ótimo, nem quente, nem frio, um sol gostoso, já bem inclinado, próximo da sombra máxima do gnômon, algo ameno e bem iluminado. A descida é um ziguezague com muita inclinação, então, o grupo baixou o ritmo, tracionou, reduziu e bloqueou e, às vezes, uma ou outra bota derrapou. Atrás do joelho, existe uma porcaria qualquer que dói nestas circunstâncias e as panturrilhas incomodam dois dias depois, isto é certo. Tudo bem, é só a decida, depois tem toda a volta! Eu trazia uma mochila minúscula com uma garrafa com água, algumas bergamotas e um equipamento de fly completo que, com exceção da vara, cabe na palma da mão. A pesca com mosca é fantástica mesmo, não se faz necessária muita coisa: uma latinha de pastilhas com as moscas, a carretilha mínima e leve, com a linha, o backing e o líder e a vara, pronto! Para que mais que isto? Suspeito que o camarada que inventou a pesca com mosca era um sujeito do tipo preguiçoso.

Consigo até imaginar como teria sido: sentindo frio, de manhã cedo, ficou dormindo ao invés de levantar da cama e sair para a fora de casa, no frio gelado da manhã, com o intuito de caçar grilos e metê-los vivos em um pote, para usá-los como iscas. Contudo, queria ir pescar e havia perdido o momento de caçar os grilos. Então juntou alguns materiais que possuía em casa e confeccionou um grilo falso, um fantoche de grilo, definitivo, sobre um anzol. Resolvido o problema, nunca mais precisaria caçar grilos e sempre poderia dormir um pouco mais antes de ir pescar. Esta minha suspeita faz todo o sentido, pois a pesca com mosca não tem nada de complicado. Aliás, é uma simplificação da natureza, ou seja, deixa tudo mais fácil para o pescador.

Quando chegamos à Ponte do Raposo, um belo cartão postal para emoldurar uma pescaria, desci até o rio e abri a latinha e catei um grilo falso para pescar um dos melhores monstros do rio: o lambari. O lambari, ao contrário de muitos outros peixes, não engole por sucção, ele morde mesmo, tem dentes, destrói tudo, claro, em pequenas porções. Mas, quando estamos pescando com mosca, notamos como é difícil ferrar o lambari, pois, sentimos nitidamente as mordidas que ele dá na mosca, no entanto, não conseguimos pegá-los com muita facilidade.

Então, um amigo sírio me ensinou a pescar os lambaris com os grilos: o segredo é fabricar os grilos com muito pouco material e envernizar com esmalte, para obrigar os peixes a morderem a isca inteira, ao contrário de tentarem arrancar os pedaços dela. Não sei se tem lambaris na Síria, mas, meu amigo é doutor no assunto e a técnica funciona mais que chá de boldo.

Enquanto eu começa a minha pescaria, o resto da turma congelava os pés inchados no rio e a equipe de apoio, meu pai e minha mãe vieram de carro trazendo o material necessário para um magnificente almoço. De tal forma que o domingo foi espetacular e claro, estou contando aqui a melhor parte. Vou deixar a cargo da sua imaginação a reconstituição do retorno com 11 km morro acima e de barriga cheia...

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