A maior praia do Mundo

Esportes Artigos 06 Junho / 2012 Quarta-feira por Gustavo De Marchi

Milagrosamente salvos de muitas mudanças, estavam lá os papéis amarelados, no entanto, cheios de empolgação da juventude. Li novamente os artigos. Contavam dos preparativos da partida, as opiniões de amigos e familiares e faltava o final. Teria o jovem xará Gustavo de 1994 conseguido cumprir a sua missão? Ou parte dela? Eu gosto das histórias incompletas. Eu não consegui nem começar, quanto mais ter uma história incompleta para contar. Aconteceu que nunca saí de casa a pé para dar a volta ao mundo pela beira da praia e o tempo passou, tornei-me um velho, careca e barrigudo, antípoda daquele cabeludo sonhador de quase 20 anos atrás.

Nos últimos tempos, tenho lido alguns relatos dos exploradores dos pólos e de aventureiros que tentaram ou conseguiram chegar aos pólos magnéticos ou geográficos da terra. Estes livros me empolgam, às vezes demais. Não sugiro estas leituras a espíritos volúveis como o meu, assim como não recomendo Bukowski a quem tenha menos de 36 anos e a mínima propensão ao alcoolismo. Gosto do tema das aventuras insólitas e solitárias ou quase solitárias. Algumas questões chamaram a minha atenção nestas travessias grandiosas, entre elas as soluções para a alimentação, o clima contraditório, a água e o transporte de equipamentos e mantimentos. Ficou claro que todas as expedições que deram certo só obtiveram êxito porque foram somatórios dos resultados complexos e harmoniosos entre objetivo, organização, estratégia, investimento, tecnologia, conhecimento e muita, mas muita mesmo, muitíssima sorte. Nos pólos os pôneis ou os cachorros para puxarem trenós não se mostraram, em alguns casos, a solução perfeita para tração, contudo, foram extremamente eficientes enquanto refeição adicional para a equipe, que teve que puxar os trenós nas costa. Percebi que em grandes travessias a pé, a mochila é um transtorno e se a geografia permitir o trenó é a melhor escolha.

Tanto o cardiologista quanto amigos e familiares têm me feito um apelo constante para iniciar uma atividade física. Infelizmente, pescar não é um esporte completo. Pensei em unir o útil ao agradável. Sou um sedentário convicto e estável em meus 105 kg, amante dos prazeres do comodismo, da boa mesa e um bom bebedor, claro, tenho que tomar diariamente um remédio para manter a pressão estável, outro para o colesterol e um terceiro para os triglicerídeos.

Costumo dizer que os excessos nunca andam sozinhos: eles sempre trazem um antídoto junto. Esta é minha vida, cômoda e cheia de remedinhos que me mantém em um quadro clínico estável, para não dizer que me mantém vivo. Ou, costumava ser. Claro, muito prático, só executo algo que possua um objetivo nítido e desafiador, o que exclui toda e qualquer atividade física, por ser enfadonha, cansativa e, como diz meu pai, um trabalho improdutivo.

Então, pensei muito sobre tudo isto e decidi que precisava um objetivo, urgente. A mistura explosiva da necessidade imperiosa de sair da minha zona de conforto com as leituras recentes e a lembrança dos recortes de jornal me deu o que eu precisava neste exato momento: um objetivo. Então, dia 10 de abril de 2012, levantei da cama e saí caminhando.

O projeto nasceu pronto: percorrer a maior praia do Mundo caminhando, fotografando e, obviamente, pescando muito, seguindo o conceito de auto-suficiência total. Dentro do objetivo do projeto, como um resultado secundário, posso pensar em publicar o diário da expedição, com as imagens do que o homem tem feito com o mar. Os diários de viagens são leituras prazerosas. No litoral está o lado direito da equação Homem X Natureza, é o resultado que sobra do confronto, daí a importância de fotografar o quotidiano da caminhada. O trajeto é compreendido entre Balneário do Cassino e Balneário do Chuí, perfazendo os 230 km da praia mais extensa e deserta do mundo, por uma paisagem ampla e bela, composta por areia, dunas baixas com vegetação rasteira e um mar sem fim e, o mais intrigante, um deserto de água potável. A primeira regra de um projeto: a data. Resolvi estipular um prazo de adaptação e de grandes superações, para me obrigar ao condicionamento. Considerando ventos, clima, preparo físico e investimentos necessários, acabei por encontrar o meu dia para partir.

Organização e tecnologia são as chaves que abrem as portas do sucesso. Aprender a caminhar e caminhar todos os dias e cada vez mais; leituras técnicas; testes de equipamentos, tecidos e tecnologias; ponderações sobre alumínio, inox e titânio; vazar cada parafuso do projeto para ficar mais leve; soluções para armazenar, diminuir volume, adaptar as coisas ao corpo; peso como critério para todos os itens; fabricar água potável, carregar água, encontrar água; resolver cada detalhe técnico e antever cada possibilidade de crise; navegação, mapeamento e comunicação; rotas de fuga e resgate; orçar cada item e cada etapa e captar recursos próprios; acostumar o paladar ao peixe cru, aos mariscos e aos crustáceos sem temperos, além adicionar as raízes de algumas plantas da vegetação local ao cardápio; mandar propostas a possíveis patrocinadores e apoiadores; apaixonar-se pela solidão; viver com o mínimo, abandonar o conforto e treinar. Nesta fase de treinamentos, a melhor parte é o “grand finale”, quando termino o expediente e chego a um tramo de arroio ou rio, propositadamente e posso pescar em um lugar fantástico e desconhecido por mim, justamente, por que só se chega caminhando.

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