Luciferase

Esportes Artigos 24 Abril / 2012 Terca-feira por Gustavo De Marchi

A água também é luminosa. Parece uma lâmpada líquida. Há muita luz dentro do mar. O fenômeno se chama ardentia, quando há atuação mecânica sobre microorganismos inicia-se uma reação que converte a energia química em energia luminosa. Quando um peixe passa por uma bolsa de noctilucas faz estourar um flash verde limão. É a bioluminescência da luciferase funcionando, belíssimo; quando o casco do barco se movimenta deixa um rastro de luz atrás de si. Assim como o céu radioso pode ser visto melhor a partir do mar, só quem se aventura à noite pelos oceanos, pode conhecer estas e outras coisas misteriosas e lindas.

O melhor, no entanto, naquelas noites de verão, era a pesca. Pesca grossa. Estúpida. De barriga cheia saíamos após o sol se pôr e, naquela lancha pequena, levávamos muito tempo para chegar ao parcel que pescávamos. As iscas, o Capitão já havia conseguido de dia: lulas frescas que eram amarradas em anzóis 5/0 com um chumbo de lastro pesado preso acima do conjunto. A linha que usávamos era um sedal grosso e o objetivo de cada noite era pegarmos garoupas para os hotéis do balneário, restaurantes e peixarias. Um anzol para cada um e nada mais. O Capitão tinha por hábito carregar uma lista com os pedidos anotados, tantos peixes cada qual com seu peso estimado; pegávamos apenas o necessário e no peso encomendado, isto era uma regra, o resto voltava para a água.

Com os anzóis iscados e luvas grossas nas mãos, deixávamos as iscas descer até o fundo e ficávamos chamando o peixe com movimentos lentos, batendo o chumbo nas pedras. Quando a garoupa pegava, a força exercida era absurda. A ferrada e a corrida de uma garoupa grande segue um ritual: primeiro ela morde a isca e depois dispara de volta para a toca. Parece simples, o pescador deve impedir que ela entre na toca. Tínhamos que segurar com as duas mãos e enrolar a linha na manga do braço, por isto, mesmo no verão, usávamos grossos blusões de lã. Uma vez que a linha estivesse presa no braço e enrolada firme nas mãos, firmavam-se as pernas contra as amuradas e os pés contra as costelas estruturais do barco, neste momento, o monstro marinho tentava retornar para sua caverna e o barco, mesmo ancorado, era arrastado na superfície do mar, produzindo luz ao redor. Se conseguíssemos o feito de segurar o peixe longe das pedras, então começava uma nova etapa da briga: içar a garoupa, que procurava, por algum tempo, outros lugares para se entocar, nadando perdida em círculos e lutando para baixo, cabeceando.

Era hora de recuperar a linha com as mãos, desenrolando a mão da frente e enrolando na mão de trás, aos poucos se transferia a linha, de uma mão à outra, ganhando alguns centímetros de luta contra o peixe. A fisionomia do pescador fica contorcida de dor e força, deformada, sulcada e o suor corre por estes sulcos entrando nos pés de galinha e escorrendo vai arder, com o sal lavado da pele, os olhos; os dedos ficam esmagados pela linha grossa com a pressão exercida pelo peixe nadando com força lá em baixo, sente-se o sangue esfriar na ponta dos dedos roxos sob as luvas, que ajudam, mas, a cada disparada da garoupa a linha corre e corta as mãos e é necessário calos e calos nos calos para que isto não aconteça. Sempre acontece. O Capitão conseguia conversar até quando içava um peixe, os ombros encolhidos, a cara de dor, a linha gemendo e assoviando nos dedos e fazendo novas feridas dentro das feridas velhas.

Eu escutava e, realmente, gostava daquela pesca, que para outros seria o Calvário. Eu me concentrava em levantar o peixe e curtir as feridas e as histórias. Com as feridas abertas nas mãos a água salgado do mar que vem com a linha faz arder muito. E há a sensação exata de que os braços estão sendo arrancados pelo peixe. E isto tudo é muito bom de sentir e pescar um peixe apenas com as mãos é muito bom, melhor ainda quando o peixe é um monstro.

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