O ciclo do marinheiro

Esportes Artigos 13 Março / 2012 Terca-feira por Gustavo De Marchi

Férias. Poderia definir que férias é o período em que praticamos a ingestão de churrascos, cervejas, vinhos e espumantes em escala industrial. Sem critérios, sem culpas e sem observar o horário dos remédios. Mastigar é algo que exige um período anual para seu exercício completo. Contudo, era necessário algo para contrabalançar os exageros pantagruélicos da mesa, um exercício para o resto do corpo, um momento de descanso para as mandíbulas.
Entre as tralhas de pescas, desta feita, havia levado o Joker, o meu caiaque, com o objetivo de exercício físico e pesca. Resolvi iniciar um trabalho imediato, para me recompensar depois, na mesa. Iniciei as atividades de remo em uma lagoa, onde já havia pescado outras vezes. Foi bom pra tosse. Um vento muito mais forte que a força dos meus braços, lembrou-me dos limites físicos que o remo impõe. No outro dia, acordei com muitas dores musculares, pensei: que hora boa para desistir e ficar só no churrasco. Contudo, homem de propósitos, naquele mesmo dia, fiz-me ao mar. Tirei o caiaque de cima do carro novamente, apoiando na cabeça, cruzei as dunas e depositei ele na praia. O mar estava calmo, havia algum vento muito moderado e algumas ondulações picadas.

Instalei o sonar, a cadeira, o remo e prendi a extremidade do cabo da âncora. Arrastei o Joker até o mar e empurrei, ao meu lado, até cruzar a arrebentação, então, pulei para cima e saí remando. Até os cinco metros de profundidade era possível ver os cardumes de peixinhos indicados na tela do sonar apenas olhando para baixo. Águas azuis esverdeadas transparentes. Temperatura de 26°C. O sol forte e o vento fraco eram duas forças que se anulavam. Remei paralelamente à praia para me adaptar à ideia do mar, às ondas e ao balanço. Fazia anos que eu não remava em águas costeiras. Achei que estava começando a marear. As ondas jogavam mais do que eu havia avaliado da praia, contudo, em minutos havia me adaptado ao balanço. Então, virei a proa para a ponta da extremidade de pedras, a sudeste, e finquei o remo com força na água. O deslocamento era agradável, o melhor era subir e descer as ondas que se formavam inesperadamente, sem deixá-las me atingirem de lado, corrigindo a proa contra as maiores, o que me tirava um pouco do curso. A água do mar respingando do remo ajudava a refrescar e o conjunto da obra era impactante: o mar e o céu de cor parecida.

A ponta de pedras a minha frente era Punta Ballena, onde existe a Casa Pueblo, do artista uruguaio Vilaró, uma cidadela-escultura, erigida na encosta da montanha de pedras. É um palácio branco. Um dos orgulhos uruguaios e parada obrigatória para quem vai à Punta del Este. Também, para os pescadores, pois é um bom pesqueiro, principalmente na época em que as corvinas entram para desovar. Punta Ballena funciona como uma grande plataforma de pesca natural, entrando nas águas da Playa Mansa, na desembocadura do Rio da Prata.

A corrente puxava-me favoravelmente em direção às pedras, pensei que teria muito trabalho para remar de volta. Cheguei perto, vi aquele monumento da construção humana, de dentro do mar. Que beleza de cenário! Fiquei um tempo ali e quase esqueci que havia um grande trajeto de volta. Abri a garrafa e tomei muita água doce antes de iniciar a viagem de retorno. Durante todo o percurso, controlando o sonar, a temperatura das águas, o relevo do fundo e os cardumes de peixinhos, não vi um só peixe grande apitar na tela, apenas os arcos dos cardumes de miudezas.

Remei com força média até o ponto de encontro marcado como destino. Sai da água pegando um jacaré com a arrebentação e redescobri como é maravilhoso remar no mar. Foi uma grande experiência. Na praia tirei o chapéu de pano, molhado e lembrei que o usava quando naufraguei, sete anos antes. Passei um sufoco no mar aberto. Mas, esta é uma das histórias que eu não conto. Nunca mais havia remado no mar. Um ciclo se fechou, estava pronto para remar em águas abertas e levar o chapéu junto, com certeza é um destes amuletos da sorte.


Continua semana que vem...

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