Diários Amazônicos: suando na África

Esportes Artigos 27 Janeiro / 2012 Sexta-feira por Gustavo De Marchi

Os braços estavam em frangalhos. A primeira manhã de pesca foi como uma boa briga de rua, onde eu apenhei feio e saí perdendo, como toda boa briga de rua. Estava todo quebrado. Tentava encontrar um pouco de humildade dentro de mim, gostaria de admitir que o inimigo fora subestimado, no entanto, não é o melhor elemento da minha substância. A queda de braço com os peixes esgotou parte dos recursos energéticos disponíveis, porém, enchi o tanque no almoço e resolvi repousar. O calor também me maltratava. Tirei uma roupa seca da prateleira e me troquei. Ajustei o ar condicionado. Rabisquei minhas notas e abri o livro que me acompanhava na viagem, “As verdes colinas de África”, do Hemingway, em português lisboeta arcaico. Ele falava sobre o calor naquelas páginas que eu lia. Falava do calor que eu sentia no couro. O sono veio me pegando e me transportou através da vegetação, e aos poucos, já estava na África, suando e tomando cerveja alemã na sombra, com meu chapéu de “Bwana”.

Dormi uma sesta presidencial por meia hora e vieram bater à porta. Retornei da África em uma fração de segundo de sonho, estava na hora de retornar ao combate, à caçada ao tucunaré-açu. Passei uma grossa camada de bloqueador solar 70, meti o chapéu de “Bwana” e lavei os óculos de sol na pia: estavam obstruídos por um melado pastoso formado por suor e bloqueador e gosma de peixe. Sai da cabine e percorri o corredor, cruzei a sala, a cozinha, o deck de popa e pulei para a lancha que me aguardava. Destino cabibizal. Enquanto a lancha navegava lepidamente, o vento não me deixava banhar em suor. Mas, pronto ela parou, senti a pele gotejando. A camisa empapando. O suor corria pelos braços e pelas pernas, escorria da testa e entrava nos olhos, ardendo, agrupava-se na barba e pingava como uma torneira gotejante dentro da boca, salgando o respirar sofrido do ar pesado.

O suor começou seu processo de humidificação do meu couro e meu primeiro pensamento era para a cerveja gelada. Reidratar. Mas, aboli a idéia de imediato. Caso tomasse uma cerveja sabia que dali alguns poucos minutos ela estaria na minha camisa; e isto não tinha graça. Não havia tempo para a cerveja chegar ao cérebro, seu destino sagrado, seu lugar de estar íntimo, seu trono, sua taba e seu altar. “Profanarei tua ritualística, oh cerveja milenar, não te imolarei!”, pensava algo assim enquanto olhava a caixa gelada sentada à minha frente. Foquei no cabibizal e na pescaria, aquele calor era mágico, representava a mínima dificuldade necessária para dar um sabor especial de conquista a cada peixe pescado. A perfeição na pesca vem com a conquista e quanto mais fatores forem adicionados na captura do peixe tanto melhor ela fica. Levantei e preparei a isca. E a situação me trouxe a recordação das últimas palavras lidas de Hemingway, antes do sono magistral: “todos os dias eliminava pela transpiração, o que tinha bebido à noite...”. Lancei!

Observei que mais de 80% das ações da manhã haviam sido na meia-água e não na superfície. As iscas mais apropriadas pareciam ser os jigs, confeccionados com pêlos, penas e brilhos sintéticos sobre um grande anzol 4/0 com uma cabeça de chumbo. Permitiam grandes lançamentos, precisos, e trabalhavam bem com toques enérgicos de ponta de vara, possuíam qualquer coisa de irresistível ao peixe. Uma iguaria. O cabibizal que se apresentava em nossa frente terminava em uma bela praia de areia, local relativamente raso. Era o largo de uma ilha e, mais adiante, havia uma bela entrada de água, que corria para um lago escondido. O Mega continuava lançando sua isca de hélice, enorme. Eu trabalhava a meia-água com o jig felpudo, que parecia uma peteca. Peguei o primeiro tucunaré da tarde ali mesmo, naqueles primeiros lançamentos, refrescado pela idéia de não desperdiçar uma cerveja.

Categorias:   Notícias | Artigos | Economia e Negócios | Estilo | Cultura | Esportes