Diários Amazônicos: o dia do cabibizal - continuação

Esportes Artigos 04 Janeiro / 2012 Quarta-feira por Gustavo De Marchi

Consultei o relógio para ver o barômetro, a pressão subia. 1014mb. Apenas meia hora de pescaria! Poucas nuvens. O Sol era um ovo laranja de fogo que me fazia evaporar. E, obra do destino, estava eu recolhendo e pensando em como assimilar a nova informação, justamente quando minha isca trancou, eu ferrei e, creio que com um pouco de exagero, tirei a isca da boca do peixe. Mas, pareceu-me que ele não chegara a sentir o ferro do anzol. Ia parando a isca quando a ordem veio aos meus ouvidos: rebojou, não pára, não pára... O cérebro binário, hexadecimal e carburado processou a informação e o braço continuou batendo isca e o peixe bateu de novo. Outro alerta sonoro de “não pára” e a isca prosseguiu movida a gritos e o peixe rebojou novamente atrás da isca. Conseguimos ver a sua quarta investida a poucos metros do barco. Belo peixe, mas não entrou, nos viu e rebojou. Caramba, suando mais que tampa de chaleira, fora de forma, parecia que eu havia corrido uma maratona. Vamos de novo! Resolvi colocar uma isca de superfície, uma zara, cor osso, do Nelson Nakamura.

Havia compreendido o conceito: nunca parar de recolher a isca. Lancei a zara sobre o exato caminho dos ataques, rente à vegetação do cabibizal. Iniciei o recolhimento, a isca vinha em zigue-zague, aparecendo e desaparecendo entre os mergulhos, chacoalhando com o movimento. Trabalho perfeito: que isca bem balanceada! O mestre Nakamura acertou em cheio nesta zara, ao contrário de muitas similares, não é uma isca que nada como peixe morto, pelo contrário, lembra um peixe caçando, uma cobra nadando, algo ativo e saboroso para os tucunarés. Em Barcelos o pessoal recomenda também o uso de outra zara, a Trairão da Imakatsu, que, apesar de ser uma isca japonesa, é desenvolvida para o mercado brasileiro, especialmente para os grandes tucunas da Amazônia. De um modo geral, são iscas que atraem predadores pelo nado e pelo som para ataques fulminantes no melhor local para ver um peixe atacando uma isca, a superfície. O bote na superfície sempre é cinematográfico, é uma explosão de água que dá um susto no pescador, pois é completamente inesperado, causando as mais variadas reações. O trabalho da isca é um pouco cansativo, contudo de prazer recompensador. Ao passo que a isca é recolhida se trabalha a ponta da vara com toques cadenciados, gerando o movimento de zigue-zague. Alterando a velocidade de recolhimento e a força dos toques, pode-se obter nados mais amplos ou mais estreitos, rápidos ou lentos, com grande versatilidade.

Com este trabalho vinha a minha isca nadando faceira na superfície calma como azeite quando um monstrengo atacou. Jantou a pobre isca com toda a fome do mundo. Nem mastigou. Pulou sobre a zara com vontade, produzindo um grande estouro na superfície. Desta vez, parecia que um cofre havia caído do céu. Água de cor mogno voando pelos ares. Ferrei firme e segurei. O freio da carretilha bem regulado e a linha escapando com força contínua trazendo, novamente, a boa sensação da luta. O peixe correu muito, para o fundo, sem dar chance para recuperar a linha. A vara vergada ao meio, a ponta quase mergulhada, o braço tenso e um sentimento intenso. Deixei-o correr até sentir que perdia a energia, então pulou. Um belo animal. Recuperei linha e brigamos um bom tempo próximo ao barco, uma força brutal e inacreditável. Era um tucunaré-açu, o primeiro de muitos. A primeira grande luta de muitas grandes lutas daquela manhã que recém começava e que reservou grandes peixes nas bordas dos cabibizais.

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