Fly com um pedaço de corda.

Esportes Crônicas 26 Janeiro / 2011 Quarta-feira por Gustavo De Marchi

A sigla DIY quer dizer “do it yourself”, que, em português, quer dizer “faça você mesmo!”. A pesca com mosca, ou flyfishing, tem muito de DIY. É verdade que hoje é possível comprar tudo pronto, todavia, têm suas origens no mais puro DIY, quando o pescador sofisticou ao máximo a sutileza da arte de enganar o peixe. E isto começou na Europa e ganhou cancha reta nos EUA. Opa! Mas, quem melhor que o brasileiro para inventar soluções criativas? E na hora do aperto? Quem não tem cão, caça com o gato! Faltou o elemento necessário para a tarefa em execução? Não tem problema, logo surge a “engembração”, a “gambiarra” ou, mais eufemicamente, a adaptação técnica. E estas me surpreendem, às vezes, positivamente. Algumas superam o elemento original faltante, outras seguem os preceitos da lei de Murphy.
O flyfishing recebe a cada dia mais adeptos, provando que, de difícil, não tem nada. O equipamento é diferente, as técnicas para lançar as iscas também, mas dominado isto, se ganha uma filosofia de vida: a pesca continuada. Ou seja, o pescador começa a pescar quando constrói suas próprias iscas, DIY puro, em casa, sossegado, bebendo um vinho, pensando em como emboscar o peixe, e termina quando volta da pescaria e torna a construir iscas melhores para tentar enganar o peixe mais sofisticadamente, novamente DIY.

Lançar a mosca segue uma meia dúzia de regrinhas básicas que costumo ensinar aos meus “discípulos” em quinze minutos, no canteiro central da avenida, onde há um pequeno trilho de grama para treinar os primeiros lançamentos. Muitos mosqueiros hábeis nasceram ali, em quinze minutos de aula. E assim também o meu amigo Gabriel, quando disse que queria aderir à modalidade. Busquei uma vara de fly, montei a carretilha e aproveitei para explicar como instalar a linha corretamente, que ela deve ser limpa e lubrificada regularmente. Cruzei a avenida “casteando” e pedindo que reparasse na ponta da vara trabalhando em plano paralelo aos fios de telefonia. Retilineamente. Qualquer variação deste plano de movimento seria copiado pela linha causando perdas de precisão e energia. Descarregar a energia concentrada na vara: o conceito de qualquer lançamento. Mostrei os ângulos de amplitude de movimento do antebraço, os pontos de parada brusca, como acelerar e como parar, para descarregar a energia acumulada no movimento. Mostrei ainda os ângulos da carretilha, da vara, da mão e das pernas, início do movimento e apresentação da mosca, reposicionamento, enfim, os quatro ciclos que encerram todo o lançamento da mosca e, de quebra, variações e aceleração extra. Deixei ele treinar e fiquei corrigindo os movimentos. E apreciei mais um mosqueiro “casteando”, o termo aportuguesado para o lançamento da mosca. Lindo, movimentos disciplinados.
Enquanto cruzávamos a avenida retornando para um chimarrão, comentei que meu amigo Tinho passara sete anos estudando tudo que fora escrito sobre a teoria do lançamento. Não contente, estudara a física da cinética do lançamento para então chegar a conclusões muito interessantes que revolucionaram a forma de pensar sobre isto. Ele demonstrava seus lances com uma vara curtinha e um pedaço de lã como linha. Era seu equipamento de pesca “indoor”. Foi como riscar fósforos em um paiol da pólvora. O Gabriel fora para casa, cheio de informações na cabeça e com medo de perdê-las. Precisava treinar para aprender os movimentos. Porém, não possuía o equipamento de fly para treinar. Lembrando do meu comentário e imbuído do espírito DIY, foi em uma ferragem e comprou uns metros de corda seda para varal. Instalou a corda em uma velha e curta vara de pesca, de fibra de vidro, e começou a ensaiar.
Passou uns dias, voltou na loja e mostrou-me o fruto de seu engenho. Fiquei um pouco assustado, ao testar. A vara curta e lenta, com a corda de varal lançava muito bem. Mesmo! Confesso, melhor que muitas varas de fly. Claro, para pescar não serviria, mas como ferramenta de treino e aprendizado, é excelente. Tanto que adotei em meu sistema de ensino. Os movimentos do Gabriel tornaram-se perfeitos em seus treinos, graças ao seu engenho, e quando adquiriu seu equipamento de fly para pescar, estava “casteando” excepcionalmente bem! E esta é uma grande dica, muito barata, totalmente DIY, para quem está iniciando nesta modalidade surpreendente. Pesque e Solte.

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