QUANDO A IMAGEM DE DEUS ESTÁ DOENTE, O SER HUMANO ADOECE

Economiaenegocios Artigos 02 Setembro / 2020 Quarta-feira por Padre Ari

A cultura pós-moderna cada vez mais é sacudida por tsunamis de toda ordem. Entretanto o curioso desse cenário é perceptível que em todas as dimensões societárias há uma inquietação não apenas de natureza pessoal, mas também coletiva e esta realidade tem desembocado na vida das pessoas em forma de distúrbios psicológicos, afetivos, familiares, inter-relacional, profissional como também de ordem religiosa. O retrato desse imaginário são fenômenos de inquietações, ansiedade e medos, insegurança e desassossego, realidade esta, que parece não ser nada promissora em relação ao futuro da própria humanidade. Observe caro leitor o seguinte:
“...as imagens arquetípicas {sempre} mexem com alguma coisa no ser humano. Elas confundem a psique ou trazem ordem para dentro dela. Ora curam as feridas ou abrem-nas ainda mais. Por isso não é tão sem consequências a maneira como {se vê} Deus”. (GRÜN, Anselm – Se quiser experimentar Deus – Tradução de Carlos Almeida Pereira – ed. Vozes – 2ªed. 2001 p.38).
Não há como não perceber que cada vez mais há inquietação no viver do tecido social, principalmente, quando se trata das buscas e escolhas que faz. Por outro lado, e impulsionado pela ideologia do mercado parece que paulatinamente, o mesmo vai adentrando num denso nevoeiro sem perspectiva de realização, aliás, que no fundo de tudo mostra um complexo “estado de ser” confuso.
A cultura vigente consciente e/ou não, tem colocado sua base num terreno pantanoso, pois o contexto da ideologia iluminista insiste em focar a “verdade” num racionalismo deslumbrado, especialmente ao acionar o mecanismo do marketing. Ora, o objetivo último deste, é servir a avidez do mercado que exige e grita em alto e bom tom que ser feliz é preciso adquirir para “aproveitar a vida”, embora, e, sobretudo sem critérios, o que é lamentável, ou seja, consumindo tudo o que proporciona prazer. Entretanto e por outro, o ser humano se defronta com situações inusitadas de um vazio interior, dispersivo e desconcertante do ser-si-mesmo. Sem dúvida, tal situação não deixa de ser paradoxal.
Nesse contexto emerge a questão do sentido que está profundamente vinculada à dimensão de uma pergunta fundamental de natureza antropológica. Quem sou eu? Para onde vou? O que realmente me faz feliz? “...{ora}, em todo o ser humano está presente uma ânsia, uma saudade, que por nada neste mundo pode ser satisfeita”. Ironicamente, a crise pandêmica nos fez parar, pensar e analisar as escolhas e metas para se realizar, embora a realização jamais seja plena no tempo e no espaço, afinal “...nosso desejo do infinito não pode ser saciado por metas finitas”.
De acordo com o pensamento de Paul Michael Zulehner, teólogo austríaco e sacerdote católico. Doutor em filosofia e teologia com formação especial em Teologia Pastoral com várias publicações, amigo e admirador do Papa Francisco. Ele faz a seguinte afirmação: “...nosso desejo de Deus é a maneira discreta de que Deus se serve “para fazer-se lembrado por nós, que tão facilmente o esquecemos”. (op.cit. in Grün, p.73).
Na verdade essa assertiva retrata com muita presteza a situação em que se encontra o homem contemporâneo, ou seja, em altas ondas em um oceano de ondas encapeladas num barco fragilizado e sem as certezas proclamadas pela tecnologia, pelo desenvolvimento e pela ciência. Todas as certezas fogem por entre os dedos mostrando que sem humildade toda onipotência se desbanca para o abismo. É preciso buscar novos paradigmas que deem sustentabilidade no crescimento material, mas, principalmente na busca da realização humana como um todo.
Dois homens na história da Igreja podem nos ajudar nesse momento histórico da cultura contemporânea: Santo Agostinho e Bernardo de Claraval. O primeiro que se parece com nossa época, sem dúvida, é a figura e o testemunho de Agostinho, quando aponta aos homens a verdadeira meta de sua saudade e sua luta interior. Assim clamou:
“...a ti, ó alma, nenhuma outra coisa satisfaz que não seja aquele que te criou. Qualquer outra coisa que agarres se transforma em nada, porque só pode satisfazer-te aquele que te criou semelhante a ti”. (op.cit ibidem - in GRÜN p.76).
Por outro lado, a figura de Bernardo de Claraval, fundador dos monges Trapistas. Bernardo de Claraval retrata muito bem o espírito de nosso tempo quando frisa a questão de possuir sempre mais, como se o desejo de realização própria da alma humana estivesse ancorada nas coisas materiais. “É só em Deus que o nosso espírito inquieto encontrará repouso”.
Carl Gustav Jung afirma: é preciso escutar a alma. Para ele, a alma designa: “...a coisa viva que sentimos clara ou confusamente como fundamento de nossa consciência, ou como a atmosfera de nossa consciência”. (op.cit GRÜN, Ansem – MÜLLER, Wunibald – A alma – Seu segredo e sua força – Vozes – 2010 p.32.) E segue: “...há dentro de mim uma força atuante, alguma coisa viva que eu nunca chego a dominar. Meu eu consciente é, um companheiro mais lento”.
Retrocedendo à relação da problemática da sociedade contemporânea fica patente que a mesma hoje vive uma situação de patologia crônica de tal maneira que se faz necessário mais do que nunca, dessa busca de resposta ao profundo desejo que não é saciado com a ideologia do ter. O ser humano deve deixar aflorar em si o dom da “escuta” da alma que é dinâmica como vida. Sem isso se é impulsionado constantemente pela cultura dos cifrões e alimentando o interesse insaciável do capital financeiro cuja lógica ainda é alimentada por sistemas obsoletos.
Já tenho apontado em outros textos que ideologias como o neoliberalismo e/ou neuroliberalismo, o comunismo, o socialismo, totalitarismos e as ditaduras de qualquer gênero que as mesmas não respondem a construção de uma sociedade harmônica, próspera e inclusiva, embora não haja nenhum sistema que seja ideal, mas os que aí se encontram já provaram que necessitam de algo novo e mais inclusivo, solidário e justo. A insistência em tais paradigmas é fechar os olhos ao óbvio. A história já tem provado o fracasso destes sistemas como se encontram. Mesmo que não haja nenhum sistema ideal de gerir a Coisa Pública, mas é possível alguma forma mais adequada, para a inclusão. É preciso partir para algo que edifique a sociedade no qual todos tenham acesso ao mínimo que diz respeito à dignidade humana.
O projeto de Evangelização para o mundo contemporâneo passa pela capacitação de agentes de pastoral em todos os níveis da cultura contemporânea, a fim de terem substrato suficiente para conduzir o tecido social como um “todo” a escutar o grito da “ALMA”. O grito na prática são as doenças do século em curso, por exemplo, a “depressão”, tão comum em nosso meio. Observe caro leitor!
“...a depressão é frequentemente um grito de socorro da alma contra o desenraizamento de nossa vida. Se eu tiver perdido as raízes que dão força e seiva à minha árvore da vida, seco interiormente. Muitas vezes nem percebo que estou cortado de minhas raízes. Aí a alma pede a palavra na forma de uma depressão”. (ibidem p.35).
O curioso nesse paradigma é que as pessoas tem pressa em livrar-se do desconforto da depressão, ansiedade, dos medos e insegurança, e assim, buscam com avidez remédios ou práticas terapêuticas comportamentais, revela-se nisso o espírito imediatista. No entanto, o primeiro passo é ouvir o que diz minha alma. A alma sempre traz algo mais profundo que a simples depressão, os sentimentos de medo, os ciúmes e outras contrariedades. Outra maneira que se manifesta é através do cansaço, do mau-humor, da tristeza e das decepções e/ou frustrações por algo que não tenha dado certo. É preciso entrar no “eu” e escutar a “alma”.
É importante frisar a observação de Carl G. Jung, quando ele distingue duas questões: Se nós “...nos deixamos estimular e levar ao nosso verdadeiro “si-mesmo”, ou se nos identificamos com uma imagem arquetípica. Se nos identificamos com imagens arquetípicas, ficamos cegos para as nossas próprias necessidades de poder, de proximidade e de ternura”. (op.cit GRÜN, in Alma p.42). E segue: “...a alma pode mostrar-me, por exemplo, que preciso sair de minha atividade meramente administrativa e voltar-me mais para as pessoas”.
Emerge aqui a questão da consciência, pois a mesma tem a ver com a alma. A bíblia vê na consciência a relação da alma com Deus. Nesta relação, alma sente o que para ela serve ou não. Vê-se nisso também a visão dos Padres da Igreja, como Clemente de Alexandria, que para ele “...a consciência da pessoa, seu interior, seu cerce pessoal ao mesmo tempo {é} a voz de Deus em sua alma. A teologia católica designa a consciência como a norma suprema”.(ibidem p.35). A Encíclica Gaudium et Spes, 16, com muita propriedade define assim: “...a consciência é o núcleo secretíssimo e o sacrário do ser humano onde ele está sozinho com Deus e onde ressoa a voz de Deus {...} é o núcleo pessoal e existencial”.
É dentro deste contexto que se é induzido a descobrir novamente a importância da espiritualidade a partir da Palavra de Deus orante e dos sacramentos. A cultura contemporânea necessita redescobrir o valor da interioridade como resposta ao encontro do sentido. O encontro com a alma tem necessidade da introdução à meditação e ao silêncio. Veja caro leitor! “...é a simplicidade da meditação que é sua grande força. A força que a fé emana é o poder de nos simplificar e nos levar àquela unidade que todos nós mais buscamos”. (FREEMAN, Laurence – Perder para encontrar – A experiência transformadora da meditação – 2ªed. – Vozes – 2009 p.151). O exercício da meditação nos ajuda a adentrar na viagem para dentro do “Eu” de cada um. Ali é possível encontrar o sentido de que se busca e que nem sempre estão nas escolhas que se faz. É bom pensar! (continua)

Categorias:   Notícias | Artigos | Economia e Negócios | Estilo | Cultura | Esportes