SABER DISCERNIR OS TEMPOS: Capacita o homem de fé para a crítica dos ídolos e das ideologias

Economiaenegocios Artigos 18 Agosto / 2020 Terca-feira por Padre Ari

No entanto, todo o processo de evangelização da Igreja necessita mais do que nunca de uma consciência crítica tanto a si mesma como em relação à própria sociedade em que está inserida. “...não é possível uma verdadeira crítica das ideologias, inclusive eclesiais, se as pessoas e as comunidades não estiverem dispostas a aceitar a contestação profética e a abrir os olhos e não somente a notar os dos outros”. (HAERING, Bernhard Moral e Evangelização hoje – Paulinas – 1977 p.20)
Se observarmos a situação do país, como também em nível de mundo há uma polarização estranha nos diversos setores societários, o que na prática cria muitos empecilhos ao desenvolvimento sociocultural, político, econômico e religioso.
A civilização contemporânea vem estigmatizada pela onipotência e pela ousadia de querer escalar o progresso e o desenvolvimento da ciência e da tecnologia de forma retilínea e infinita. É aceitável e justo o desejo que crescer, embora, e, sobretudo sempre deva ser pautado pela humildade. Com o desenvolvimento fascinante dos meios de comunicação social, o ser humano perdeu paulatinamente a consciência e domínio sobre o próprio “Eu”. Se por um lado, o avanço da tecnologia da comunicação abriu novos horizontes, por outro, levou o ser humano a perder sua identidade que caracteriza seu “Eu”. Por muito tempo se percebe que se tem caminhado na superfície do “eu-mesmo”, e assim, a pergunta quem sou eu? Parece ter-se esvanecida da própria existência.

O DESAFIO É ESTAR ATENTO ÀS MUDANÇAS SOCIOCULTURAIS, POLÍTICAS E RELIGIOSAS DO MOMENTO HISTÓRICO

As dicotomias das últimas décadas vêm polarizando energias preciosas da humanidade como um todo, como tem petrificado cada vez mais a capacidade para uma denúncia crítica em relação à cultura vigente e suas escolhas valorativas. Infelizmente, o tecido social além de estar anestesiado por essa cultura vazia e desintegradora vem sendo engolido por ideologias cada vez mais empobrecidas e niilista, eivadas de reducionismos doentios e fundamentalistas e que, ao mesmo tempo, obscurecem a visão para a evangelização nesta mesma cultura. Nesse afã se percebe que ao invés de proclamar o Anúncio do Reino, muitos cristãos católicos, sacerdotes e bispos estão mais preocupados em salvaguardar as “tradições” no sentido pejorativo do termo do que na “Tradição” no sentido de manter viva a essência dos ensinamentos de Jesus. Eis o desafio que está gritando!
“...os sinais dos tempos são, por sua própria natureza, apelo à vigilância, à conversão e a reforma das estruturas. Quem não está disposto a unir a conversão pessoal e a renovação das estruturas numa única síntese jamais será capaz de discernir e de ler os sinais dos tempos”. (op.cit Tomás de Aquino – in Haering, Bernhard – Moral e Evangelização Hoje – Paulinas – 1977 p.18).
Portanto, é preciso ter ciência que a tecnologia hoje, especialmente da comunicação tem aberto um campo vasto e fascinante. No entanto e, paradoxalmente é através desse veículo que se percebe as contradições e o bombardeio de informações, muitas contraditórias e paradoxais, outras falsas e com tendências conscientes de induzir o leitor e o ouvinte ao erro. Os que mais são vítimas dessas distorções são as crianças e os jovens que vivem 48 horas com o celular, a internet e outros meios afins. Os que evangelizam, sem dúvida, necessitam de senso apurado para perceber nesse processo, que se por um lado auxilia no processo e de evangelização, por outro pode se tornar um inimigo crucial aos valores do Reino. É preciso estar alerta ante algo que possui duas pontas.
Preparar para tempos eivados de pântanos traiçoeiros, o princípio parte sempre de uma experiência pessoal de Deus, ou seja, do cultivo de uma espiritualidade crística profunda através da Leitura orante da Palavra, da meditação, contemplação, do silêncio e da eucaristia como fontes de energia para a missão ao qual se é chamado. É preciso preparar-se na interioridade para a percepção de um ministério profético, árduo e sinistro em muitos momentos ainda mais nessa sociedade plural e desconexa, cujo terreno está pleno de obstáculos que possam induzir a erros e fundamentalismos que não seja a “Verdade” de Cristo e do Evangelho.
“...a primeira condição para a evangelização é a fé profunda e viva. A fé é {sempre} escuta e abertura, mas também resposta e dom de si”.(HAERING, p.20). E segue:
“...a escuta inclui os sinais dos tempos: homens e comunidades que não querem prestar essa atenção sepultam inevitavelmente a Deus no passado, ao passo que mediante a vigilância pessoal e comunitária o homem vive na presença de Deus, Senhor da história”.
Vive-se hoje de tal forma, que parece que com todas as tragédias na história de um passado recente não se tenha aprendido a lição. Tudo devido a um senso de ganância extravagante de uma parcela do tecido social envolto em suas riquezas e quinquilharias, assim mesmo, há uma cegueira que não permite olhar além do aqui e do agora. É preciso superar esse espírito de onipotência e de orgulho e iniciar um processo de transformação em prol de uma sociedade justa, inclusiva e fraterna.
Ainda é nítido o foco da caminhada de uma parcela significativa do tecido social, influenciado pela ideologia do ter insistem em viver mais preocupados com o “Kronos” linear e ilimitado, e, por outro se esquecendo de viver o tempo “Kairós”, e estranhamente o mundo dos homens, continua a palmilhar tempos obscuros e sem perspectivas de luz no fundo na “caverna”. Supunha-se que nesse novo século XXI, a humanidade, especialmente, a ocidental repensasse as escolhas em direção a um paradigma mais justo, inclusivo e solidário, pois num passado recente amargou experiências tristes e tétricas, no entanto, parece que a memória é fraca e a história se repete em todos os níveis, também eclesiais onde o ter, o poder e o prazer retornam com toda a força.

QUE ELEMENTOS NO PRESENTE MOMENTO RETRATAM UM RETROCESSO?

Emergiram novos ídolos com base no sucesso do desenvolvimento exclusivamente econômicos e não sustentáveis.

Reaparecem no cenário local e mundial, novos desequilíbrios, pseudos líderes, autocratas sem escrúpulos, polarizações e conflitos tanto na Conjuntura Política socioeconômica local quanto mundial, também dentro da própria Igreja.
O fenômeno da poluição que atinge tanto a ecologia humana como a ambiental, com destaque no esgotamento dos recursos humanos provocados pela minoria rica e poderosa.
Em contrapartida as classes ricas como as nações ricas e poderosas não querem sequer renunciar seus privilégios e seu domínio sobre os mais fracos, transformando tudo em “sobras” principalmente humanas e descartáveis.
Outro elemento trágico e triste muito presente nessa cultura pós-moderna é o “materialismo” encarnado no sistema capitalista neoliberal e/ou neuroliberal como todos os demais sistemas fundados no materialismo dialético, ou seja, comunismo, socialismo, totalitarismos tanto de Estado como de ditaduras de qualquer natureza.
Sem dúvida, que todos esses pressupostos desembocam num ateísmo e secularismo humanista e que prescindem de qualquer transcendência. Tudo não deixa de ser um desafio aos cristãos, conscientes e convictos de sua fé e missão. É importante frisar que:
“...não somos cristãos por dedução lógica, por obedecer a determinadas exigências morais, muito menos por uma opção baseada no sentimento ou na emoção, mas por acolhermos de coração em nosso íntimo, o fato Jesus que se prolonga até o nosso espírito através do Espírito, o qual nos faz chamar verdadeiramente a Deus de Pai, que nos faz filhos de Deus”. (CATÃO, Francisco – Espiritualidade Cristã – Teologia Espiritual – ed.Siquem/Paulinas – 2009 p.22). E segue:
“...Jesus é o padrão de toda espiritualidade humana {...} não apenas ao Cristianismo histórico, mas ao caminho que leva todos os humanos à plena realização de si mesmos”. (ibidem p.23).

É a partir desse pressuposto que a evangelização torna-se tarefa fundamental e importante aos cristãos, especialmente aos católicos.
Sempre é bom refletir o papel e o lugar no qual precisamos estar presentes com o Anúncio da Boa Nova! Caro leitor! Sinta-se desafiado!

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