Interculturalidade: Simbologia, Sentido, Respeito e Política Ocidental

Economiaenegocios Artigos 18 Dezembro / 2018 Terca-feira por Padre Ari

No decorrer do tempo, mais precisamente com a revolução industrial e tecnológica, a cultura da cibernética e da eletrônica acentuaram cada vez mais uma cisão entre o homem e a natureza.

Com o avanço e aperfeiçoamento da chamada “Era Digital”, se vivencia uma comunicação virtual em larga escala, por outro lado, tem empobrecido as relações reais e interpessoais. Por outro, permeia nos bastidores a força da economia de mercado e o capital financeiro impondo suas normas, regras a todas as culturas com a sua lógica de domínio sobre as mesmas.
Esse paradigma traz no seu bojo diversos elementos que desfiguram as culturas com suas riquezas e peculiaridades ao reduzir as mesmas para uma “monocultura”, cujo carro chefe é a globalização e o globalismo.
É preciso conhecer o que significa globalização e globalismo, aliás, pois ambos não são sinônimos como muitos possam imaginar. A sutileza que detém esses termos usados, nem todos possuem a clareza conceitual de ambos como suas consequências no contexto do tecido social, mormente, contemporâneo.

Globalização é um fenômeno de conexão comercial entre países com economias fortes, abrindo para a possibilidade de competição econômica e de transações comerciais em nível mundial.

Globalismo é um fenômeno político que parte do pressuposto do “vale tudo pelo poder”. É importante frisar o “jogo linguístico” que está permeado nos bastidores da sociedade quando se trata de “globalismo”. O que na prática significa? É um movimento ideológico que busca suprimir uma moral estrutural, uma tradição arraigada e/ou conceitos que sustentam a realidade ocidental tal com a recebemos dos séculos que nos precederam. Portanto, é um movimento verdadeiramente de “engenharia social” em sua conceituação mais dinâmica e completa.
A partir desse pressuposto é que se necessita estar atentos quando se trata da pluralidade das diversas culturas. Exemplo: as minorias étnicas, as culturas autóctones, a cultura indígena, os negros e os quilombolas, os ciganos e outros grupos que é preciso respeitá-los. O ser humano não foi criado em série, mas sim, com autonomia, diferentes uns dos outros, embora sejam pessoas de relações interpessoais e que vivem sua individualidade, ou seja, a unidade na diversidade. Reduzir os humanos a “indivíduos” é fragmentar a dignidade humana. O homem e a mulher são seres sociais por essência e não por acidente de percurso.
Ignorar essa visão antropológica significa “desconstruir” as estruturas, costumes, línguas, crenças e a peculiaridade de cada grupo social e/ou povo por mais simples que seja. Na cultura contemporânea há uma tendência de reduzir estas riquezas dos povos diversos, em favor dos interesses políticos e econômicos, ou seja, uma cultura economicista.
A pergunta que se faz nesse momento histórico brasileiro é: Será que a gestão do novo governo, embora em princípio tenha mostrado boa vontade em acertar, vai respeitar as peculiaridades destes povos que compõe a nação brasileira? Deve-se destacar que Deus nos criou diferentes, com características próprias e não para a uniformidade e sim, na diversidade que na sua totalidade formam a unidade nacional.

A preocupação de enxugar a máquina governamental com objetivo de manter uma economia sustentável, aliás, que em princípio é positiva nos aponta em contrapartida, que é preciso da sociedade o exercício da cidadania participativa. Daí pergunta-se, até onde a fusão de ministérios poderá ajudar em determinados assuntos, mormente a questão indígena no Brasil. O assunto exige prudência, discernimento e capacidade de olhar além de interesses apenas de natureza econômica.
No caso da questão indígena, é sabido que subjaz de forma sutil a pressão de grupos corporativos com interesse nas riquezas das terras indígenas. Moralmente jamais se deve ceder à “desconstrução” de tais culturas, aliás, que em nome da integração nacional poderá haver uma ingerência na vida destes povos. Sabe-se que tanto da parte de quem gerencia a nação, quanto, muitos cidadãos que consciente e/ou falam em integração nacional desses povos. No entanto há muita pressão por parte do agronegócio, interesses nos minerais destas terras, também e principalmente de estrangeiros que lutam para ter acesso livre a estas terras. Então novamente se questiona: Nessa fusão do Ministério dos Direitos Humanos, da família e da FUNAI, será que os gestores serão imparciais e não vão facilitar a desconstrução dos povos indígenas que são os verdadeiros autóctones desse país?
Será que a questão dos quilombolas não é outra triste realidade, que se trata de uma questão de reconhecimento como de um pedido de perdão pelo que foi feito a estes povos? É bom relembrar a crueldade do tráfico de negros que tiveram a ousadia de separar famílias e tribos diferentes para não se organizarem e, assim mais facilmente serem submetidos à escravidão?
“...para compreender alguns símbolos religiosos – como “cuidar”, “poder”, “fogo”, “circulo de vida” – é preciso entendê-los a partir de um sistema de signos opostos a eles {...} é impossível “explicar um símbolo sem fazer referência ao sistema total de relações, instituídas no interior de um universo social específico”. (ASTRAIN – Ricardo Salas – O Sagrado e o Humano – Para uma hermenêutica dos símbolos religiosos – Ed. Nova Harmonia – 2018 – p.50). E segue:
“...dentro de uma perspectiva antropológica, é importante salientar que tais signos se delimitam a universos culturais distintos: católico, judeu, {indígena}, e etc.”.


A LÓGICA DO MERCADO E DA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL PRESCINDE DE CONHECER E RESPEITAR O DIFERENTE

A reflexão crítica que se faz numa possível política da fusão de alguns Ministérios, mormente quando se trata dos povos indígenas, quilombolas e outros, exigirão pessoas bem preparadas sob o ponto de vista sociológico, filosófico e histórico. A questão não é tão simples como a primeira vista possa parecer. É preciso conhecer a realidade destes povos cujas culturas se diferenciam da lógica do mercado que sob o pretexto de “integração” dessas culturas haja um processo de desestruturação, aliás, que já tem conduzido muitos indígenas ao suicídio por perderem sua identidade e seu chão. Essa cultura ocidentalizada e com base nos “cifrões” não será a resposta para esses povos. Um fato a ser levado em conta é que o “símbolo religioso”: “...não é completamente transparente, isto é, não há uma explicação científica. {...} trata-se, pois, de uma compreensão que aguça o respeito ao sentido enigmático”. Por isso:
“...os símbolos religiosos exigem tanto a explicação adequada à própria cultura (nível semiológico), como também a compreensão capaz de assegurar a subjetividade religiosa. É a partir dela que se torna possível indicar a textura fundamental das significações a respeito do sagrado”. (ASTRAIN, 2018 p. 51).
O Brasil tem tudo para dar certo, embora tenha que estar atento aos que farejam somente o crescimento econômico e a lucratividade sem critérios de sustentabilidade e de respeito ao ser humano.
“...o ser humano é sempre um ser de relações interpessoais e traz no seu coração a beleza da biodiversidade cultural e consciente das diversas etnias”. (SILVA, Ari Antônio – Planeta Terra em Crise: Urge repensar a história com novos paradigmas. – Ed. Harmonia – 2017 – p.37).

O pensamento contemporâneo é desafiado a olhar sobre si mesmo e perceber que: “...o problema fundamental subjacente ao simbolismo diz respeito ao nexo estabelecido entre algo visível e algo invisível {...} o simbolismo, tal como aparece na vida cotidiana, está vinculado a imagens, signos e ações que permitem representar algo que vai além do meramente sensível. Por exemplo: uma flor presenteada a alguém, um brinquedo de Natal etc, representam, em geral, o carinho e afeto que sentimos por aqueles que nos cercam. Trata-se, então, de um jogo de significações que permite mostrar algo além do enxergado”. (ASTRAIN, 2018 p. 51). E segue:
“...do mesmo modo como deve descartar o enfoque “semiológico”, em sua pretensão de reduzir toda a realidade ao signo, deve-se descartar também o reducionismo psicológico, pois o simbolismo não se resume à mera expressão de uma emoção”.
Sem uma análise profunda e crítica dessa realidade acima exposta, continua-se a ver as tragédias desses povos massacrados pela ganância de um imaginário com base na lógica do mercado, aliás, que possui suas normas, leis e princípios que no geral responde somente aos anseios de uma elite inescrupulosa e sem nenhuma misericórdia para com os seus semelhantes.
“...as sociedades em crescimento devem permanecer fiéis a tudo o que há de verdadeiramente humano em suas tradições, evitando de lhe sobrepor automaticamente os mecanismos da civilização tecnológica globalizada {...} em todas as culturas existem singulares e variadas convergências éticas, expressão de uma mesma natureza humana querida pelo Criador e que a sabedoria ética da humanidade chama “lei natural’. (BENTO XVI – Carta Encíclica – Cáritas in Veritate, 59 – SP – Paulus/Loyola – 2009)
Sempre é bom pensar!

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