Quaresma tempo de rever e avaliar a vida pessoal e comunitária

Economiaenegocios Artigos 09 Fevereiro / 2016 Terca-feira por Padre Ari

Todos sabem que qualquer organização, pessoa, comunidades que com certa frequência não faz uma revisão, além de não crescer estaciona e a tendência é regredir. Assim, olhando sob a ótica da economia no mundo das empresas e tantas outras organizações, as que não fazem com certa regularidade essa análise a tendência é falir.

Ora, se no mundo do mercado esse procedimento é um princípio norteador e determinante para o crescimento e a saúde econômica do empreendedor, quanto mais nós como pessoas que através do batismo e do crisma que um dia assumimos um compromisso com Deus de fidelidade, e levar um comportamento com lisura e transparência, há maior necessidade dessa revisão em nossas vidas para que nossa espiritualidade crística seja autêntica e reta, a fim de manter o compromisso de fidelidade à Deus que através de seu Filho Jesus nos deixou a tarefa de evangelizar e alimentar o mundo de solidariedade e de justiça para todos.
Partindo desse pressuposto a Igreja no Brasil através da CNBB, há muitos anos tem procurado unir a espiritualidade quaresmal ligada à vida do dia- a- dia. Uma espiritualidade cristã desvinculada da realidade existencial é vazia e deixa de cumprir com o seu dever de transformação e evangelizando com o intuito de promover um mundo de irmãos. Há mais de cinquenta anos a Igreja instituiu a “CAMPANHA DA FRATERNIDADE” cuja finalidade principal é: “...vivenciar e assumir a dimensão comunitária e social da quaresma.

A Campanha da Fraternidade ilumina de modo particular os gestos fundamentais desse tempo litúrgico: ORAÇÃO, O JEJUM E A ESMOLA”.
Cada ano a Igreja se detém num determinado tema que diz respeito a algo que se refere ao tecido social. Nesse ano, 2016 o foco do tema é: “CASA COMUM, NOSSA RESPONSABILIDADE” e o lema:“QUERO VER O DIREITO BROTAR COMO FONTE E CORRER A JUSTIÇA QUAL RIACHO QUE NÃO SECA”. (Am 5,24).


O TEMPO DA QUARESMA NOS APRESENTA TRÊS PILARES FUNDAMENTAIS PARA SE VIVER UMA ESPIRITUALIDADE AUTÊNTICA

Esses três pilares definem a nossa relação com os outros (esmola), com Deus (a oração) e as coisas (o jejum).
A nossa existência é estruturada por essas três relações fundamentais.
Nelas realizamos o projeto de Deus para a nossa vida ou desmoronamos como a casa construída sobre a areia.(Mt 7,27)
É muito difundida a ideia de que a culpa é algo introduzido pela religião. Por isso muitos negam que existe o pecado.
É um ledo engano. Muitos cristãos ou não pensam que se não existisse Deus, inexoravelmente desapareceria o sentimento de culpa e assim ficaria livre para fazer o que bem entendesse, por não haver mandamentos.
É uma falsa visão da realidade do ser humano. “A culpa não é algo inventado pelos crentes, mas uma experiência universal vivida por todo ser humano, como tem lembrado insistentemente a filosofia moderna (Kant, Heidegger e Ricoeur)”. (PAGOLA, José Antonio – O caminho aberto por Jesus ).
E segue: “Crentes e ateus, todos nós nos confrontamos com esta realidade dramática sentimo-nos chamados a fazer o bem, mas sempre de novo fazemos o mal”. Comenta-se nas rodas de pessoas que desapareceu a consciência de pecado.
Ora, na realidade isso vem acentuar e mostrar mais ainda que o problema mesmo esteja na crise de fé, aliás, nem sempre sadia, de enfrentar a própria culpabilidade, pois prescindir de Deus, não poucos vivem a culpa de modo mais confuso e mais solitário.

“Não poucas pessoas pensam que o pecado é um mal que se faz a Deus, que “impõe” os mandamentos porque convém a Ele; e por isso Ele castiga o pecador {...} não conseguimos compreender que o único interesse de Deus é evitar o mal a seus filhos e filhas, pois o pecado é um mal para o ser humano, não para Deus”. (PAGOLA, 2012).
Tomás de Aquino afirma: “Deus só é ofendido por nós porque agimos contra nosso próprio bem”. É preciso evoluir na forma de nos vermos pecadores, pois se percebe que “...pararam na forma mais primitiva e arcaica de viver o pecado {...} sentem-se “manchados” por sua maldade {...} indignos de conviver com seus entes queridos e não conhecem a experiência de um Deus que perdoa. (PAGOLA, 2012).

DEUS É UM PAI MISERICORDIOSO E NÃO CASTIGADOR

É preciso ficar claro que a “culpa” não foi inventado pelas religiões, mas uma experiência humana, antiga e universal. Pagola afirma: “O problema não consiste na experiência da culpa, mas na maneira de enfrenta-la”. Como?
“A pessoa assume a responsabilidade por seus atos, lamenta o dano que pode ter causado e esforça-se para melhorar no futuro sua conduta {...} vivida assim, a experiência da culpa faz parte do crescimento da pessoa para sua maturidade {...} a pessoa que se fecha em sua indignidade, fomenta sentimentos infantis de mancha e sujeira, destrói a autoestima se anula e se atormenta, se humilha, luta consigo mesmo, mas no final de todos os seus esforços não se liberta nem cresce como pessoa”.
Há muitas pessoas que tentam reduzir o pecado a uma “vivência psicológica”, definindo a pessoa como um doente ou como uma debilidade.
Essas modas têm encontrado entre alunos da psicologia, da área da saúde em geral, certa rejeição ao falar em pecado. Seria uma espécie de uma moral sem pecado. É lamentável, quando se precisam ajudar certas pessoas embaralhadas e influenciadas por tais teorias que não conseguem se libertar por terem sido atendidas por profissionais inescrupulosos ao fragmentar o ser humano que é composto pela dimensão cognitiva, da corporeidade e pela transcendência. Ao omitir a transcendência não há como curar alguém. Dizia Carl Jung: “Nos meus pacientes acima de 35 anos, quando consegui harmonizar suas dificuldades com a espiritualidade, eu os curei”. Todo ser humano deve viver sua experiência de culpa perante um Deus que é amor e somente amor. É bom pensar!

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