Está tudo calmo?

Economiaenegocios Artigos 03 Junho / 2012 Domingo por Décio Baptista Pizzato

As expressões usadas são do tipo “o clima é de que a festa brasileira acabou”, de Richard Lapper, diretor do Brazil Confidential, o serviço de análises sobre o Brasil do jornal britânico "Financial Times". Indo para a recomendação de um “choque de realidade em relação ao Brasil”, de Nouriel Roubini, economista conhecido por prever o colapso do mercado imobiliário americano. Já Neil Shearing, da inglesa consultoria Capital Economics, se apresenta como um dos analistas frustrados com o Brasil, "Havia uma bolha de entusiasmo pelo Brasil o problema é que o crescimento brasileiro ficou atrás não só dos outros Brics, mas também de outros latino-americanos, como o México". Outro que faz crítica ao país é o escritor e jornalista Bill Hinchberger em artigo para a Foreign Policy que diz que o crescimento de 2,7% do PIB em 2011, fez o Brasil "acordar em uma quarta-feira de cinzas de ressaca da euforia do crescimento da década passada. O carnaval acabou".

Criticas fortes, que tem como contraponto as declarações dos dois homens mais importantes da economia brasileira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini.

Mesmo com um PIB de 0,2% no primeiro trimestre, conforme divulgado pelo IBGE, Mantega mantém o entusiasmo de que o país crescerá 4,5% em 2012. Para ele as medidas de incentivo à economia que o governo tem tomado ao longo dos últimos meses, como a redução dos juros e o controle do câmbio serão a força motriz do crescimento neste ano.

Para Tombini, em nota para a imprensa, informa que fica a cargo da demanda doméstica a sustentação do crescimento. Na sua forma de ver “A demanda doméstica continuou sendo o principal suporte da economia, com o consumo das famílias sendo estimulado pela expansão moderada do crédito, pela geração de empregos e de renda”. Tombini vai mais além, afirmando ainda que o ritmo de crescimento da economia deva aumentar ao longo do ano. “Os sólidos fundamentos e um mercado interno robusto constituem um diferencial da economia brasileira. Dessa forma, mesmo diante do complexo ambiente internacional, as perspectivas apontam intensificação do ritmo de atividade ao longo deste ano”.

Já para este simples economista no artigo A Banca ganha, de 11/05/2012 coloquei o seguinte trecho:

"Ao ser aprovada a Medida Provisória ainda no primeiro semestre o governo poderá continuar com a pressão pela queda na Taxa Selic. Lembrando que a atual cúpula do Banco Central e sua extensão no Comitê de política Monetária (Copom) neste governo são mais flexíveis da que esteve com os comandos da política monetária, nos oito anos do governo anterior.

Ao pressionar pela queda nas taxas de juros o objetivo está no curto prazo. Em julho próximo vencerão R$ 132,7 bilhões nos títulos da Dívida Pública da União. Nos meses seguintes serão mais R$ 104,27 bilhões. Com a Taxa Selic em queda e os juros bancários também, as condições para a rolagem da Dívida serão favoráveis. Afinal as magnitudes dos valores pagos de juros ou na rolagem da Dívida sempre estarão situadas na casa de centenas de bilhões de reais."


O total da Dívida Pública Mobiliária Federal em abril ficou em R$ 1, 880 trilhão. Neste último dia do mês de maio, em declaração do chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Túlio Maciel, informava que com a Taxa Selic em 8,5%, representaria uma economia de R$ 30 bilhões, nos juros a serem pagos em 2012.

É mais do que sabido que a dívida de R$ 236,97 bilhões a vencer no segundo semestre deste ano será apenas rolada.

Por enquanto o governo travou parte dos gastos com juros a serem pagos pelo superávit fiscal, assim como impediu a fuga para a poupança das aplicações em títulos públicos em mãos dos fundos de renda fixa, de previdência, das seguradoras e instituições financeiras. Também está conseguindo segurar a moeda americana na casa dos R$ 2,00, via compras pelo Banco Central. O tempo dirá se esta política de sucesso agora se manterá correta no longo prazo.

Mas até onde conseguirá manter este equilíbrio de malabarista?

As empresas e instituições financeiras que tomaram empréstimos externos, por taxa de juros mais baixos, estão vendo a sua dívida aumentar pela elevação do dólar e, por consequência, o lucro diminuir. Também encarece os produtos necessários e que ajudam a manter a inflação sobre controle. A política de oferta de crédito e redução de impostos para garantir o consumo, esbarra na baixa capacidade dos consumidores em aumentar o seu endividamento, afinal o poder de compra continua baixo. A crescente inadimplência mostra isso.

O IBGE ao divulgar o pífio crescimento do PIB em 02% no primeiro trimestre em relação ao trimestre anterior com ajuste sazonal, mostrou o Brasil atrás de seis países que já divulgaram os resultados das contas trimestrais.

Apenas como comparação, como informou o instituto, o Brasil ficou atrás do Chile, com alta de 1,4%, México 1,3%, do estagnado Japão 1%, Coréia do Sul 0,9%, e da Alemanha e Estados Unidos, ambos com alta de 0,5%%.

Em termos de PIB per capita do país está em US$ 11,6 mil, em paridade de poder de compra com base em valores de 2011. É o último na lista. A liderança cabe aos Estados Unidos, com US$ 48,1 mil; seguido pela Holanda, com US$ 42,3 mil; Alemanha, com US$ 37,9 mil; Reino Unido, com US$ 35,9 mil; França, com US$ 35 mil; e Japão, com US$ 34,3 mil. Na outra ponta, além do Brasil, está o México, com US$ 15,1 mil; Chile, com US$ 16,1 mil; Portugal, com US$ 23,2 mil; Itália, com US$ 30,1 mil; Espanha, com US$ 30,6 mil; Coréia do Sul, com US$ 31,7 mil e União Européia, com US$ 34 mil.

Portanto as tranqüilas afirmações de Mantega e Tombini esbarram no baixo poder de compra per capita do brasileiro.

Por outro lado, uma alta nos preços do petróleo somada a um dólar alto, vai fazer a inflação disparar. Afinal ainda estamos dentro do Ano do Dragão. O PIB do primeiro trimestre acendeu um sinal de alerta.

Fica a pergunta – Está tudo calmo?

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