A volta ao passado

Economiaenegocios Artigos 13 Fevereiro / 2012 Segunda-feira por Décio Baptista Pizzato

Ron Paul, é congressista pelo Estado do Texas, entrou na política quando o então presidente Nixon acabou com o padrão-ouro em 1971. Foi quando começou a defender o dólar dos ataques do governo e do Banco Central e lutar pela causa da Liberdade. Entre suas excêntricas idéias está a que: "A quinta das dez medidas propostas por Marx no Manifesto Comunista é clara: ‘Centralização do crédito nas mãos do Estado, por meio de um banco nacional com capital de Estado’. Isso não quer dizer que qualquer pessoa que defenda um banco central poderoso seja comunista. Mas mostra que um banco central é extremamente benéfico para aqueles que preferem um governo autoritário".

Cabe aqui um pouco de história, o chamado Choque Nixon aconteceu em 15 de agosto de 1971, quando acabou a convertibilidade direta do dólar em relação ao ouro. Após a Segunda Guerra Mundial, um sistema semelhante ao padrão-ouro e algumas vezes descrito como um "padrão câmbio-ouro" foi estabelecido pelo Acordo de Bretton Woods. Sob este sistema, países fixaram suas taxas de câmbio em relação ao dólar dos Estados Unidos. Os EUA prometeram fixar o preço do ouro aproximadamente à $35 por onça. Desta forma, todas as moedas atreladas ao dólar também tinham um valor fixo em termos de ouro. Em 1970 a França, presidida por Charles de Gaulle, trocou suas reservas de dólar por ouro do governo americano, o que reduziu a influência econômica dos Estados Unidos no exterior. A razão francesa foi em virtude dos americanos estarem envolvidos até o pescoço em gastos militares com a Guerra do Vietnã, e já naquela época com déficits fiscais. Gastavam mais do que arrecadavam. O presidente Richard Nixon acabou com a conversão do dólar em ouro, antes que outros países seguissem o caminho da França. Mais recentemente o governo republicano de George W. Bush levou o país a duas guerras, a do Iraque e do Afeganistão, que custaram mais de um trilhão de dólares.

Ao vir à tona a crise de 2008 nos Estados Unidos, grupos de opinião começaram a ter como visão que essa não teria acontecido se fosse extintos os bancos centrais. Como se a culpa fosse dos bancos centrais e isentando os governos perdulários.

Agora este modismo está chegando ao Brasil.

No debate na Fecomércio-SP, importaram para ser estrela do evento o economista americano Steven Horwitz, professor na St. Lawrence University. No ranking da Revista Forbes, ocupa o 64º lugar das melhores universidades.

Para Horowitz "um sistema (financeiro) competitivo sem um banco central produziria a quantidade correta de dinheiro, da mesma forma como os mercados são melhores do que um planejamento central para produzir a quantidade correta de alimentos”. E mais, os bancos seriam mais cautelosos se não existisse uma entidade capaz de "criar dinheiro do nada" para salvá-los. Assim, não se formariam as grandes bolhas, na opinião do professor.

Dentro desse espírito, o economista Paulo Rabello de Castro, presidente do Conselho Superior de Economia da Fecomercio, também criticou o BC brasileiro. "Aqui no Brasil a gente paga juros para nada". E continuou: "No Brasil, monopolizam-se muitas coisas, não só a emissão de dinheiro".

Colocadas as idéias e as manifestações, cabe começar agora fazer a análise. Parece que Rabello de Castro esqueceu que a fixação das taxas de juros e principalmente o pagamento dos juros são para manter em pé a brutal Dívida Pública do país, tanto Interna como Externa. Dívida esta que cresceu 202,7% nos nove anos do governo de "nunca antes nesse país”, atingindo o montante de R$ 1.866,35 bilhões. Para fazer frente com os gastos com juros dessa dívida, o governo arrecadou R$ 993 bilhões, com um crescimento de 10,1%, em 2011 sobre 2010. Lembrando que o país não cresceu em igual percentual no mesmo período.

Repetindo, até 1971 os Estados Unidos tinham o Padrão-Ouro, ou seja, os dólares podiam ser convertidos em ouro, bastava fazer a troca. Só que naquela ocasião não havia ouro suficiente para cobrir o dinheiro que circulava. Qual a solução encontrada? Acabar com o padrão-Ouro!

Em 2010, os Estados Unidos quase entraram em default quando a sua dívida atingiu o limite legal de US$ 14,29 trilhões, equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB) de 166 países. Tudo que a economia mundial produziu em 2010 somou US$ 62 trilhões, assim a dívida americana representava 23% dessa riqueza.

Assim como em 1971, quando não havia ouro suficiente para a conversão dos dólares em circulação, hoje também não existem recursos para saldar a dívida americana. Agora surge como solução, acabar com o guardião da moeda. E sempre encontram seguidores dessa idéia tanto nos Estados Unidos, como agora no Brasil.

A crise de 2008 foi iniciada pela aplicação de modelos complexos desenvolvidos para serem utilizados nas concessões de crédito. Tudo aconteceu sob o olhar complacente do homem mais poderoso do sistema financeiro americano, Alan Greenspan, que presidiu o Federal Reserve - FED de 1987 a 2006. Manteve uma atitude ideológica contra a regulamentação do sistema financeiro americano, que na sua visão o mesmo deveria se auto regular. Parece que não via ou não queria ver, já que no período que presidiu o FED, aconteceram a contaminação da crise da Ásia, a moratória russa e o estouro da bolha especulativa das empresas de internet. O mesmo modelo de liberalismo acontecia sob os olhos complacentes da Securities and Exchange Commission –SEC, equivalente a nossa Comissão de Valores Mobiliários. Empresas fraudaram balanços, mostraram lucros fictícios e enganaram os investidores de suas ações.

Agora, parecem querer a volta dos economistas fisiocratas e o liberalismo econômico, que propunham no século 18, o principio da total liberdade de negociações econômicas, trabalhistas, liberdade de iniciativa e a não regulação da economia pelo Estado. Os fisiocratas pregavam o livre comércio, admitindo-se que o preço de mercado livre é o da ordem natural. A expressão na época era "laissez faire, laissez passer", literalmente "deixai fazer, deixai passar". É considerada a primeira escola de economia científica, mas teve uma breve duração, de pouco mais de 20 anos. Tempo mais do que suficiente, para os novos fisiocratas americanos arrumarem a sua casa.

O conhecido apresentador, humorista e escritor, Jô Soares tem uma frase que sintetiza os momentos atuais "Se existe tanta crise, é porque deve ser um bom negócio".

Concluindo só tenho a dizer, se esses novos arautos não souberem renovar a sua forma de pensar adequando-a para o presente e de forma equilibrada pensando no futuro, a solução não será encontrada no passado.

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