'governo começa com herança maldita que ele mesmo criou'

Economiaenegocios Notícias 09 Novembro / 2014 Domingo por Gramadosite

Ao fazer uma reflexão sobre as perspectivas do segundo mandato de Dilma Rousseff, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) afirmou nesta sexta-feira (7), em discurso no Plenário, que a presidente receberá de si própria uma herança maldita. Cristovam cobrou uma mudança de postura do governo e a adoção de uma nova política econômica que permita ao país sair do atual cenário, que beira a recessão segundo ele.

— O que desagrega mais imediatamente um país é a crise econômica. A educação está péssima, mas o país continua funcionando. A saúde vai mal, mas o país continua funcionando, mas quando a economia vai mal é o conjunto da sociedade que entra em crise. Nossa economia não está bem — argumentou.

O senador disse que a inflação tem corroído o salário dos trabalhadores. Para ele, o atual panorama põe em risco o único indicador positivo que é a taxa de desemprego. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no segundo trimestre, essa taxa ficou em 6,8%.

Segundo Cristovam, a estimativa de crescimento de 0,24% do Produto Interno Bruto (PIB), conforme apontam economistas, representa, na prática, o empobrecimento de todos os brasileiros.

— Isso é uma clara recessão do ponto de vista per capita, porque a população cresce a mais de 0,24% ao ano. E se o PIB cresce apenas 0,24% a população cresce a mais que isso é porque cada brasileiro empobreceu — avaliou.

O senador reconheceu avanços sociais obtidos pelo PT nos últimos 12 anos e afirmou que o país já esteve pior antes, mas avaliou que questões importantes como saúde, educação e mobilidade urbana permanecem como problemas em que pouco se avançou.

- O governo atual começa com uma herança maldita que ele mesmo criou – resumiu.

Política

Ao listar os problemas pelos quais o país passa e apontar perspectivas nebulosas para o futuro próximo, Cristovam afirmou que uma alternância no poder poderia ser benéfica, pois permitiria que o novo governante tomasse as medidas necessárias para garantir uma mudança de rumos na economia.

- Lamentavelmente o próximo governo não começa em lua de mel com a população. Teve a maioria dos votos, mas muitos dos que votaram no PT votaram porque não queriam a volta do PSDB – disse.

Da mesma forma, acrescentou Cristovam, muitos que votaram em Aécio Neves não queriam a continuação do PT. Para o senador, o quadro político atual não "empolga" e demonstra uma profunda desconfiança dos eleitores com relação aos partidos e políticos. O senador ainda classificou como trágica e arriscada a polarização entre PT e PSDB, que segundo ele, está no limite do fanatismo.

Leia a íntegra do discurso de hoje (7/11/2014)

Senado Federal
Secretaria-Geral da Mesa
Secretaria de Registro e Redação Parlamentar
O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco Apoio Governo/PDT - DF. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) – Obrigado, Senador Paim.

Srs. Senadores, Srªs Senadoras, nós tivemos aqui alguns debates interessantes relacionados ao passado. Eu quero gastar aqui um pouco de tempo para falar do futuro. Mas não do futuro longo, distante. Do futuro imediato e das preocupações que eu tenho.

Senador Paim, nós temos alguns itens que me preocupam muito no que está diante da nossa Nação brasileira.

Nós temos uma crise econômica extremamente forte, que eu deixarei para falar mais profundamente ao final, e que não é pela primeira vez que eu faço. Há anos venho alertando aqui que a economia estava bem, mas não ia bem. É o título até, Senador Fleury, de um opúsculo que fiz junto com Waldery Rodrigues, um dos meus assessores.
Nós temos uma situação social insuficiente. É falso dizer que a situação social brasileira está bem, como tentam dizer. Já foi pior. Aliás, tudo no Brasil já foi pior. Não faz muito, Paim, tínhamos escravidão aqui. Melhorou, não é? Mas melhorou ainda de maneira insuficiente. Nossa situação social, apesar de Bolsa-Família, que permite enfrentar esses problemas graves de fome, superando-a, nossa situação social não é tranquila. A miséria aumentou de 2012 para 2013, ou seja, o número de pessoas, de famílias classificadas como abaixo da linha da miséria aumentou! Em raros países tem acontecido isso. Aumentou no Brasil!
Mas não é só isso. Não dá para não saber que a educação está insuficiente para o mundo moderno. Todos os dias vemos no noticiário, nas avaliações até oficiais, a crise, o atraso, a degradação do sistema educacional brasileiro.

O mesmo podemos dizer da saúde. Nossa situação na saúde pública é má, é ruim, não é boa. Nós não estamos com o social suficiente no Brasil!
E a segurança? A segurança é uma tragédia!
E a mobilidade urbana?
E o estado das nossas cidades?
Não dá para a gente entender, aceitar a ideia de que estamos bem no social. Já estivemos pior, mas bem nós não estamos. Nos próximos meses, muito provavelmente, não haverá melhora na mobilidade social, na segurança pública, na saúde, na educação, nem na assistência e nos seus resultados naqueles mais pobres do Brasil.
Junto à insuficiência do social, nós temos um caos na política. Vinte e oito partidos na Câmara! Mas o pior é que não são partidos, são pseudopartidos, porque, se nós tivéssemos 28 partidos, cada um com um Líder que representasse as suas bases, com coerência ideológica, com coerência ética, tudo bem. Põe 28 numa mesa e se discute. O problema é que a gente põe 28 na mesa, discutem, e, quando os Líderes saírem de lá, cada um dos parlamentares pensam como querem. E eu sou um exemplo: não votei com aquela que foi a decisão oficial do meu partido. Isso mostra que há um caos na política partidária, porque os partidos deixaram de representar os seus filiados plenamente.

Mas não é só isso. Nós temos um quadro de profunda desconfiança hoje em relação a todos nós, políticos. Todos os partidos. Todas as organizações sociais. Nós estamos numa democracia em que as pessoas não se reconhecem representadas pelos líderes nos quais eles votaram. Os eleitores votam e não reconhecem os eleitos como seus representantes. Nós não estamos passando a ideia de que representamos os nossos eleitores. E eu digo: nós! Não tem ninguém aqui que possa dizer diferente dos outros. Nós, hoje, não somos respeitados como os líderes deste País. E vamos ter que conviver com isso nos próximos anos.

Junte-se a isso o caos dos partidos. A desconfiança geral em relação à política. Junte-se a isso o povo na rua, porque essa é uma novidade. Antes da internet, para você organizar uma manifestação, precisava de um partido, precisava de um jornal, precisava de chamada na televisão; hoje, a gente faz isso pela internet. Qualquer grupo de 50 jovens organiza uma manifestação, junta 300 pessoas, que perturbam uma avenida, perturbam a ida para o aeroporto, perturbam a chegada no porto, perturbam o funcionamento da sociedade.

Essa é a realidade da democracia que nós vamos ter nos próximos anos, com excesso de pseudopartidos e escassez de partidos verdadeiros. Com o povo com uma capacidade de mobilização como nunca aconteceu. Com uma desconfiança total em relação a nós, aqui do Congresso, e ao Poder Executivo. E até o Judiciário também – vamos falar com franqueza, apesar de que eles têm hoje, de certa maneira, mais credibilidade do que nós outros. E a própria imprensa, que também não é vista com a credibilidade total que poderia passar.

Agora, junte-se à insuficiência social e ao caos político o cansaço do novo governo, que começa agora, depois de doze anos.
Eu falava há pouco, num aparte que fiz, que uma das qualidades da democracia é que, a cada quatro ou cinco anos, conforme o período de mandato, recomeça-se uma lua de mel entre os dirigentes e o povo. O dirigente chega, no primeiro dia do seu governo, com a credibilidade total, até os opositores o respeitam. Essa é a realidade da democracia. Ele chega ali em lua de mel com o seu povo, lua de mel que, dependendo do governo, acaba em seis meses, acaba no final do mandato, mas dura algum tempo; dura dando-lhe credibilidade para tomar medidas difíceis que, em geral, são necessárias – como vou mostrar aqui que a economia está exigindo –; lua de mel que permite a ele ter simpatia para as novas coisas que ele traz.

Lamentavelmente, o próximo governo não começa em lua de mel com a população. Obteve a maioria dos votos, é verdade. Mas isso não basta para ter uma lua de mel, porque muitos dos que votaram na Presidenta Dilma votaram porque não queriam a volta do PSDB, da mesma maneira que muitos dos que votaram no Aécio Neves votaram porque não queriam a continuação do PT. Essa foi uma eleição estranha, em que muitos dos eleitores votaram num candidato porque não queriam o outro, e não porque queriam o candidato em quem estavam votando. Vamos falar com franqueza: essa eleição não empolgou ninguém. Não houve uma empolgação, houve uma resistência: uns para não saírem do governo; outros para tirarem esses do governo.
E esse governo, o que continua, chega cansado: cansado de doze anos de políticas, algumas certas, mas insuficientes; cansado sob o fogo cruzado de denúncias gravíssimas de corrupção dentro dos quadros do aparelho do Estado; cansado pelo esforço feito para se eleger usando manipulação de informações, difamação contra os candidatos opositores.
Então, é um governo que chega cansado, e isso é muito perigoso, é muito perigoso!
Não me refiro ao cansaço da pessoa – o sujeito dorme oito horas e está pronto para começar tudo de novo –, falo do cansaço dos quadros, do grupo, da mensagem: a mensagem está cansada depois de 12 anos. Junte-se a isso, ainda mais, a insuficiência do social. Ao caos político, ao cansaço e à falta de lua de mel, junte-se a trágica e arriscada polarização que o Brasil vive hoje, no limite do fanatismo.

Nós estamos perto de cair em fanatismos, de um lado e de outro. Não adianta dizer que é só de um lado. O “antipetismo” está virando um fanatismo irracional, e eu diria até mesmo irresponsável. Mas o petismo está virando também um fanatismo, também irresponsável a meu ver. Existe hoje essa polarização do PSDB encarnando o anti-PT, e o PT encarnando o anti-PSDB, e cada um dizendo que está certo enquanto os outros não estão, negando a própria democracia.
Senador Fleury, a democracia deixa de existir quando, na política, existe apenas um lado. A democracia se caracteriza pela pluralidade de lados se respeitando, se reconhecendo, se desentendendo e se entendendo. Estamos perdendo isso. O que eu leio na mídia eletrônica são manifestações de polarização em que um nega o outro. Logo, não é uma manifestação democrática. Na democracia, você não nega o outro, você dialoga com o outro, você se opõe ao outro, mas não nega o outro.
Não adianta isso de dizer que um é antidemocrático e o outro, democrático: ou os dois são democratas ou não tem democracia. Quando só um lado é democrata, não há democracia, é falso democrata. É o que estamos vendo ultimamente, quando, por exemplo, vão pessoas para as ruas e alguns – de fato, antidemocratas – carregam bandeiras pedindo a volta da ditadura e, em vez de se dizer que são apenas um pequeno grupo daqueles que estão nas ruas, diz-se que todos os que estão na rua querem a volta da ditadura. Isso é a negação da democracia.

É tão antidemocrático pedir a volta do regime militar quanto dizer que todos os que vão às ruas estão querendo a volta do regime militar. Então, estamos numa polarização.
Tudo isso dito – e eu repito: a insuficiência social, o caos político, o cansaço e a polarização exacerbada, quase que fanática –, lembro que aí se junta o que mais imediatamente desagrega um país, que é a crise econômica. O resto até demora um pouco. A educação está péssima, mas o País continua funcionando com uma educação péssima; a saúde vai mal, mas o País continua funcionando e só aquele que está doente sente na pele o seu problema. Mas quando a economia vai mal é o conjunto da sociedade que entra em crise, por isso é o mais visível, e a nossa economia não está bem.

Vejam que eu mudei o que eu dizia antes – cinco anos atrás, eu dizia que a economia estava bem. Hoje a economia não vai bem. Dava para ver no horizonte os riscos da nossa economia. Se não me engano, são quinze riscos que coloquei no trabalho que fiz. O último era a euforia, Senador Fleury. A euforia é uma tragédia, porque ela cega. O eufórico não vê a realidade, e nós vivemos uma euforia, uma euforia que não resistia às analises mais concretas dos problemas que estavam ali, discretos, mas que já se percebiam.
Agora, o que a gente vê? As projeções do Banco Central, divulgadas no último relatório trimestral de inflação, mostram que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor fechará o ano de 2014 em 6,3, ou seja, bem acima da meta de 4,5. Alguns dizem: “Mas ainda não chegou aos 6,5” – que é a margem que damos para não estar bem. E o Brasil está com isso.
A meta é de 4,5, que não é uma coisa simples. Vejam bem, a meta não é zero, não é 1, não é 2, a meta é 4,5. Isso significa aceitarmos como normal que o nosso salário seja corroído 4,5% todos os anos. É normal? Os 4,5 significam que, de cada cem reais, você perde cinco praticamente – a gente aceita isso como algo normal.

Mas ainda há uma margem de dois pontos para cima, ou seja, para cada R$100 de salário, você perde R$6,5, e está tudo bem. Está errado isso!
Mas o pior é que esses 6,3 não representam a realidade. Primeiro, porque, quando a gente analisa a inflação e a separa por faixas de renda, a gente vai vê que a inflação dos pobres – que é medida pelo IPC-C1 para faixas de renda até dois salários mínimos – está acima de 6,5: está em 6,53. Ou seja, os pobres estão perdendo mais do que a média dos brasileiros perde.
Isso significa que o Bolsa Família, uma coisa colocada com tanta ênfase na campanha – disse-se que, se ganhassem os outros candidatos que não a Dilma, iriam acabar com o Bolsa Família... Na verdade, o Bolsa Família está sendo acabado, porque dão R$100 e tiram R$6,53. Isso é uma maneira acabar com o Bolsa Família. Não acabam de uma vez, mas depredam, degradam, diminuem o valor. Aí, de vez em quando, dão um reajuste, mas o reajuste vem depois da perda, o reajuste não vem antes da perda.

Não está bem a economia. Isso sem falar das novas pressões inflacionárias com o início do “desrepresamento” dos preços de combustíveis. Ontem foram autorizados 5% para o diesel e 3% para a gasolina. Isso vai pressionar a inflação. Cada um que vá colocar gasolina agora vai pagar 3% a mais, ou 5% se for diesel. No caso do diesel, isso vai pressionar as tarifas de ônibus, vai pressionar o transporte de mercadorias. Ao se pressionar o preço do transporte de mercadorias, pressiona-se o preço de todos os produtos, porque o Brasil optou, ao longo das últimas décadas, por um modelo econômico de produção concentrada e com a distribuição em longas distâncias das mercadorias.
Nós não somos um País em que a produção é local. Se a produção fosse bem distribuída pelo País inteiro, o custo do transporte não pressionaria tanto o preço das mercadorias, mas, no Brasil, tudo é produzido em lugares centrais. A verdura que a gente compra no supermercado andou quilômetros e quilômetros e quilômetros e, portanto, o “desrepresamento” vai pressionar o seu preço.
A forte repressão de preços, não somente o dos combustíveis – a tarifa de energia elétrica também está aumentando e muito mais até do que a da gasolina –, vai criar um caldeirão de descontentamento muito grande e uma desarticulação da economia, porque quando a inflação passa de certo limite, todo mundo começa a perceber que um gatilho foi disparado.

Eu sou da geração – e vocês que aqui estão também – que ainda lembra daquele revolverzinho que se usava para remarcar os preços. Eu vou ao supermercado e tenho visto preços serem remarcados. Já não é mais com aquela etiquetazinha, porque agora se usa o código de barra – a gente nem sabe que aumentou o preço –, mas aqui em Brasília, nos supermercados em que vou, já se vê um preço na prateleira e, em cima dele, a gente vê um, dois, três, quatro, cinco preços, um em cima do outro – nem se dão ao trabalho de retirar o antigo para colocar o novo.

Hoje mesmo, dia 11, sexta-feira, o IBGE divulgou que o IPCA subiu 0,42 em outubro de 2014. E isso, lembrando, após uma alta de 0,57 em setembro. Essa é uma clara marcação do grau de inflação que nós temos. Em outubro do ano passado, o índice avançou 0,57. Nos últimos dois meses, encerrados em outubro, a inflação foi 6,59 – 6,3 é quando a gente pega o que se prevê para o ano de 2014. Se a gente pega 12 meses para trás, vê que já extrapolou a meta, a margem da meta. Foi o terceiro mês consecutivo com o IPCA acima do teto da meta de inflação definida pelo Governo.

Tudo isso indica que, na próxima divulgação da inflação geral e da inflação dos chamados “bens comprados pelos pobres”, que vai ser logo agora, as notícias não deverão ser boas – as notícias, provavelmente, lamentavelmente, não serão boas. Mas o pior é que não serão novidade para quem observava, para quem analisava, para quem se preocupava. Esta é uma coisa de que a gente está precisando, Senador Fleury: preocupação. A gente precisa estar preocupado, porque quem não se preocupa não enfrenta os problemas corretamente.

Dito isso quanto à inflação, se a gente passar para o PIB, vemos que a situação pode ser até mais dramática – se é que a gente pode comparar gravidade entre inflação e PIB pequeno, em não crescimento.

As estimativas de mercado projetam que em 2014 o crescimento será de 0,24%. Isso é uma clara recessão do ponto de vista per capita, porque a população cresce a mais de 0,24% ao ano. E, se o PIB cresce apenas 0,24% e a população cresce a mais que isso, cada brasileiro empobreceu em 2014. O Brasil não empobreceu, o Brasil cresceu 0,24%, mas cada brasileiro empobreceu, porque o número de brasileiros cresceu mais que o Produto Interno Bruto. Isso vai ter uma clareza cada vez maior, as pessoas vão perceber isso.

Se confirmada essa taxa, o País terá o menor crescimento desde 2009, quando o PIB chegou a recuar 0,3%.
Isso nos deixa com a preocupação quanto ao conjunto do PIB, mas, se a gente for olhar os segmentos, a gente vai ver que a pesquisa Focus, do Banco Central, mostra que o setor manufatureiro, ou seja, o setor industrial, terá uma retração de 2,17%, e aí é recessão para valer no que se refere ao setor manufatureiro. Não é uma queda pequena, é muito alto 2,17% a menos de um ano para o outro.
O pior é que era um setor já combalido, já sofrido num processo de desindustrialização que o Brasil vem sofrendo ao longo de anos. Por conta de quê? Por conta da concorrência internacional, que faz com que cheguem aqui do exterior outros produtos mais baratos, especialmente da China; pela nossa incapacidade de concorrência com os outros países; pelo custo Brasil – excesso de impostos, estradas que não funcionam, portos que são demorados e, vamos lembrar, mão de obra sem a formação técnica necessária.
E aqui um parêntese: a gente vende o Pronatec como a solução. Não é. Primeiro, porque a gente precisa de alta tecnologia também, que não vem do Pronatec. Segundo, porque o Pronatec fracassa por falta de ensino fundamental dos alunos que vão fazer cursos técnicos. Não há como dar um bom curso técnico para quem não sabe o que é ângulo reto, regra de três. Não há como. Nós não estamos cuidando dos problemas substanciais.

Senador Paim, com o baixo crescimento, não há como não observar o recrudescimento da taxa de desemprego, é uma questão de tempo. O único indicador positivo que hoje há é que o desemprego no Brasil não está em níveis altos e até caiu um pouco.
Mas, quando a gente observa a tendência, é impossível manter o emprego quando o PIB não cresce. Além disso, quando a gente analisa esse emprego que está havendo, a gente vê que é um emprego de mão de obra sem alta qualificação e sem remuneração alta. Por isso, o PIB cresce e o desemprego não aumenta no Brasil, porque estão se empregando pessoas que recebem um pedacinho menor do PIB, pessoas de baixíssimos salários. Não está havendo aumento do emprego das parcelas de rendas maiores no trabalho.
As estimativas de órgãos multilaterais, como FMI e o Banco Mundial, também apresentam dados não otimistas para o caso brasileiro, Senador Paim. O Brasil deverá ser um dos países que menos crescerão na América Latina, acompanhando dois outros países, Argentina e Venezuela.

A desculpa que se dá para o nosso baixo crescimento é a de que a crise internacional nos afeta. Não procede. Em 2014, o mundo está crescendo à taxa média de 3,3%; e nós, 0,24%. Então, a culpa não é do cenário internacional. A culpa é nossa, porque nós não fizemos o dever de casa na hora certa. O mais grave é que parece que não se está fazendo o dever de casa agora. Mais grave ainda é que o dever de casa vai exigir uma mudança de posição da Presidenta, quando tomar posse, em relação à candidata buscando voto. Isso é muito grave. O dever de casa vai exigir uma mudança de discurso. Como é que o povo vai reagir?
Aí volta a ideia da lua de mel. Um Presidente novo tomaria as medidas necessárias, as pessoas não ficariam contentes, mas não podiam apontar o dedo dizendo: “Você não prometeu isso na campanha”. E ele poderia dizer ao seu povo: “Estou corrigindo os erros do governo anterior”. O próximo governo não vai poder dizer isso. Como eu li numa revista, o Governo atual começa com uma herança maldita que o Governo atual criou. O próximo Governo herda uma situação que ele criou no mandato anterior.
Tudo isso faz, Senador Paim, com que a gente tenha outros problemas, que vou deixar para continuar aqui, na segunda-feira. Não vou cansar. Por exemplo, com a dívida pública, é assustador o que acontece. É um aumento gigantesco.
Para se ter uma ideia, Senador Paim, nós fizemos umas contas e observamos que, em apenas sete dias, o aumento na dívida é equivalente a todo o gasto de um ano da Bolsa Família. Veja bem: em uma semana, gastamos mais do que a Bolsa Família em 25 meses. “Gastar” entre aspas, aumentar dívida – o verbo gastar não está correto. Em apenas um dia, é possível destinar esse aumento para complementar o piso salarial do magistério, ou seja, com o que aumenta a dívida em um dia, ia se poder pagar o piso salarial, beneficiando quase 1 milhão de professores que ainda não recebem o piso salarial no Brasil. Com um dia da dívida!
Isso é insustentável por muito tempo, não apenas porque joga os juros lá pra cima, pois, para aumentar a dívida, tem que vender mais títulos e, para atrair compradores, tem que aumentar os juros.
Nas contas fiscais, Senador Paulo Paim, para o que eu vou voltar na segunda-feira, não é menor a gravidade. O País... Não é bom usar isto, fica feio, e, então, não vou usar, mas a situação parece uma empresa quebrada.

E, quanto ao balanço de pagamentos, que são as relações do Brasil com o exterior, que sempre foram muito sólidas do ponto de vista do comércio, embora nem sempre sólidas do ponto de vista do fluxo de financiamento em investimento, hoje a situação é grave.
O câmbio. Basta ver o noticiário: o dólar está 25% a mais do que há poucos meses. Passou-se de R$ 2,00 por dólar para R$ 2,60.
O cenário externo não é tão favorável, embora não seja culpa da nossa situação, porque ela é pior do que o cenário internacional.
E há uma fraqueza das instituições muito grave. Nossas instituições estão frágeis. E aí fica difícil enfrentar a realidade.

Por isso, Senador Paim, eu comecei falando aqui de preocupação. É hora de se preocupar...

Fonte: Agência Senado

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