Desaceleração da Economia: O grito cósmico por uma nova economia

Economiaenegocios Artigos 02 Outubro / 2020 Sexta-feira por Padre Ari

A verdade é que o contexto político socioeconômico inclusive na dimensão da religiosidade tem sofrido um impacto que tem colocado toda a sociedade planetária num emaranhado de dúvidas, incertezas, medos e inseguranças frente ao futuro. Se por um lado, esta cultura pós-moderna vem marcada por um aceleramento vertiginoso no desenvolvimento tecnológico, por outro, o fenômeno da pandemia tem bloqueado a corrida da mesma numa “saia justa” obrigando todos a se recolher, independente de classe social, religião, cultura e do conjunto de todos os setores da humanidade. A pergunta é saber se foi fruto do acaso ou não?

Curiosamente a primeira reação foi de revolta e encontrar um culpado, em seguida da parte dos líderes de muitas nações, houve uma postura de relativização do problema da crise e isto, gerou muitos conflitos em nível local quanto mundial. A verdade é que a pandemia atingiu todas as classes e deixando um rastro significativo de mortes pelo caminho independente de classe, idade, como atingiu o equilíbrio psicossomático de uma parcela expressiva da sociedade desencadeando medo, desânimo, insegurança e distúrbios como a depressão e conduzindo muitos, especialmente jovens ao suicídio, embora e também em outras faixas etárias, por não verem mais um futuro com esperança.
A crise pandêmica desafiou sem dó a onipotência da ciência, dos poderosos e donos do capital sem que tivessem nenhuma resposta objetiva como solução. O planeta tornou-se, quem sabe, o lugar mais inseguro que o ser humano da pós-modernidade já viveu, pois tomou de surpresa a totalidade do tecido social planetário.
No entanto, antes de tudo é bom fazer uma retrospectiva histórica dos anos 60 quando iniciou o que se pode chamar de ideologia da “globalização”. Foi uma forma sutil de o capital financeiro vender uma ideia que em princípio parecia resolver todos os problemas sociais. Mas a verdade é que “...o significado mais profundo transmitido pela ideia de globalização {foi}o do caráter indeterminado, indisciplinado e de autopropulsão dos assuntos mundiais; ausência de um centro, de um painel de controle, de uma comissão diretora {e} de um gabinete administrativo” (BAUMAN, Zygmunt – Globalização – As consequências humanas – Zahar – 1999 p.67). O curioso é que a palavra “globalização” veio substituir o termo “universalização”, muito usado no início da modernidade.
Qual o objetivo que a globalização propunha? “...conceitos de “civilização”, “desenvolvimento”, “convergência”, “consenso” e muitos outros termos chaves do pensamento moderno inicial e clássico, {e} a ideia de “universalização” transmitia a esperança, a intenção e a determinação de se produzir ordem; além do que os outros termos afins assinalavam, ela indicava uma ordem universal – a produção da ordem numa escala mundial, verdadeiramente global”. (ibidem). E dizia mais:
“...toda a família de conceitos anunciava em uníssono a vontade de tornar o mundo diferente e melhor do que fora e de expandir a mudança e a melhoria em escala global {e também} declarava a intenção de tornar semelhantes as condições de vida de todos, em toda a parte, e, portanto, as oportunidades de vida para todo o mundo; talvez mesmo torná-las iguais”.
O curioso nesse projeto da globalização é que nada aconteceu conforme o planejado e mais, houve um processo de mutabilidade, pois na realidade a “...ideia de globalização {teve} referência explícita à “ forças anônimas” e que operava na vasta “terra de ninguém” – numa nebulosa, lamacenta, intransitável e indomável que se estendia para além do alcance da capacidade de desígnio e ação de quem quer que seja em particular”. (op.cit in Bauman, p.68).
Portanto, fica claro que a globalização nada mais é do que a extensão totalitária e cruel da ideologia do capitalismo neoliberal e/ou neuroliberal como de sua lógica em todos os aspectos da vida. Visto sob esse ângulo percebe-se hoje, mais do que nunca que:
“...os Estados não têm recursos suficientes nem liberdade de manobra para suportar a pressão – pela simples razão de que “alguns minutos bastam para que as empresas e até Estados entrem em colapso” (ibidem p.73). Bauman faz mais uma crítica e um comentário ao sistema do neoliberalismo quando afirma que:
“...no cabaré da globalização, o Estado passa por um strip-tease e no final do espetáculo é deixado apenas com as necessidades básicas: seu poder de repressão. Com sua base material destruída e independência anuladas, sua classe política apagada, a nação-estado torna-se um mero serviço de segurança para as “megaempresas”. (p.74). Na prática significa que os governos nacionais têm a simples tarefa de administrar os negócios em nome dos senhores do mundo capitalista.
Disso infere-se que quanto mais fraco um Estado melhor para a “nova desordem econômica mundial”. Ora dentro de um contexto dessa natureza é algo que preocupa muito, como faz pensar a qualquer cidadão cônscio e de bom senso que deseja contribuir para gerir a economia de sua nação, mormente os que almejam um país onde o centro das atenções esteja focado na justiça social e na inclusão de todos. É preciso mudanças não somente em nível local, mas também mundial e um novo sistema econômico sem margem de dúvida, é urgente, se é que se deseja um planeta novo, mais justo, inclusivo e fraterno.
Partindo deste pressuposto é que emerge o projeto de um novo sistema econômico de iniciativa do Papa Francisco quando se propôs a convidar economistas do mundo todo para algo novo em termos de economia. Por quê?

“...é preciso eliminar as causas estruturais das disfunções da economia mundial e corrigir os modelos de crescimento que parecem incapazes de garantir o respeito ao meio ambiente”. (FRANCISCO, Papa – Carta Encíclica- Laudato Si’ – Louvado Sejas: Sobre o Cuidado da Casa Comum – Ed.Paulus/Loyola – 2015 nº 6).

VELOCIDADE NÃO COMBINA COM O RESPEITO À DIGNIDADE HUMANA E O MEIO AMBIENTE

Um sistema econômico que não leva em consideração a totalidade da vida, não tem sustentabilidade e muito menos um futuro saudável para a humanidade. Toda essa crise pandêmica certamente não foi apenas fruto do acaso, mas um grito da própria natureza. Afinal o próprio ser humano é parte da natureza. Ora, a relativização e o “pouco caso” de muitos em relação ao desmatamento, à produção excessiva de lixo, as queimadas sem critério e criminosas para favorecer o agronegócio, os pesticidas que envenenam os rios e o ar, a extinção da flora e de animais silvestres, o aumento significativo do número de pessoas e países com fome, vivendo abaixo da pobreza, endividados, o vergonhoso mercado do tráfico de pessoas e o comércio de órgãos humanos é preciso dar um basta, pois na subjacência de tudo é algo que retrata a face obscura de uma economia sem rosto e desumana que visa apenas o lucro pelo lucro sem ter um conta o futuro do planeta e o bem comum do ser humano.
A crítica não é apenas algo em relação ao nosso país, mas também para outros países que não respeitam a ecologia humana e muito menos a ambiental e, portanto, urge também de profundas mudanças a este modelo de economia que se globalizou e tenciona se estabelecer de forma contínua e infinita. Até quando?
Já tenho afirmado que o progresso, a mecanização da agricultura, a ciência e o progresso como um todo é uma bênção e este tem um fundamento teológico (Gn. 1,28ss), mas sempre existe um limite. Em contrapartida é sempre bom frisar que não há nenhum sistema político socioeconômico ideal retilíneo e infinito, embora, é possível crescer, mas, e, sobretudo, com sustentabilidade pensando nas futuras gerações para que possam herdar um planeta saudável com uma natureza preservada, exuberante e linda. É uma sabedoria ter ciência de que:
“...a aceleração e a economia de tempo a ela ligada não resolvem nosso problema do tempo, sob o qual padecemos; ao contrário, são sua causa. Nós otimizamos constantemente máquinas e métodos de trabalho a fim de aumentar a produtividade, e aplicamos tal modelo às pessoas. Só que, infelizmente, ou melhor, graças a Deus, isso não funciona. O ser humano não é como uma máquina tecnicamente otimizável e sua velocidade não pode ser constantemente acelerada. O ser humano está sujeito a outras normas que não as das máquinas; ele tem necessidades sociais e seus ritmos próprios”. (GRÜN, Anselm – ASSLÄNDER, Friedrich – Administração espiritual do tempo – Tradução de Paulo F. Valério – Vozes 2010 p.87).
A cultura contemporânea embriagada pela ideologia do ter incorreu num grosseiro erro antropológico que tem respingado com um alto preço na qualidade de vida das pessoas. Há exemplos claros para testemunhar que tal modelo de economia globalizada, além de desenvolver uma monocultura empobrecendo a diversidade tem como consequência a multiplicação e o avanço de doenças estranhas e sem diagnósticos, as disfunções psicossomáticas, aliás, muito comum na sociedade hodierna, e, por outro, o trabalho que deveria proporcionar alegria e a realização do ser humano tornou-se para muitos um pesadelo. Por quê?

“...o sempre-mais-rápido é um desenvolvimento contínuo da sociedade industrial e atinge-nos de todos os lados; da parte superior, na convenção anual as metas; do lado do cliente, com suas expectativas sempre mais altas {principalmente} no que diz respeito à qualidade e ao serviço; do mercado, como pressão da concorrência, como premente expectativa da parte dos companheiros de trabalho e, por fim, também como exigência em relação a nós mesmos. Nós interiorizamos esse modelo do sempre-mais-rápido e, no trato com nosso tempo {e} deixamo-nos manobrar por ele”. (ibidem p.88).
Caro leitor! Observe que por trás desse-sempre-mais se perdeu a capacidade de viver o tempo, não experimentamos nossa vida, ao contrário, instrumentalizamos o tempo a fim de alcançar metas e resultados e ainda assim, não se é feliz, pois o “ter” passa a ser o objetivo final. É um sistema econômico que em primeiro lugar não favorece a todos, em segundo lugar nos torna escravos do dinheiro e dos bens em terceiro lugar perdemos o sentido da própria existência humana, e finalmente, porque nunca estamos satisfeitos com aquilo que temos.
É preciso antes de tudo refazer os conceitos e os objetivos para um novo estilo de vida e vida com qualidade. Por isso é urgente um novo sistema de economia, um maior respeito à natureza da qual o próprio ser humano faz parte e um retorno à experiência com a transcendência sem prescindir do progresso, do desenvolvimento e da tecnologia, embora e, sobretudo, desenvolvendo uma visão crítica desta cultura que se voltou para dentro de si mesma, e, tudo que se fecha sobre si apodrece. Fomos criados para sermos felizes, mas para alcançar esse objetivo faz-se necessário cultivar uma vida com sentido prescindindo do egoísmo e, por outro, saber olhar e viver a virtude da frugalidade e da simplicidade sem deixar de usufruir as benesses da tecnologia. Portanto, jamais o humano deve bastar-se a si mesmo e se enclausurando na própria imanência, mas abrindo-se para o grande OUTRO que é Deus.
É bom pensar!

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