Pontos e Contrapontos da visão econômica Austríaca e a de Chicago

Economiaenegocios Artigos 23 Agosto / 2019 Sexta-feira por Padre Ari

Percebe-se que Richard Weaver, pensador do renascimento, intelectual conservador após a 2ª Guerra Mundial, considerava a “praxiologia” uma abordagem tipicamente conservadora do pensamento econômico e disse ainda que: “...a “praxiologia” não passa de uma extensão desses insigths”.

Ora, quando Mises se refere a outras Escolas, como a Histórica Alemã quanto a de Chicago, afirma: “...a história econômica é um longo registro de políticas governamentais que fracassaram porque foram criadas com evidente desprezo pelas leis da economia”. (op.cit Mises, Human Action, p.67 – in Woods – A Igreja e o Mercado – Vida Editorial, 2019 p.56).
Woods ao comentar essa visão de Mises mostra que ele infere o seguinte: as leis econômicas, desde as curvas de oferta e procura até a lei da redução marginal são óbvias até por alguém que não tem nenhuma formação econômica, ou seja, sempre que há um aumento na demanda o preço tende a se elevar. Uma oferta maior tenderá a reduzir o preço a um nível mais baixo. Um aumento da quantidade de dinheiro tende a elevar mais os preços e assim é que segue o jogo quando se trata do livre mercado. Portanto: “...não há problema em dizer que a lei econômica está “essencialmente subordinada à lei moral” e que o homem não deveria ser esmagado pela lei econômica abstrata e racionalista como o é pela lei da gravidade”. (Woods, 2019, p.57).
Nesse sentido fica claro que existindo a lei econômica {a mesma} não deve estar subordinada à lei moral. Se elas existem, existem. De maneira que: “...é impossível que a lei moral nos diga o que deveríamos fazer {por outro lado} a lei econômica é absolutamente descritiva e necessariamente amoral, sem ter qualquer relação com a moralidade”. (cf.ibidem).
Quando se trata de ciência a mesma sempre está vinculada ao emprego da razão humana a fim de descobrir como os objetivos do homem podem ser atingidos. Em contrapartida, pergunta-se: “quais os objetivos devem ser esses {pois} isto é uma questão para a teologia e a filosofia moral”. Woods, cita o Padre James Sadowsky, SJ, professor emérito de filosofia da Universidade Fordham. O mesmo foi feliz quando afirmou: “...a ética é prescritiva, ao passo que a economia é descritiva” {...} a economia aponta os efeitos de determinadas políticas, enquanto a ética estabelece a que deve fazer”. São duas coisas distintas. (ibidem Woods, 2019).
No imaginário de muitos do tecido social contemporâneo trazem no seu bojo a convicção que a ciência natural e ambiental tem a última palavra sobre o “todo da vida humana”, no entanto, é bom frisar que como “...qualquer ciência genuína, a economia {deve} reconhecer claramente os seus limites”. Rothbard da Escola Austríaca tem clareza quanto a isso e afirma: “...nem tudo na vida pode ser contemplado por nossa disciplina pelo conhecimento de que pode ser bom para a nossa alma perceber nossos próprios limites – e, talvez, aprender sobre ética e justiça”. (op.cit – Rothbard – The Myth of Efficiency p. 273 – in Woods p.60). E segue:
“…A ciência econômica pode ser livre de juízos de valor, mas nunca os homens, e, Ludwig Van Mises nunca evitou as responsabilidades do ser humano {afinal} os valores do economista influenciarão inevitavelmente os tópicos aos quais ele dedica sua atenção. Assim, é improvável que um cristão bem esclarecido na fé desperdiçasse seu tempo tentando encontrar a maneira mais eficiente de depreciar a unidade monetária. Ao contrário, seu interesse seria descobrir o modo de instituir uma economia imune a qualquer tipo de inflação induzida pelo governo”.

Percebe-se que os críticos dessa visão afirmam que é anticristão dissociar a ética da economia, pois consideram um típico erro moderno. Segundo o pensamento de Mises e Rothbard essa crítica não procede, pois exigir a inserção de uma dimensão moral à economia é um artifício. Então perguntam: A análise das curvas de oferta e procura é que precisam de correção moral?
“...a convicção de que os seres humanos agem não é um juízo de valor, mas uma opinião referente à natureza do homem. O fato de o aumento da demanda por um bem, permanecendo todos as demais circunstâncias inalteradas, fazer com que seu preço também aumente não depende dos valores éticos do economista. É algo que se deduz do axioma de que os seres humanos agem de maneira intencional’. (op.cit Shawn Retenour – A praxiologia como economia cristã, 2002 – in Woods, 2019 p.61.)
Esse economista procura explicitar que a função de um economista pode ser correta ou incorreta, mas não moral ou imoral. O fato é que “...se a economia é uma ciência, significa que enquanto ciência ela necessita de autonomia. Daí infere-se que não pode existir uma ciência econômica cristã assim como não pode haver uma ciência matemática cristã. O Padre Sadowsky S.J. frisa que: não há nada no conteúdo da Revelação que explique a melhor maneira de combater a pobreza. “...não houve revelação de uma solução para a pobreza, assim como não houve revelação para a cura do câncer, assim como não existe uma medicina revelada, também não existe uma economia revelada. (notas de rodapé p.62 – in Woods ibidem).
O historiador Edward Grant, especialista em história medieval mostra com clareza que: na Universidade de Paris, o século XVIII testemunhou o surgimento de uma clara distinção entre filosofia natural, de um lado, e a teologia, de outro; os mestres das artes da Universidade de Paris conseguiram conquistar a autonomia de sua disciplina. No entanto, e, embora os mestres teólogos que escreveram tratados de filosofia natural, eles raramente o fizeram, optando, ao contrário, por relegar questões teológicas aos tratados teológicos. Por quê? Exatamente para “abster-se de inserir teologia a questões {que são} distintas e separadas”.
Woods, em seu comentário sobre a ingerência das questões teológicas nas ciências naturais cita a posição de Santo Tomás de Aquino e Alberto Magno, quando seus confrades dominicanos solicitaram que escrevessem algo sobre a física que capacitaria a eles compreenderem os livros de Aristóteles. A prudência de ambos fez com que houvesse uma reação categórica, principalmente da parte de Alberto Magno que se recusou a atender tal pedido, visto que “tais questões não podem, em absoluto, ser conhecidas por meio de argumentos derivados da natureza”. O mesmo aconteceu com Tomás de Aquino quando fez a seguinte observação sobre o tema: “Não vejo que a intepretação que alguém faz do texto de Aristóteles {tenha} que ver com o ensino da fé”. De acordo com o pensador Vernon Bourke: “São Tomás não se sentia compelido a fazer Aristóteles falar como um cristão”, e, certamente “acreditava que uma análise comentada sobre Aristóteles era um trabalho independente, que não devia ser confundido com a apologética ou a teologia”. (op.cit in Woods, p.64).
Penso ser interessante essa percepção de Tomás de Aquino e Alberto Magno em saber fazer as devidas distinções. Mostra a lucidez de ambos em não confundir as coisas, como também respeitar a autonomia das ciências. Partindo desse pressuposto, fica claro que isso vale sem margem de dúvida que “...a economia e suas leis pertencem à categoria do conhecimento que pode ser alcançado pela razão apenas”.
Tomás de Aquino propõe a distinção entre o conhecimento alcançável pela razão apenas e o conhecimento alcançável também pela razão e conhecido pela fé, {por outro} o conhecimento alcançável tão-somente por meio da fé. Um exemplo: “...os mistérios sobrenaturais como a Santíssima Trindade”.
Em contrapartida Alberto Magno faz a observação quando afirma que “...a teologia {deve} interferir o mínimo possível na filosofia natural”. Aqui Woods mostra como a Escola Austríaca de economia de mercado possui uma razão clara sobre os “fundamentos e o caráter da ciência que {deve ser} livre de juízos de valor {também} a economia”.
Entretanto segundo a visão de Ludwig Van Mises e Rothbard da Escola Austríaca de economia de livre mercado sempre demonstram uma preocupação de fundo antropológico que justifica o fim último da economia, ou seja, a mesma não possui fim em si, mas deve focar a dimensão da justiça social. Nisso é que se distingue da Escola de Chicago que elege o “eficientismo econômico” como caminho para lidar com a economia. É um sistema que não responde ao fim último da economia, pois prescinde da questão humana.
É bom pensar!

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