Economia, desperdício e consumo: uma tragédia contemporânea

Economiaenegocios Artigos 25 Setembro / 2017 Segunda-feira por Padre Ari

Rever a própria caminhada histórica de maneira crítica significa ter consciência de que o mundo criado por Deus é da nossa exclusiva responsabilidade.
“...o ser humano tem uma responsabilidade pela criação, pela natureza. Ele deve tratá-la com atenção e cuidado e configurar seu ambiente de tal modo que aí fique visível a beleza que o Criador concedeu ao Jardim do Éden. (GRÜN, Anselm – ZEITZ, Jochen – Deus – Dinheiro e consciência – Vozes – 2012)
Ao lançar o olhar para a história retrospectiva no início da modernidade, aliás, a “Era conhecida como a fase industrial”, percebe-se que o ser humano frente aos novos inventos teve um momento de entusiasmo que fez com que a sociedade como um todo fosse ao pote com muita sede, e, com isso, absorta nesse devaneio afrouxou muitos mecanismos valorativos que sustentavam a harmonização do tecido social, e, ao mesmo tempo, ocasionou a emergência de diversas distorções graves que a médio e longo prazo tivessem consequências nem tanto positivas para o conjunto do Planeta Terra.
Um elemento a ser destacado foi a “cisão” entre o ser humano e a natureza provocada por um imaginário de progresso retilíneo, bem como um imaginário de economia linear e infinita. Tal paradigma acabou atingindo a essência da vida em todos os sentidos. Por isso, o momento atual é de parar, pensar e tentar reler a história com novos paradigmas e conceitos que possam dar sentido ao humano, pois é um ser que continuamente busca significado e sentido para poder administrar os conflitos existenciais. Sem uma visão holística da vida torna-se impossível reequilibrar a história que caminha para o futuro.

Se por um lado, a história do pensamento tem nos mostrado e valorizado a arte de pensar como um fator importante na vida humana, por outro, com base no “cogito ergo sum” cartesiano houve uma absolutização da razão como se a mesma fosse fim em si. Essa unidimensionalidade racional se por um lado valorizou o homem como um “ser pensante”, sob outro ângulo absolutiza algo ligado à temporalidade. Desse pressuposto emerge a fragmentação da vida como um todo. Deste imaginário surge a “Dialética do Iluminismo” cujas consequências práticas se vivencia até nossos dias e cujos resultados exigem nova leitura do paradigma em curso.
O contexto atual do tecido social é sem dúvida preocupante na medida em que o mesmo vive o medo, o desconforto, a violência, a insegurança, as injustiças, a ganância pelo ter em detrimento do ser. Tudo vem a confirmar o que se perdeu ao longo do tempo, ou seja, a dimensão última do ser humano, ou seja, Deus. É bom frisar que:
“A sustentabilidade precisa, no final das contas, de uma dimensão religiosa. É claro que podemos lidar de forma sustentável com a natureza também por razões puramente racionais, pois do contrário, não sobreviveríamos em longo prazo. Porém, a mera “ratio” não é motivação suficiente para uma atividade econômica sustentável”. (GRÜN – ZEITZ, 2012). E segue:
“É preciso a dimensão religiosa que vê a natureza como algo sagrado, como algo que se subtrai ao nosso acesso, porque é criado por Deus e permeado por Deus. Hoje a defesa de uma atividade econômica sustentável é uma das tarefas das religiões. Não se trata mais da luta das religiões umas contra as outras, mas de um esforço conjunto para lidarmos umas com as outras e com a criação no espírito de solidariedade e do amor”.
Em se tratando de religião é preciso ter em conta de que a mesma é cultura. Entretanto, o ser humano é um “ser religioso” por essência não apenas por acidente de percurso. É uma marca indelével que atinge a essencialidade do humano.
Por outro lado, quando a religião parte para negócios, aliás, características de certos grupos religiosos, sem margem de dúvida, nesses fica explícito o desvirtuamento do sentido verdadeiro de religião, e, portanto, desvirtuada de sua função. Urge atenção e senso crítico para um discernimento adequado.
Quando a religião perde sua força, esferas puramente seculares adquirem uma dimensão religiosa, isso pode levar à desconfiguração de sua importância no fluir saudável da sociedade, bem como coloca em desconfiança o papel das religiões na edificação de um construto político socioeconômico saudável, próspero e justo.
É preciso então ter presente que: “...por muito tempo, o mundo econômico seguiu seu caminho, isolado da espiritualidade”. Entretanto sente-se que há necessidade de recompor a história da humanidade superando a dicotomia: “sagrado X profano”, afinal de certa forma tudo está interligado. Há hoje, mais do que nunca a necessidade de tirar do caminho muros que separam ciência e religião como economia e espiritualidade. A dificuldade da cultura contemporânea é superar esta fragmentação da realidade que foi provocada pela dialética do iluminismo que fez um reducionismo simplório em nome do progresso. E com certeza não deixa de ser um equívoco.


A AUSÊNCIA DA ESPIRITUALIDADE PODE NOS TORNAR REFÉNS DO CONSUMISMO E DE UMA ECONOMIA DESUMANA

Saber ver e avaliar o contexto da realidade pós-globalização é possível observar que a médio e longo prazo possamos sentir a diferença nos hábitos diários no que vem a ser “sustentabilidade” e, como essa tem ligação com uma espiritualidade sensata e autêntica. Isso não significa deixar de consumir, entretanto sempre deve ser a partir de uma conduta fundamentada em critérios, valores e princípios de parcimônia.
“Reavivar esse contato com a natureza e com a espiritualidade, despertá-la também entre os jovens, é a grande tarefa de nossa época (...), pois a espiritualidade está profundamente ancorada na alma humana e as religiões são a interpretação dessa espiritualidade. Hoje há possibilidades quase infinitas de viver a espiritualidade”. (GRÜN – ZEITZ, 2012).

Neste sentido é importante focar a atenção, por exemplo, na forma de produzir um móvel de forma sustentável, em geral é bem mais caro do que construir um convencional. No entanto, em longo prazo a iniciativa compensa, pois as nossas construções duram bem mais que os prédios similares.
Outro aspecto a ser considerado nessa análise é que a crise financeira global, climática e outras crises ambientais nos retratam no hoje da história, erros e fraquezas do sistema de livre mercado. Portanto, exige-se ter em conta uma consciência crítica que faz repensar o mesmo para a atualidade.
Toda vez que tornamos a economia fim último será um passo que desconcertará a vida da sociedade, pois a mesma é um meio do tecido social viver humanamente bem e feliz. Dar à economia um papel acima da pessoa significa conduzi-la ao desvirtuamento e a finalidade da qual lhe própria. Assim sempre se abrirá espaço para as disfunções que fragmentam o todo da sociedade.
A problemática vinculada à economia é quando se induz via “marketing” ao consumo de bens supérfluos, o que mais cedo ou mais tarde pela ganância de possuir bens se dirige ao desperdício. Qual o significado do termo economizar?
“...é obter um certo resultado com um emprego mínimo de recursos e com uma produção mínima de sobras. É uma ironia que hoje, a economia esteja tão estreitamente ligada a imagens de gastos excessivos, endividamento exagerado, poluição ambiental e exaustão de recursos naturais, quando, na verdade, a atividade econômica deveria propriamente contribuir para minimizar ou, até mesmo evitar tudo isso”. (GRÜN –ZEITZ, 2012). O ideal na economia “implica o máximo com o mínimo, sem sobras”. Em outras palavras: Simplificar.

Levando em consideração os novos tempos nesse início de século se percebem expectativas e anseios profundos da alma humana para superar dicotomias que fragmentaram a história contemporânea. Trata-se de paradigmas como ciência X religião; economia X espiritualidade que podem ajudar a fazermos novas leituras e harmonizar a vida como um todo.
É bom pensar!

Sugestão de leituras complementares:

1. SILVA, Ari Antônio – VIEIRA, Paulo de Castro – Economia e Espiritualidade: Reformando o mundo dos negócios – Loja Online: Mercado Livre: www.padreari.com.br

2. FRANCISCO, papa – Carta Encíclica Laudato Si’ – Louvado Sejas – Sobre o Cuidado da Casa Comum – Paulus/Loyola – 2015

Categorias:   Notícias | Artigos | Economia e Negócios | Estilo | Cultura | Esportes