As novas demandas do mercado de trabalho e a reforma do ensino

Economiaenegocios Artigos 17 Abril / 2017 Segunda-feira por Padre Ari

Se analisarmos o que está por detrás da Reforma do Ensino, muitos pontos ainda devem ser questionados.

1. É necessária uma mudança no Ensino atualmente? Com certeza. Pois os alunos chegam ao ensino superior com sérias deficiências, salvo exceções, e semianalfabetos.

2. A flexibilidade proposta pela grade curricular, em parte é positiva, embora, por outro lado, omite elementos básicos e importantes que devem ir além da demanda do mercado, pois a formação integral do homem como uma totalidade é imprescindível e não pode ser como um simples elemento numa engrenagem para servir o mercado.

Deve ficar claro para o imaginário do tecido social, mas principalmente para os gestores da “Coisa Pública” que o mercado de trabalho não é o fim último da educação, mas sim, ter presente que uma estruturação sadia do ponto de vista psicossomático e espiritual na formação do caráter e da personalidade é tema fundamental para que as novas gerações não sejam “indivíduos” que fazem parte dessa engrenagem como unidade, e, sim, pessoas que saibam lidar com os próprios conflitos existenciais, aliás, que na proposta da Reforma do Ensino é omitida nas grades curriculares oficiais, em benefício certamente, da demanda do mercado de trabalho.
Isso é uma tragédia para toda a nação na preparação de um futuro sustentável, saudável e sob todos os pontos de vista ao tratar-se da estrutura humana, política, socioeconômica e espiritual. Afinal o humano também deve ser contemplado no processo de formação num triálogo, que contempla o psiquismo, a corporeidade e a transcendência que terão seus efeitos também na organização da economia.
Hoje há um verdadeiro bombardeio de informações, embora, diga-se de passagem, que isto não significa conhecer.
Conhecimento exige método de análise e para tanto é tarefa da introdução ao pensar fornecido pela filosofia sistemática.
Toda a crise que se acompanha nos meios de comunicação, como a violência, o uso de drogas, a bebida em excesso, o alto índice de suicídios de jovens, aliás, que não é fornecido pela mídia e nem deve, retrata uma sociedade sem referência a valores que possam proporcionar às crianças e os jovens um sentido real para suas vidas.

Sem uma conceituação holística de ser humano no processo da educação e com apenas no interesse de formar mão de obra qualificada para o mercado, é tornar o ser humano um robô.
Em outras palavras não se trata de educação e sim um adestramento, pois na prática eles aprendem apenas a exercer com habilidade a tecnologia, mas que jamais saberão lidar com seus próprios problemas ligados ao sentido da vida.
Como é que os jovens vistos sob essa ótica unidimensional podem ter um ideal de realização como pessoa?
Daí a importância de introduzi-los na arte de pensar=filosofia, de cultivar a transcendência, e aí é que se fundamenta a necessidade do Ensino Religioso, que não se confunde com “religião”, pois, este é muito mais amplo que apenas ligado a uma religião.
Entretanto são elementos necessários para formar os novos e autênticos cidadãos em benefício de uma Nação próspera e feliz. Por outro lado, se faz necessário a valorização da família como um núcleo fundamental nesse processo de humanização, aonde todos os segmentos do tecido social sejam empresarial, escolar, social e nas relações interpessoais que a religiosidade é algo intrínseco da essência humana.
A superação de conduzir as crianças e adolescentes para um simples adestramento técnico é um crime hediondo, pois isso, “ipso fato” conduz à anulação da Identidade e o Eu de todos, mormente das crianças e dos jovens em fase de formação.
O resultado de tal procedimento é o número significativo de doenças desconhecidas e estranhas para a medicina convencional.
Fomos criados para sermos felizes e não para sermos escravos da economia de mercado e dos interesses das ideologias mercantilistas, do capital financeiro que é desumano nos moldes que aí está.
Deve-se frisar com muita clareza que a sustentabilidade de uma nação está acima do aqui e do agora, e nesse paradigma jamais uma nação que se preze venha a ter coragem e ser capaz de submeter seus filhos, que adquiram habilidades de natureza tecnológicas para alimentar o progresso e o desenvolvimento cuja finalidade é de acumular coisas materiais, em vista de um mercado impessoal e desumano.
A educação necessita preparar pessoas felizes e realizadas, e, mais, usufruindo de todo este progresso, embora necessite de uma consciência crítica de que isso tudo não se reduz ao fim último da existência humana, mas é meio.
Partindo desse pressuposto fica claro que uma visão antropológica que contempla o todo humano, jamais poderá prescindir de sua grade curricular nos educandários o “Ensino Religioso”.
É bom saber discernir que “ser religioso” é a marca que todos têm dentro de si e “religião” é cultura, pois são as várias maneiras de externalizar essa marca deixada pelo Criador no coração do ser humano.
O cultivo da religiosidade é o que dá o sabor e a serenidade ao ser humano, os valores e princípios é que fornecem referência para uma formação completa e segura ao ser humano.
A imprensa nunca divulga o número significativo de suicídios de jovens, aliás, nem deve fazê-la, mas o número é assustador, embora isso é fruto de uma formação parcial e pragmática que não proporciona sentido à vida desses jovens.
Eles paulatinamente vão percebendo que a vida perde o gosto por não ter referência alguma que preenche o seu “ser” na interioridade de cada um.
A LDB elege quatro áreas das ciências humanas: história, geografia, sociologia e filosofia.
Pergunta-se: Por que é omitido o “Ensino Religioso”?
Quem argumenta que o estado é laico e por isso não precisa ter ensino religioso, ainda não sabe distinguir que “laico” não é ateu, e ainda não conhece sequer uma antropologia que se preocupa com o todo na formação do ser humano.
Por outro, continuo a questionar e ter grandes reservas na pressa de aprovar tal projeto, sem abrir à sociedade os parâmetros que estejam na subjacência dessa postura e pior, como “Medida Provisória”, aliás, assunto tão complexo.
É brincar e subestimar com a “dignidade do ser humano”.
Portanto, não convence os argumentos do Ministro da Educação- MEC. Ainda mais quando se ouve e vê a falta de moralidade nesta lista de pessoas que têm e/ou tiveram uma responsabilidade pública para gerir a nação, e que infelizmente estão envolvidas em escândalos infindáveis.


EDUCAR PARA A CIDADANIA DEVE SER DESENVOLVIDO A PARTIR DE VALORES ÉTICOS E LEVANDO EM CONTA TAMBÉM A TRANSCENDÊNCIA.

O sonho de construir um mundo novo de paz, de justiça e solidariedade precisa ir além de uma visão mercantilista.
No entanto, o imaginário que os gestores da “Coisa Pública” precisam superar e se livrar é de serem coniventes com os interesses do capital financeiro e/ou atrelados à demanda do mercado com pouca ou nenhuma preocupação com o futuro das gerações para um Brasil novo.
“É preciso, a todo custo, fazê-los refletir sobre as consequências dos valores paternalistas, clientelistas, buscando, talvez no nosso “jeitinho” de resolver os problemas, os mecanismos sociais necessários para se ter a verdadeira cidadania”. (CHASSOT, Áttico – OLIVEIRA, Renato José – Ciência, Ética e Cultura na Educação – UNISINOS – 2001).
E segue: “...é necessário demonstrar as contradições do capitalismo, ou do modelo neoliberal que nos é imposto. Enfim, preciso mostrar ao aluno o quanto o consumismo tem nos afastado dos interesses coletivos e o quanto temos sido “massa de manobra” de interesses econômicos, sobretudo, pela manipulação dos meios de comunicação de massa”.
Sem margem de dúvida, ao abordar a questão da cidadania em todo o processo educacional jamais se deve perder de vista que sempre se faz necessário ter consciência que a educação atinge o todo do humano, levando em conta a “trilogia” da essência humana: um ser cognitivo, biológico e espiritual.
Sem olhar nessa ótica, continuarão os absurdos números de suicídios entre jovens por não verem sentido na vida, por perderem sua identidade como humanos e por verem algo que esteja acima da imanência histórica, ou seja, Deus como sentido último da existência humana que lhes foi negado na fase da formação.
Portanto: “Não há como formar cidadãos sem desenvolver valores de solidariedade, de fraternidade, de consciência do compromisso social, de reciprocidade, de respeito ao próximo e de generosidade”. (ibidem).
É preciso dar-se conta que: “No fundo da própria consciência, o homem descobre uma Lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está chamando, evita isto, aquilo; o homem tem no coração uma Lei escrita pelo próprio Deus: a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado”. (Rm 2, 14-16).
Portanto: “A consciência moral não se fecha sobre si mesma, mas se abre à voz de Deus, do contrário, é a causa da qual brota a angústia e a ansiedade do homem, aliás, fruto dum niilismo vazio e sem horizonte para o futuro”. (SILVA, Ari Antônio – Evangelização Digital – Letra&Vida Editora Suliani – 2013 e 2ªed. 2014).
Esse pressuposto nos faz pensar que “O direito dos jovens a uma educação nos justos valores jamais deve ser omitido nem debilitado por qualquer interesse político nacional ou supranacional (...), pois a verdade está acima de qualquer ideologia e nem permanecendo atrelada a paradigmas que não contemplam o todo e dessas rupturas ideológicas.
Disso depende o futuro da humanidade e de uma nação”. (ibidem).
Portanto é justo fazer uma crítica mordaz ao MEC a mando do governo atual e da elite brasileira.
Por que essa pressa para a “Reforma do Ensino” e mais ainda, com maior reserva através de uma “Medida Provisória”?
Fica mais esse texto para a reflexão dos leitores de minha coluna semanal no GramadoSite e no meu Blog.www.padreari.com.br . Pense!

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