Capitalismo e Economia de Mercado não é a mesma coisa

Economiaenegocios Artigos 05 Março / 2014 Quarta-feira por Padre Ari

É sintomática a observação de determinados grupos do tecido social, cujos interesses estão acima do bem comum, quando falamos em “economia”. “Oikonomia= significa na tradução do grego para o português, “arrumar a casa”.
O mundo moderno de forma muito sutil desenvolveu em cima da economia, uma nova visão de conjunto, ou seja, a economicidade de todos os âmbitos da vida. A (EA) procura de forma objetiva e firme fazer uma crítica mordaz à tentativa de certos grupos que não mostram seus rostos confundindo conceitos e desvirtuando o sentido da verdadeira economia. Curiosamente aparece a reação crítica de muitos cristãos ou não, quando se trata do papel da Igreja no tecido social contemporâneo.
Há ainda muita resistência de setores diversos no seio ou fora da Igreja, quando ela se sente comprometida e responsável no conjunto estrutural na formação da nova sociedade. Muitos gostariam, mormente, os que detêm o poder do “capital financeiro”, aliás, que não deixa de ser uma distorção da autêntica economia, que a Igreja como instituição se restrinja exclusivamente a questões de ordem religiosa.
Não é possível em consciência vivenciar a fé cristã desvinculada do contexto geral da sociedade, isto sem margem de dúvida é empurrar a fé para uma subcultura, individual alegando ser uma questão fragmentada e alienante da vida comum das pessoas. “O Evangelho deve ser anunciado a toda a criação”. (L’Osservatore Romano- nº3- 16 de Janeiro de 2014 – p.8).
E continua: “Por este motivo a política, a economia e a cultura enquadram-se na missão evangelizadora da Igreja”. Afinal, os membros das comunidades cristãs, são os mesmos que vivem e atuam no contexto sócio político econômico.


FÉ, EVANGELIZAÇÃO, POLÍTICA, ECONOMIA E SOCIEDADE É UM PROCESSO QUE DEVE CAMINHAR EM CONJUNTO.

Antes de qualquer referência concreta ao título que para muitos pode significar uma visão estranha de viver a fé, é importante frisar de que tudo o que diz respeito ao ser humano, tem referência ao conjunto dos elementos que regem a sociedade. Não se trata de partidarismos políticos e ideologias que sempre são parciais, e sim, de uma ampla visão da realidade social aberta para debates construtivos na edificação de um tecido social participante, compromissado com o bem comum de todos.
Por outro lado, as ideologias dos diversos partidos políticos, tendências de concepção de mundo na construção da melhor forma de ser uma sociedade de irmãos, sem dúvida é algo que enriquece esse conjunto dos vários segmentos da sociedade. “Muitos gostariam de limitar a religião à questão da salvação da alma e considerando a fé e a Igreja apenas como vestígios de um tempo que na realidade deveria ser sido superada pelo iluminismo e pelo progresso”. (ibidem).
A verdade é que o capitalismo não é a resposta para o futuro.
Acusar a Igreja de que a mesma não entende o capitalismo, que despreza os ricos, e não dá uma contribuição para a melhoria das condições de vida, é uma acusação falsa e arbitrária, pois até hoje a Igreja sempre esteve à frente dos problemas sociais, através de inúmeras organizações eclesiais, na formação de congregações religiosas voltadas para esse meio da pobreza.
Como exemplo temos um organismo da Igreja, ou seja, a “Caritas” nacional e internacional que de forma expressiva e contínua marca presença atuante frente aos desafios, sejam em tragédias naturais, como de guerras entre povos e etc.
A Exortação Apostólica de Francisco faz questão de frisar no seu contexto que: “Nem o Papa nem a Igreja possuem o monopólio da interpretação da realidade social ou proposta de soluções para os problemas contemporâneos”.
Por outro lado, o Papa Francisco de forma corajosa e firme aponta para a grande tradição da doutrina social católica que sempre esteve presente ao longo de toda a história do cristianismo. A (EA) faz questão de afirmar: “A evangelização não pode significar só apresentar às pessoas os conteúdos da fé do catecismo e administrar-lhes os sacramentos, mas encontrar também um novo modo de viver uma nova comunidade e um novo conceito do futuro de todos”.
E conclui: “É necessária uma evangelização completa, que inclua a cultura, a sociedade, a política e a economia”.
Esse lado da Igreja, ainda não foi bem entendido por muitos, afinal é preciso dar-nos conta de que vivemos num contexto de uma cultura aberta, moderna, livre, pluralista e que sempre mais vai exigir dos membros da Igreja, sejam agentes de pastoral, sacerdotes, religiosos, consagrados, bispos um exímio preparo nas várias áreas do conhecimento para promover o bem comum. É um mega desafio para quem está na formação dos novos sacerdotes e agentes de pastoral. A vida é o conjunto de tudo o que faz parte da sociedade.
É absurdo que dentro do processo de evangelização não se tenha em conta os problemas de ordem social, tais como a desigualdade social, a pobreza, a falta de remédios, hospitais em estados lamentáveis, a questão do tráfico humano que é uma chaga triste em pleno século XXI e que ainda circula na sociedade contemporânea – CF-2014. Urge uma educação integral politizada e apartidária com o objetivo claro de formar líderes autênticos para gerir o futuro da humanidade, respeitando as diversidades culturais de todos os povos.


A CRISE DO CAPITALISMO É VISÍVEL ENQUANTO RUMA AO “CAPITAL FINANCEIRO” QUE LEVOU O MUNDO A UMA CATÁSTROFE

Deve ficar explícito que a crise do capitalismo não é algo recente, mas vem se arrastando há muitos anos com a insistência de certos grupos que estão no topo do bem-estar egoísta e não querem perder seus privilégios.
Os remendos e reformas são paliativos que apenas encobrem o fracasso do sistema financeiro da forma como é conduzido nos bastidores. “A partir dos anos noventa, conhecemos um desenvolvimento cada vez mais agudo rumo a um capitalismo financeiro, que levou a uma crise catastrófica, aliás, deplorada até por economistas de bom senso e bem intencionados”. (ibidem). O fato é que este modelo que não quer sair de cena além de matar, “...destrói vidas humanas e lesa o bem comum”.
Por isso o título do texto: capitalismo e economia de mercado não é a mesma coisa, pois a própria palavra “capitalismo” é desviante, pois pretendem poder definir toda a vida da humanidade como um todo a partir de um determinado ponto que é questionável.
Pergunta-se: “Que visão é esta em que a economia e a sociedade têm como ponto de partida o capital e torna as pessoas que trabalham em condições marginais, ou seja, fatores de custo?. Reduzir a ação econômica ao capitalismo é optar pelo ponto de partida moralmente errado, embora, por outro lado, engana-se também a longo prazo sob o ponto de vista econômico. “Imaginar mercados puros que façam emergir o bem através da livre concorrência é apenas uma ideologia como está no caminho da alienação”(MARX, Reinhard- economista).
É um momento importante para um debate aberto de uma problemática que nas últimas décadas se escondeu nos bastidores de uma sociedade que se estruturou de forma errada, antiética, egoísta, embora chegou o momento em que não consiga mais tapar o fracasso.
A sociedade, as universidades, os vários segmentos societários têm que ter a coragem de pensar um novo modelo econômico que favoreça neste contexto da globalização o bem de todos os povos e aí se encontra o papel dos cristãos e da Igreja como Instituição.(continua).

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