A sociedade contemporânea é refém do “mercado possessivo” que possui ingerência na política e na cultura

Economiaenegocios Artigos 07 Agosto / 2017 Segunda-feira por Padre Ari

A desconstrução do tecido social, mormente do mundo ocidental, é uma triste realidade. O sonho de qualquer cidadão seja local ou mundial infelizmente segue paulatinamente a uma deterioração decadente, a um abismo sem precedente. O contexto e a lógica subjacente parecem ser “salve-se quem puder”. O critério eletivo que se estampa como valor moral no hoje da história é o individualismo. É uma herança perversa que se acentua cada vez mais, embora com roupagens novas.
No imaginário societário do neoliberalismo por incrível que possa parecer, o mesmo através de diversos mecanismos conseguiu a proeza de reduzir o humano a um indivíduo, distanciando-o de seu habitat comunitário que faz parte de sua essência antropológica, alguém distanciado de sua originalidade, ou seja, um ser de relações interpessoais.

É no “lusco fusco” que o indivíduo sofre consciente ou não de solidão ao ser desmantelado forçosamente de sua individualidade, ou seja, na essência da identidade que o faz ser um ser diferente de todas as outras criaturas.
A individualidade característica do ser humano que consiste na autoconsciência reflexa, gera diante de si uma sensação de medo, solidão e desespero. É uma situação inusitada num momento da história em que há um significativo avanço tecnológico e de bem-estar material, embora paire no ar a incerteza que paralisa sempre mais o ser humano.

Os tentáculos de neoliberalismo no sistema vigente se desdobram hoje no que se chama por alguns críticos de “neuroliberalismo”.

“...o neuroliberalismo é a inoculação ideológica produzida pelo neoliberalismo em todos os espaços de convivência social. A opressão capitalista não está mais concentrada nas fábricas e nos presídios, ela se torna difusa, deslocando-se dos lugares totais e tronando-se onipresente. Cada um deve se tornar o empresário de si mesmo, explicam os autores aludindo ao conceito de “capital humano”, a política dá lugar “ a “cidadania gerencial, a preocupação de ser um “bom trabalhador”, manter o emprego, ascender profissionalmente, ser mais atento que os outros; viver em constante estado paranoico tentando prever as crises e oportunidades futuras; ocupa todos os espaços e momentos da vida na empresa, na família, no lazer, nas ruas” . (BIAGINI, E Hugo & PEYCHAUX, Fernandez- Diego – O Neuroliberalismo e a ética do mais forte – Ed. Nova Harmonia – Nova Petrópolis – 2016).
Como entender uma sociedade embebida nesse quadro paradigmático? Como ser feliz num contexto despersonalizante onde alguém busca fortalecer uma vida com sentido? Novamente nesse imaginário fica explícito que o interesse primordial seja o fortalecimento do mercado como fim último. É claro que isso é uma disfunção social que inviabiliza uma vida com sentido, pois o que deve ser “meio” torna-se “fim”.
A Doutrina Social da Igreja é muito clara ao definir o mercado em outro paradigma, ou seja: “...o mercado é a instituição econômica que permite o encontro entre as pessoas em sua dimensão de operadores econômicos que usam o contrato como regra de suas relações e que trocam bens e serviços entre si fungíveis, para satisfazer suas carências e seus desejos. (BENTO XVI, - Carta Encíclica Caritas in Veritate – Sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade- Paulus/Loyola – 2009). E segue: “O mercado está sujeito aos princípios da chamada justiça comutativa, que regula precisamente as relações do dar e receber entre sujeitos iguais (...) mas a Doutrina Social nunca deixou de pôr em evidência a importância que tem a justiça distributiva e a justiça social para a própria economia de mercado, não só porque integrada nas malhas de um contexto social e político mais vasto, mas também pela teia das relações em que se realiza”.
Como entender uma situação tão complexa e traumatizante no contexto político socioeconômico da atualidade? Tudo parece demonstrar o desinteresse pelo bem comum do tecido social. Parece ficar sempre mais nítido que permeia nos porões societários a circulação de projetos escusos, desumanos dos que deveriam gerir a “Coisa Pública”, ou seja, a não disposição para concretizar uma nova sociedade baseada na justiça e na igualdade social.
subjaz nos bastidores da sociedade atual um veneno antissocial provocado pela ideologia neuroliberalista
Partindo da conceituação da “dialética do Iluminismo” onde a mesma elege a individuação como paradigma antropológico, há sem margem de dúvida um processo de fragmentação do humano como totalidade. Na prática existe uma facilitação para conduzir o humano a um objeto qualquer que induz tudo a condição de mercadoria. O que transparece nessa dimensão?
“Erige-se uma “ética gladiatória” apta a transformar qualquer trabalhador que saiba vencer na arena do mercado dirigente de alguma megacorporação, embora se saiba desde já que tal Olimpo está destinado a poucos”. (BIAGINI &PEYCHAUX, 2016).
O princípio do neuroliberalismo sempre é seletivo e não está preocupado com o todo do tecido social. Ao se voltar o olhar para realidade brasileira não se tem dúvida que nos acontecimentos dos últimos dias ficou explícito o quanto a Câmara dos Deputados, como o Congresso Nacional não possui nenhuma preocupação com o todo da nação, e sim, com interesses de classe, ou seja, da elite financeira da nação. Por quê?
“O neuroliberalismo apega-se a uma fantasia cínica, pois diante de tantas evidências quanto à desigualdade, miséria e mortes provocadas por um modelo de sociedade calcado em valores egoístas, individualistas, hostis à solidariedade, ao combate à injustiça social e à priorização do respeito e efetivação dos direitos humanos, continua-se assumindo que tal modelo é o mais apto para promover o bem-estar de todos”. (ibidem).
A Doutrina Social da Igreja ciente de seu papel de promover o bem comum de todos sempre tem se pronunciado contrário a eleger o mercado como o melhor regulador da igualdade social. É simplesmente uma ilusão para não dizer uma assertiva enganosa, falsa e têm razões suficientes para fundamentar tais proposições como não verdadeiras.

“...deixado unicamente ao princípio da equivalência de valor dos bens trocados, o mercado não consegue gerar a coesão social de que necessita para funcionar bem. Sem formas internas de solidariedade e de confiança recíproca, o mercado não pode cumprir plenamente a própria função econômica. E, hoje, é precisamente esta confiança que vem a faltar; e a perda da confiança é uma perda grave”. (Caritas in Veritate, 35).
Assim é que se encontra o Brasil de hoje. Os gestores da “Coisa Pública” lavam as mãos e dão as costas aos cidadãos para se beneficiarem dos recursos públicos, via propina, conchavos e corrupção de toda a natureza e sem nenhum escrúpulo de consciência. Assim entra no imaginário popular a “ideologia do medo” em todas as camadas sociais, mormente as mais pobres, sofridas e excluídas da sociedade. A consequência prática dessa realidade é a abertura da barbárie. Até quando? É bom pensar!


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