O ser humano é o sujeito do trabalho e não mercadoria do livre mercado

Economiaenegocios Artigos 05 Agosto / 2013 Segunda-feira por Padre Ari

A consciência de que o ser humano deve ser o protagonista do trabalho, às vezes soa de maneira ambígua para uma cultura que está embebida numa visão pragmática, utilitária e mecanicista.
Entretanto é necessária uma mudança de paradigma em nosso tempo que rompeu o conceito de trabalho como algo que dignifica a pessoa e a enobrece, levando a um reducionismo mercadológico, sem rosto e sem identidade.
Refazer a história num contexto humano é o desafio que hoje enfrentamos. “O homem deve submeter a terra, deve dominá-la, porque como “imagem de Deus”, é uma pessoa; isto é, um ser dotado de subjetividade, capaz de agir de maneira programada e racional, capaz de decidir por si mesmo e tendente a realizar-se a si mesmo”(apud “Gaudium et Spes” in Laboren Exercens-p.22).
E continua: “É como pessoa que o homem e a mulher trabalham e realizam diversas ações que fazem parte do processo laboral.
Devem servir todos para a realização da sua humanidade e para o cumprimento da vocação de ser pessoa, que lhe é própria em razão da sua mesma humanidade” (ibidem).
Portanto, o trabalho é um valor ético que realiza as pessoas e que devem estar conscientes de sua liberdade podendo assim, decidir por si próprias. No decorrer do tempo houve uma inversão do valor do trabalho na realização do “humano”, quando impulsionados por ideologias dúbias transformaram o mesmo numa ferramenta de ganância pelo ter, acumulando bens em benefício próprio e não tendo mais como meta, o bem comum, a fraternidade, a partilha e o desenvolvimento holístico da humanidade.
Daí o surgimento de grandes e expressivas massas humanas submissas ao um vergonhoso processo de exclusão retratado pelas desigualdades sociais e a pobreza.
É preciso redefinir ao sentido etimológico do que representa o trabalho na valorização e enaltecimento do “humano”.
“A finalidade do trabalho, de todo e qualquer trabalho por mais humilde que seja, permanece sempre o mesmo homem” (ibidem).
As distorções ideológicas do trabalho tem levado a cultura contemporânea, de modo especial a ocidental, desvirtuar o trabalho e desenvolver uma conduta desumanizante, bem como uma civilização unilateralmente materialista, na qual se dá importância à dimensão objetiva do trabalho e deixando de lado o próprio sujeito do trabalho num segundo plano.
Ora, isso tem levado o ser humano a ser tratado como uma engrenagem no processo do desenvolvimento, ou seja, como algo reificado. “O homem passa então a ser tratado como instrumento de produção” (ibidem).
Sob todos os pontos de vista, teológico, filosófico, sociológico e psicológico é um abuso vergonhoso tratar o “humano” como qualquer objeto, ou seja, um robô vivo composto de órgãos e tecidos.


O TRABALHO HUMANO DEVE TER UM LUGAR CENTRAL EM TODA A ESFERA DA POLÍTICA SÓCIO- ECONÔMICA

“O erro do primitivo capitalismo pode repetir-se onde quer que o homem seja tratado de alguma forma, da mesma maneira que todo o conjunto dos meios materiais de produção, como um instrumento e não segundo a verdadeira dignidade do seu trabalho – ou seja, como sujeito e autor e, por isso mesmo, como verdadeira finalidade de todo o processo de produção”. (Laboren Exercens- p.27).
Nesse sentido as Encíclicas de João XXII, “Mater et Magistra”, do saudoso Paulo VI “Populorum Progressio” tiveram há mais de cinquenta anos a visão crítica relativa as dimensões e problemas éticos e sociais contemporâneos.
Mais recentes o beato João Paulo II com as Encíclicas “Sollicitudo Rei Socialis”, “Laboren Exercens”, “O Redentor do Homem” e Bento XVI, com a magnífica Encíclica “Caritas in Veritate” orientou sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade, como também tem apontado às distorções, e, ao mesmo tempo fornecido orientações humanizadoras para o trabalho humano.
Os cristãos, mormente os católicos, deveriam ter um conhecimento aprimorado desses e de tantos outros documentos que orientam os cristãos inseridos no contexto histórico, para terem presente a importância dessas Encíclicas no processo de humanização de uma sociedade que perdeu a dimensão ética cristã de uma política sócio econômica para contribuir na formação da nova sociedade.
As religiões em vez de fazer proselitismo e disputa de forças para atrair “clientes”, antes de qualquer coisa, devem buscar um consenso além de suas crenças para buscar o bem comum de todos e superar as desigualdades sociais e a pobreza que está justamente numa reestruturação de todos os segmentos da sociedade. “O encontro e o sofrimento de toda a solidariedade e a fraternidade são os elementos que tornam a nossa civilização verdadeiramente humana”(Papa Francisco).


AS INCONTESTÁVEIS CRISES E ERROS DA CRISE FINANCEIRA E CLIMÁTICA DO MUNDO GLOBALIZADO

“A crise financeira global e a crise climática e outras crises ambientais nos revelam clara e “inequívoca”, os erros e as fraquezas do nosso sistema de livre mercado.
Sem falar que ficaram bem visíveis também as fraquezas daqueles que abusam desse sistema exclusivamente para sua vantagem pessoal”. (GRÜN, ZEITZ – Deus, Dinheiro e Consciência- Vozes-2012- p.58).
Partindo desse pressuposto podemos inferir a importância do diálogo entre as religiões, como “desarmamento pessoal” no nível individual.
Sem entrar em discussões de natureza teológica, que no momento deve ficar em segundo plano, abre-se a necessidade das religiões ter uma atitude sincera, correta para não querer ter influência ameaçadora umas sobre as outras, mas olhar aquilo que no momento histórico é mais ameaçador, ou seja, a desintegração da própria humanidade.
O diálogo entre todas terá com certeza a força de transformar os conflitos sociais, as desigualdades sociais e a pobreza em uma sociedade fraterna e solidária.
Não faltam recursos para a sobrevivência da humanidade, e, sim, vontade política e a unidade de todos os segmentos da sociedade civil e religiosa para reestruturar uma conjuntura arcaica alicerçada sob um “pântano” que não traz nenhuma esperança a ninguém, pois, a ausência do cultivo de valores éticos sociais é base para uma nova sociedade.
“Para criar um mundo melhor, devemos nos unir como pessoas globalizadas; não esquecer, nesse caso, nossas raízes e nossa procedência, mas protegê-las, tanto no aspecto biológico, como no cultural e social”. (GRÜN, ZEITZ- 2012).
E continua: “Costumes e arte locais e regionais introduzem variedade de tons e talentos no quadro global, por isso eles devem obrigatoriamente ser mantidos”.
É preciso criar no imaginário da sociedade de que para criar um mundo melhor urge reformular os paradigmas muito mais em relação aos valores, do que na questão da economia que é consequência que reflete a ausência de eticidade político-social e também religiosa. Sem margem de dúvida, as religiões podem e devem exercer um papel decisivo na mudança do quadro geral da conjuntura societária ao criar uma consciência de unidade e não de competição. Finalmente pode-se afirmar:
“A diversidade, seja a das espécies ou a cultural, equilibra e estabiliza os sistemas”.
Pense e reflita!

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