As políticas sociais do poder público e suas ambiguidades

Economiaenegocios Artigos 29 Julho / 2013 Segunda-feira por Padre Ari

“É mediante o trabalho que o homem deve procurar o pão cotidiano e contribuir para o progresso contínuo das ciências e da técnica, e, sobretudo para a incessante elevação cultural e moral da sociedade, na qual vive em comunidade com os próprios irmãos” (Carta Encíclica – “Laborem Exercens”- O Trabalho Humano – João Paulo II – Ed. Paulinas – p.5).
E continua: “Trabalho é indicado toda a atividade realizada pelo homem, tanto manual como intelectual, independentemente das suas características e das circunstâncias”.
É sem margem de dúvida de que o trabalho é uma característica que distingue o ser humano de todas as demais criaturas relacionado à manutenção da própria vida.
Podemos afirmar de que é uma marca particular do homem e da humanidade, marca essa que opera numa comunidade de pessoas e isso, naturalmente determina a qualificação do mesmo trabalho, que de certa forma constitui a sua própria natureza.
A Igreja tem convicção de que o trabalho constitui uma dimensão fundamental da existência humana sobre a terra.
É importante frisar de que a Igreja ao olhar o texto bíblico “submeter a terra” tem um alcance imenso. “Ela indica todos os recursos que a mesma terra (e indiretamente o mundo visível) tem escondidos em si e que, mediante a atividade consciente do homem, podem ser descobertas e oportunamente utilizadas por ele”. (ibidem).
Essas palavras jamais cessam de ter atualidade. Por quê? “Elas abarcam igualmente todas as épocas passadas da civilização e da economia, bem como toda a realidade contemporânea, e mesmo as futuras fases do progresso, as quais, em certa medida, já estejam se delineando, mas, em grande parte, permanecem ainda para o homem algo quase desconhecido e recôndito”. (ibidem).


A RELAÇÃO DO HOMEM COM O TRABALHO SEMPRE O DIGNIFICA

“Submeter à terra”, projetam luz sobre o trabalho humano, uma vez que o domínio do homem sobre a terra se realiza no trabalho e mediante o trabalho (...) assim emerge o significado do mesmo trabalho em sentido objetivo, o qual tem depois a sua expressão nas várias épocas da cultura e da civilização”(João Paulo II-“Laborens Exercens”. Percebe-se nesse texto da Encíclica de que o trabalho é uma peculiaridade do ser humano. Ao cultivá-lo o ser humano reelabora os produtos do mesmo e vai adaptando o trabalho às suas próprias necessidades. “Hoje, na indústria e na agricultura a atividade deixou de ser um trabalho prevalentemente manual(...) os esforços das mãos e dos músculos passaram a ser ajudados pela ação de máquinas e mecanismos cada vez mais aperfeiçoados.
Não somente na indústria, mas também na agricultura, nós somos testemunhas das transformações que foram possibilitadas pelo gradual e contínuo progresso da ciência e da técnica”(ibidem).
E continua: “Isto no seu conjunto, tornou-se historicamente causa também de grandes viragens da civilização, a partir das origens da “era industrial”, passando pelas sucessivas fases de desenvolvimento graças às novas técnicas, até se chegar às da eletrônica ou dos “microprocessos” nos últimos anos”.
Entretanto é preciso frisar de que apesar de toda a tecnologia o “sujeito próprio do trabalho” continua a ser o homem.
O avanço da tecnologia, por outro lado, pode também transformar-se quase em adversária do homem(...) quando a mecanização do trabalho “suplanta” o mesmo homem, tirando-lhe todo o gosto pessoal e o estímulo para a criatividade e para a responsabilidade, tirando o emprego de muitos trabalhadores, mediante a exaltação da máquina que acaba reduzindo o homem ao estado de escravo da mesma. Essa realidade nos traz conteúdos e tensões de caráter-ético e ético-social.
Daí surge um desafio contínuo para muitas e diversas instituições, para os Estados e os Governos, bem como para os sistemas e as organizações também para a Igreja.


AS TENTATIVAS DE SOLUÇÃO PARA AS DESIGUALDADES E A POBREZA QUE AINDA CONTINUAM É UM DESAFIO

Fica claro de que o trabalho dignifica o ser humano quando é devidamente exercido. É uma tarefa que Deus deu ao homem com o dom da inteligência para aperfeiçoar a Criação. Por outro, o trabalho jamais deve escravizar o ser humano, torná-lo mercadoria ou instrumentalizá-lo.
O trabalho deve realizar o ser humano. Mas, como fica a questão das desigualdades sociais, da pobreza que ainda persistem numa sociedade com um desenvolvimento fantástico? Algo não está devidamente ajustado na conjuntura societária.
Percebe-se da parte de governos tentativas de solução para a questão, embora se faça necessário certos ajustes.
No Brasil temos propostas governamentais como: “Bolsa Família”.
É um programa interessante, embora pareça faltar certa regulamentação para que esse projeto não se torne assistencialismo, dependência e favorecimento para o ócio ou favorecer interesses políticos partidários.
Outro exemplo, é o “Seguro-Desemprego”, quando pessoas vivem numa rotatividade constante de emprego para receber o seguro, e ao mesmo tempo trabalhando frio para receber por fora mais salário.
Esse procedimento terá um preço alto anos após, ao chegar a hora da aposentadoria. São programas mesmo favorecendo e reforçando famílias pobres, deveria por outro lado, exigir que fossem empregadas com carteira assinada para não sofrer as consequências mais tarde. Um exemplo que temos provém do projeto “Aliança para o progresso” dos anos 60, quando os Estados Unidos distribuía para a América Latina cestas básicas.
Esse projeto fracassou, pois, depois de determinado tempo ficou constatado que o povo estava mais pobre do que antes do projeto.
Por quê? Criou a “dependência”.
Essa, aliás, foi a gota que desencadeou a ditadura militar que jamais se deve repetir.
A teologia da libertação emergiu nessa época com o teólogo Gustavo Gutierrez, quando, ele fez que todos percebessem de que era preciso da solidariedade, embora frisando de que a superação da pobreza estava na valorização do trabalho.
Há um ditado que diz: “Em vez de dar o peixe, ensine-o a pescar”.
Nesses projetos sociais sem uma regulamentação, corre-se o mesmo risco dos anos 60, que acabou na repressão militar, até porque a consciência de libertar-se da pobreza e da desigualdade está nas mãos do próprio povo quando conscientes de que ele é o protagonista das mudanças sociais.
São louváveis certos projetos sociais, embora os mesmos necessitem de critérios adequados para evitar o que se denomina na sociologia de “Teoria da dependência”, ou o “Assistencialismo” que não faz uma nação desenvolver.
A base sempre deve estar na educação e amor ao trabalho, e nunca numa política com ideais de manipulação, mas, sim, de promoção da dignidade humana através de um trabalho digno. Eis o desafio.
Pense e reflita!

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