Debujo

Cultura História 27 Setembro / 2013 Sexta-feira por Marília Daros

Trabalho com desenho histórico faz mais de 30 anos. Eu chamava de “desenhos da memória” ou “Gramado em desenhos”. O desenho através de imagens históricas de Gramado. Fazia isto nos anos 80 no Cenecista, com alunos, que até prêmios ganharam, desenhando a história.

O que tentei ensinar e que entendo como verdade, pois foi-me repassada anos depois por Guinter Weimer, um dos arquitetos mais especiais que convivi, que dizia “ não se escreve nem se desenho a história, sem documentação básica.” Ele falava em fotografias. Mas ele me ensinou que “qualquer documento histórico é verdadeiro e mentiroso ao mesmo tempo.”
A representação concreta nem sempre é possível de ser feita, porque nossas imagens visuais são realidades deformadas. Claro, escuro, cores, formas. E, além disto, temos a diferença de olhares e emoções dos que atuam na concretização de uma obra.

Hoje o desenhar de um arquiteto por aqui, na realidade, trabalha com a dispersão do olhar dos outros trabalhos para, claro, o seu trabalho. Então, quanto mais estranho e temático for, melhor será para o “empreendedor” que o contratou. Concorrência pura. Arte? Sei lá.

A maior parte da memória de Gramado não serve mais para se levar um aluno para desenhar. Não possuem identidade, não possuem personalidade e nem tampouco, história. Então o que temos são apenas, “construções” e não “obras de arquitetura” como deveriam ser. Construções que não estão conversando com a natureza, com o espaço cênico que ocupam. Na verdade, se fossem obras arquitetônicas, elas pensariam com o espaço que ocupam, tentando uma harmonia de suas formas.


O padre jesuíta Balduíno Rambo, em seu livro “A fisionomia do RS” editado em 1956 comentava sobre o olhar humano e dizia:
“Uma paisagem completamente dominada e transformada pela mão do homem, perde grande parte de seu valor estético... Quanto mais as obras humanas se adaptam ao estilo natural da região, quanto mais a conservação das belezas denota o respeito do homem pelas formas traçadas pela mão do Criador, tanto mais o sentido estético nelas se deleita”.

Cada ser humano é historiador de si mesmo, comprometido com o seu mundo, sua época e sua aldeia. Responsável por sua história, sua trajetória, seus atos. Responsável por seus documentos, sua memória fotográfica, sua participação comunitária como um produto de seu tempo. São os suportes materiais de sua história, que ficarão ou não para a posteridade.

Se não cuidar de seus vestígios, ou seja, as provas do que vivenciou, não compete culpar ninguém por não resgatar sua participação. Mas se deixar seus vestígios será encontrado no futuro, de alguma forma. Sua história não será deletada mesmo que mereça. Pois todos os exemplos de vida servem para a construção de uma comunidade, sejam bons ou maus exemplos.

“Fazer certo leva o mesmo tempo do fazer errado. Mas o fazer errado precisa ser refeito” (meus alunos conhecem esta frase).
Então levam outro tempo, não o tempo inicial. Fazer errado é perda de tempo.

Então, por favor, faça certo por Gramado deixando seu perfil com um bom desenho (debujo).

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