Anotações Históricas sobre o Museu Casa do Major - descargo de consciência

Cultura História 29 Janeiro / 2013 Terca-feira por Marília Daros

O assunto é antigo e polêmico. Está na hora de reler esta história.
Tudo começou com uma idéia antiga que foi aglutinada com a do empresário que acabou comprando parte do espaço e doando outro para a Prefeitura, numa negociação longa e complicada. A família Nicoletti pensou muito antes de fazer o negócio com a certeza final de que tudo andaria dentro dos diálogos inicialmente mantidos. Fui chamada pelo então Secretário Municipal de Planejamento, para montar a estrutura documental da criação e legalização do Museu e fiz meu orçamento em fevereiro de 2008.
Calcula o tempo?

Consultei todas as leis que regem criação de Museus em nosso país, consultei IPHAN e IPHAE, o SISTEMA NACIONAL DE MUSEUS, pois tenho amigos de longa data nestas instituições ou que passaram por elas. Busquei orientações em todos os sentidos para construir os Projetos de Lei que fariam a parte legal de criação e viabilização do empreendimento. Tudo foi pensado e repassado para a prefeitura, muito antes de ser veiculado na imprensa.

A previsão era de um ano para que tudo estivesse pronto, desde o novo tombamento do imóvel agora doado, até a abertura para a comunidade e para o turismo, do Museu Casa Major Nicoletti. Tenho registros de todas as ações, pois como envolvida no caso, os caminhos trilhados são históricos e por isto, sempre registro todas as ações referentes a cada momento de nossa história.

Foi feito o lançamento oficial da compra, com imprensa, família Nicoletti, autoridades, inclusive com protocolo oficial. Discursos registraram que tudo andaria dentro do que se tinha por meta. Mas será que andou?
Começou quando a calçada da Borges retirou as pedras antigas, as amontoou na lateral da escadaria da casa e depois tomaram chá de sumiço. Houve enganos na construção lateral à casa, na autorização de abate e retirada de árvores do bem histórico pela Secretaria de Meio Ambiente, na construção de um muro, no desmonte de parte da casa sem que houvesse uma avaliação profissional dos órgãos de memória do estado, no descuido com o terreno e plantas que fazem parte do acervo, na proteção com guarda permanente do espaço histórico para não ser invadido por pessoas quaisquer.

Os vereadores agora devem ficar preocupados. Já estou preocupada, bem como a família Nicoletti, desde 2008. E a Promotoria Pública também tem olhado este assunto com preocupação.

Esta casa foi construída entre 1918 e 1922 e sua história não é só gramadense.
Ela faz parte da história do Partido Republicano no país e especialmente, no estado; faz parte da história da arquitetura colonial italiana no RS; faz parte da história da criação do 5º Distrito; faz parte da história da Revolução da Degola, em 1893 e da Revolução de 1923; faz parte da nossa história local no contexto estadual e nacional. Por tudo isto já valeria um cuidado muito maior do que foi dado a ela, especialmente, depois de vendida pela família Nicoletti. O mobiliário, documentação histórica, a vida da família na casa, os pertences do Major, enfim, tudo o que envolve a montagem interna do Museu, não entraram no negócio e fazem parte importante ainda a ser trabalhada pelo poder público.
Vejam como a nossa história ainda precisa de afeto.
Como não fui contratada oficialmente e nada recebi em pagamento das instituições públicas, me sinto até desobrigada de estar neste projeto, pois era tudo para 12 meses, o que não aconteceu.

Meu papel na história local, sempre foi meio "cricri" e eu não me importo de ser até mal interpretada no sentido de ser “cricri”. Sempre gostei de alunos “cricris” em minhas aulas. Questionar sempre faz bem e sempre fui questionadora, como já dizia o Dr. Marino Kury, de saudosa memória. Tenho consciência de que estou fazendo a minha parte para que nossa história seja mantida.
Gostaria de ter mais adeptos e mais dinheiro para fazer o que digo sem depender dos outros. Não amealhei bens nem patrocinadores, amealhei vidas. Mas não se pode ter tudo neste mundo não é mesmo?

Se a comunidade está a permitir, quem sou eu para impedir... Se alguns interesses outros entram nesta história, sempre houveram interesses outros na nossa história. Afinal, toda moeda tem dois lados e o que posso dizer é que esta história está longe de ter apenas dois lados... duas faces...
Tem a face de cada um que se omitiu, deixou pra lá, desconsiderou, bateu de ombros, tapou os olhos, fez de conta que não era consigo, fez só a social e política, amealhou alguns, ignorou a história e, finalmente, não ajudou em nada para que Gramado mantivesse sua idoneidade adquirida pelos antigos produtores dos nossos pioneiros eventos domésticos pois, deixar tudo acontecer não foi o caminho turístico e cultural que Gramado escolheu.
Mas não foi mesmo.

E o Museu Casa do Major vai em frente, independentemente do conhecimento histórico dos historiadores domésticos que, como diz um velho amigo de crônicas gramadenses, mereceriam estar abraçados num mesmo objetivo e tendo o olhar mais afetuoso e respeitoso dos que dizem construir o nosso futuro. Construção ou desconstrução... Ainda não tenho certeza se é assim que se constrói o futuro: desconstruindo o trabalho de tantos abnegados gratuitos de uma comunidade.
Como disse, quem sou eu para impedir este tipo de progresso. Se eu tivesse tido a meta de ganhar dinheiro em minha vida, talvez agora pudesse fazer como a grande mentora cultural de São Chico, dona do espaço nobre daquela cidade, a Livraria Miragem, onde a gente chega e não quer mais ir embora. Onde não se paga entrada mas tem leitura de livros e de histórias. Onde se cuida ao pisar para não descuidar do capricho e do afeto da proprietária.

“Não foi investimento público que ergueu a construção de 2 mil metros quadrados. Foi um sonho que a tornou realidade, o maravilhoso delírio de uma professora aposentada. Nascida e criada nos campos de São Francisco, Luciana Olga Soares, uma mulher de mais de 60 anos, circula pelas prateleiras como qualquer outro dos funcionários, todos esbanjando simpatia e atenção.”( Rosane Tremea, Recortes de Viagem)

Mas aquilo não é uma miragem, é uma realidade palpável, correta, com muita preocupação de preservar com modernidade e equilíbrio. Uma construção de futuro sem desconstrução do passado. Ah! Quem me dera.


Quando eu crescer quero ser que nem ela!

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