Europa

Cultura Crônicas 31 Julho / 2012 Terca-feira por Cassiano Santos Cabral

Eu e a esposa estamos voltando da Europa. Lá, ninguém achava que fôssemos brasileiros, arriscavam que éramos russos, italianos, turcos até... E eu também me surpreendi, pois não vi portugueses bigodudos, nem italianos gordos e, por incrível que pareça, fui bem tratado na França, nada que um merci beaucoup, très joli, au revoir não fizesse a diferença, antes de iniciar uma sofrida conversação em inglês. Salvem as aulas de francês do colégio...

Quantas surpresas durante a viagem. Para começar da janela do quarto do nosso hotel, em Lisboa, se avistavam muitos pés de jacarandás roxos (aqueles da mesma cor da minha rua). Ah... Portugal, com seu sol brilhante, seu rio azul, a poesia de Camões e de Fernando Pessoa no ar, nas casas antigas, no sofrimento do seu povo cantado em fado, entre garfadas de bacalhau. Em terras lusitanas senti que meu sobrenome tinha um significado maior, afinal foi Cabral quem descobriu o Brasil, pelo menos, segundo a história oficial. O bacalhau me lembrou dos almoços da páscoa em família, os pastéis de Belém despertaram uma indescritível sensação de liberdade, a de comer sem maiores culpas. O turista pode (quase) tudo. Portugal, com sua rica cultura, com sua “língua tão estranha para nós”, com seu povo parecido com o nosso... Em Lisboa, eu lembrei do caldo verde, que meu pai faz tão bem, mas também senti falta do bom churrasco gaúcho...

Paris foi uma grande surpresa. Chuva, frio e cerração, em plena primavera. O clima gramadense na Europa. As aulas de história vieram à tona, Revolução Francesa, Napoleão Bonaporte, Robespierre, Luis XV. O passado e o futuro conversando entre pontes e metrôs, praças e grandes edifícios. O sonho e a realidade, no alto da Torre Eiffel, momento brindado com champanhe. Cidade encantada, mesmo com chuva, com muitos turistas, com uma comida absurdamente cara... Paris não se envolve, não dialoga, ela permanece no alto, no topo de sua história, de sua riqueza, de sua glória, cidade luz que nos ilumina com sua graça... Paris dos croissants, dos brioches, do seu maravilhoso vinho, dos árabes e japoneses, pois a cidade veste burca e tem os olhos puxados, sobretudo nas Galerias Lafayette. O velho e o novo, o ocidente e o oriente, no coração da Europa.

Em Brugges, o tempo parece que não passa, sobretudo pela arquitetura medieval. Povo alegre e simpático. Andamos de carruagem e parecíamos personagens de uma história de contos de fada. Em fração de segundos, a infância retornou, mas o tempo não para, já dizia Cazuza. Depois voltamos ao tempo real, pois tomamos cerveja, comemos batata frita, waffles e chocolates. Brugges é uma cidade diferenciada, a dona do hotel nos entregou as chaves e só apareceu o outro dia para preparar o café da manhã. Surpresas do início ao fim, inclusive, pelo número turistas brasileiros, pessoas que falavam português e até a música do Michel Teló nas ruas, com seu conhecido refrão: ai se eu te pego.

Os alemães de fato são alegres e tomam muita cerveja, quase que o tempo todo. Não sei como não morrem de cirrose. A gente se encanta com as ruas floridas e arborizadas e suas rosas multicoloridas com seu maravilhoso perfume. Gramado de novo, Nova Petrópolis, sempre levando o Rio Grande do Sul no coração. Muitas surpresas naquele país, de língua impenetrável, como um passeio de teleférico, na cidade de Colônia. No Parque do Reno havia um árabe passeando com suas três mulheres, que aparentavam contentamento. A minha esposa ficou revoltada com tamanha submissão feminina. Fiquei com vontade de ler o Al Corão e estudar o “Direito de Família” nas arábias, apenas para compreender melhor aquela cultura esquisita. A teoria da relatividade sentida na prática, o mundo cristão e o muçulmano se digladiando, valores como fidelidade recíproca, famílias monogâmicas, liberdade de expressão, véus... Imaginei o tamanho das camas de casal e que o tal sujeito deveria tomar viagra todos os dias por que junto com as mulheres tinham muitos filhos...

O dia dos namorados foi muito esperado. O dia do aniversário de noivado. Uma data especial que remete a um jantar a luz de velas, founde, enfim... Mas resolvi esquecer os programas brasileiros, como lareira, pois, na Alemanha, era primavera... E acabei pedindo uma comida típica: joelho de porco, no Restaurante Fhur, em frente à Catedral de Colonia. Trocamos o romantismo pelo divertimento, o vinho pela cerveja e, ainda, dividimos a mesa com um alemão que estava sozinho. A regra é que não existe exclusividade nas mesas, se tem uma cadeira vazia, qualquer um pode se sentar, o que soa muito estranho. O alemão ficou segurando vela, em sentido figurado.

Em Hildelberg, cidade antiga, universitária, encontramos Daiane e Guerrit, filha e genro de nossa amiga Lisete. O Brasil de volta. Falamos português de novo, estava cansado de só falar em inglês e usar a língua dos gestos. Pessoas acolhedoras, com espírito jovem e aventureiro. Muitas fotografias. Cerveja. Cerveja. Cerveja. Lembrei da minha irmã, que é uma apreciadora da bebida. Ficamos hospedados num hotel retirado da cidade onde colhemos morango do pé, sensação de vida do interior, em plena Alemanha. O mundo se cruzando, o calor tipicamente brasileiro em terras germânicas e o encontro entre novos amigos e do outro lado do mundo. Éramos meio alemães e meio brasileiros, afinal temos também origem alemã: Herter e Gass. Lembrei da minha avó paterna, com seus olhos muito azuis...

Da Alemanha partimos para a Áustria. Salzburgo é realmente um sonho. A terra do Mozart e do filme "A Noviça Rebelde". Musica clássica em toda a parte. A linda cidade vista do alto da fortaleza. E durante o passeio de barco pelo Rio Salzbach avistamos os Alpes, com seu gelo eterno no cume da cadeia de montanhas. Ah... Como é bom ser turista, comer chocolates, experimentar comidas, bebidas e sensações, poder falar italiano, pois em Salzburgo o povo fala e entende. Isto foi bom, pois eu me senti mais em casa, já que italiano é minha segunda língua. Flores. Flores e flores. O Mirabell Garden. Naquele instante, pensei na minha mãe e agradeci a Deus por tanta poesia.

A Áustria é linda com suas eternas valsas, seus compositores, suas flores que enfeitam toda a cidade, com o Rio Danúbio (que de azul não tem nada) e Viena, cidade encantada, com pessoas tomando sol, perto das pontes, utilizando areia artificial, com direito a cadeiras e guarda-sóis, simulando uma praia (quem sabe até no litoral brasileiro). Viena do Palácio de Shonbrunn, da Praça de Strauss, dos palácios e pontes, da Catedral de São Estevão, belíssima. E em Innsbruck, capital do Tirol, subimos de teleférico até o topo dos Alpes onde pegamos na neve que é eterna, uma emoção maravilhosa e única!

Depois finalizamos a viagem com a Itália. Uma emoção voltar ao país depois de tantos anos. O retorno a Casa de Julieta, em Verona. O passeio de gôndola, em Veneza. O Vaticano. A Capela Sistina. Arte, pura arte. Vinho e massas. Sorvete e muitas caminhadas. O reencontro com Milão, sua famosa catedral, o quadrilátero da moda de onde ganhei um perfume de aniversário. A Itália, definitivamente, requer maturidade. E nada melhor do que visitar o país sob uma nova perspectiva, quatorze anos depois, casado e quarentão. Anos se passaram, desde minha última estada em Bolonha, ainda falo bem a língua italiana, embora, às vezes, quando perguntasse em italiano me respondessem em inglês... Lembranças de Casalecchio di Reno, do meu amigo Trentini, já falecido, das aulas de italiano que ministrei em Gramado e Igrejinha, dos meus ex-alunos e do meu amigo italiano, Enrico. A Itália das músicas românticas, de Laura Pausini a Pavarotti passando por Andrea Bocceli. A renovação dos votos de fé. A fé em Deus por poder realizar um passeio tão bonito. A fé na arte e na beleza do mundo, em um tempo que não para mas que pode ser a cada dia melhor, desde que haja boa vontade e uma dose de encantamento guardada na manga.

E voltamos para casa com a bagagem cheia de historias para contar (além de chaveiros), sonhos realizados, caminhos percorridos, entre valsas, flores, joelho de porco, vinho, bacalhau e desprendimento. Muitas fotos, quilos a mais e sensação de independência, sobretudo depois do primeiro trem...







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