Doce de Abóbora

Cultura Contos 28 Maio / 2012 Segunda-feira por Cassiano Santos Cabral

Desconfianças à parte, nunca ficou definitivamente provado que Renan fosse amante de Lucrecia. Ele era um respeitável senhor, pelo menos, na vizinhança. Um homem com fartos bigodes que usava um terno cinza e um chapéu. Renan era o marido de Barbara. Promessa de uma tia velha a Santo Antonio. A sobrinha com quase quarenta anos se casou, vestida de branco, uma virgem senhora de uma tradicional família católica.

Renan era muito simpático com todos da vizinhança. Ele queria ser vereador na cidade. Lucrecia era solteira e gostava de presenteá-lo com doce de abobora em calda. As brigas eram por causa do doce, sempre o doce. Barbara tentava fazer a iguaria semelhante à Lucrecia, mas nunca conseguia acertar no ponto. Pedir a receita a vizinha seria entregar o jogo a inimiga.

A traição nunca ficou provada. Cartas anônimas. Telefonemas bruscamente interrompidos, mas o que tinha de fato entre Renan e Lucrecia eram compotas de doces.

O tempo foi passando e os ciúmes aumentando da parte da esposa. Barbara e Lucrecia disputavam na justiça um palmo a mais no terreno da outra. A causa se eternizava. Enquanto isso, a desconfiança aumentava e o peso de Renan também, até que chegou o dia do divorcio do casal.

As vizinhas continuam brigando. Uma acusava a outra de ladra de marido. As aboboras eram amaldiçoadas e as rosas do jardim de Lucrecia também. Renan não aparecia mais na vizinhança, mas seguramente estava mais magro, sem seu doce favorito...

Lucrécia começava a adoecer. Praga de vizinha. Em um dia ventoso, após uma parada cardíaca, a doceira morreu. A rua ficou mais triste e menos florida. A casa escura, não havia herdeiros. Barbara foi ao velório de sua vizinha. Os vizinhos perplexos com a aparição da divorciada diziam que o objetivo era cuspir no corpo da defunta, outros, um motivo para encontrar Renan. Sim, ele estava no cemitério e o pior é que foi um dos homens que segurou na alça do caixão. Altíssima traição. Imperdoável. Maldita vizinha.

Os anos se passaram e começavam a acontecer coisas estranhas na casa de Barbara...
Certa vez, o piano da sala, misteriosamente, começou a tocar uma musica triste... Não era ninguém. Barbara quando descia os degraus da escada não via nada de anormal, pois a música parava de tocar. O quadro era tétrico, um piano de cauda, numa velha sala, com tapete azul. Mobília dos sogros. Renan achava fino uma pessoa ter um piano em casa, mas nunca aprendeu a tocar uma só nota, para o desespero de sua mãe....

No dia seguinte, Barbara acordou com o corpo arranhado. A noite se eternizava. A insônia se propagava por dias. Não havia chás que dessem jeito, nem mesmo a visita da tia velha, devota de Santo Antonio. Renan era um presente grego, mas fazia falta vê-lo com a camisa engomada e aqueles fartos bigodes. Segurança familiar. Pena que Renan fosse tão guloso e Lucrecia tão prendada...

Os dias se passavam cada vez mais sombrios. A noite era o pior momento. Solidão extrema. Não havia mais ninguém. A chata da vizinha havia morrido. A vida estava um tédio. A ação na justiça fora extinta. Barbara não tinha mais com quem discutir e nem como colocar compostas de doces na cesta do lixo. Ela estava falando sozinha, com as plantas. Era chegada a hora de procurar o psiquiatra, um centro espírita ou comprar um cachorro que lhe fizesse companhia. Um cachorro que não se engraçasse com nenhuma cadela no cio...

Sim, já não era mais possível os arranhões à noite, o som do piano tocando, a cozinha toda bagunçada e, sobretudo um espelho quebrado da sala, depois de uma ventania. O ambiente se tornava cada vez mais pesado e Barbara não sabia mais o que fazer e até uma missa para a vizinha mandou encomendar....

Barbara recebeu em sua casa padres exorcistas, mães de santo e caboclos fumando charutos. Ela comprava pirâmides para energizar a casa, acendia incensos, mas nada parecia melhorar e um forte odor começava a exalar na residência.

Todos procuravam pistas de assombração na casa de Barbara. Água benta e sal grosso. Orações de purificação. Lanternas durante a noite, pois a intenção era descobrir quem era alma penada.... Uma multidão de pessoas se pôs a desvendar o mistério, era o assunto da cidade, dos jornais, a casa mal assombrada...

Depois de alguns meses, numa noite de lua cheia, o mistério foi desvendado e tinha nome: Rebeca. Sim, a gata preta de estimação de Lucrecia, amiga inseparável, que vinha todas as noites sorrateiramente atormentar a vida de Barbara. O ódio pela gata aumentava a cada dia, mas sabia que se a matasse seria pior, pois, no mínimo, sete anos de azar...

O tempo ia passando e o casal se reaproximava aos poucos. Renan e Barbara começavam a sair juntos. Almoçavam um na casa do outro e iam ao cinema, aos domingos. Certo dia, Renan pediu para voltar à residência e a ex-esposa, solitária, acabou aceitando sob a promessa de que ele nunca mais comeria doce de abobora. Dito e feito. Promessa cumprida.

Todos os dias quando Renan chegava a casa, a gata pulava para seu colo. Ela parou de irritar Barbara, mas só quem aparava seu pêlo era Renan. O casal pode dormir a noite em paz, mas quando havia uma discussão, Rebeca caminhava sobre o piano e miava sem parar em noite de sexta-feira, 13...

Pior do que conviver com compostas de doce é ter que dividir uma das pernas do marido e, ainda ter que comprar ração especial a nova hospede da casa, mas era o preço para uma boa noite de sono...Lucrécia, definitivamente, estava mais viva do que nunca...

PS: Este conto faz parte do livro 'Entre Pedras e Sonhos' crônicas e contos de minha autoria, que será publicado em setembro ou outubro deste ano de 2012, com sessão de autografos na Feira do Livro de Porto Alegre e oportunamente em Gramado, cuja capa é da autoria da grande artista plástica e amiga Lisete Heidrich.

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