Os conselhos de Arlete

Cultura Contos 29 Outubro / 2012 Segunda-feira por Cassiano Santos Cabral



Com o passar do tempo- depois da morte do marido-a vida foi ficando sem sentido. Nada parecia acontecer, ao menos, para ela. O mundo mudava para os atores da televisão, cantores famosos, jogadores de futebol e políticos eleitos. Mudanças que não poderia intervir, bastava apenas assistir passivamente o destino dos famosos como quem assiste a uma partida de futebol. A velha tinha bom coração conjugado com um indomável espírito de liderança. Gênio forte. Mandona. Ela queria por que queria ter o poder de ação, de comando na vida dos outros, pois durante o casamento a última palavra sempre fora dela. Ela, definitivamente, estava inconformada com aquela situação.

O três filhos de Arlete, todos casados, nos finais de semana, visitavam-na, levando-a para passear de carro e almoçar em um bom restaurante, mas de segunda a sexta eram os piores dias... A idosa passava sozinha, vendo televisão, navegando na internet, molhando as plantas da casa e discutindo com Maria, a empregada. Entretanto, o que ela mais gostava de fazer era ficar debruçada na janela, olhando para a rua, aproveitando a localização térrea de seu apartamento.

O mundo se passava além da janela, as flores brotavam, carros estacionavam, mudavam os porteiros do prédio, mas o que era mais interessante era reparar na rotina dos vizinhos com quem mantinha uma distante relação, pois era nova moradora.

A vizinha do apartamento 203 era exagerada em tudo. Ela comprava em demasia no supermercado e paparicava muito o cão que só latia, perturbando o sossego de Arlete, mas como a convenção do edifício permitia animais no prédio, não cabia discutir com dona Joana.

Lucas e Inês eram um jovem casal do segundo andar. Eles viviam discutindo, quase que o tempo todo. Eles brigavam por bobagens: a pasta de dente amassada, a toalha molhada em cima da cama, uma musica tocada que o outro não suportava... Um verdadeiro martírio para os ouvidos da anciã.

Brígida também era outra idosa que morava no apartamento do lado. Elas viviam às turras. Uma contando vantagem para a outra, mas quando a solidão apertava as rivalidades eram deixadas de lado, a ponto de assistirem as novelas juntas, dividindo o mesmo sofá, embora discordassem do destino dos personagens.

No ultimo andar morava Gilda, Juíza de Direito, mulher enérgica e autoritária. Apesar disso, ela não conseguia educar adequadamente a filha, Priscila. Divorciada do marido, a meritíssima educava a filha com a autoridade de quem sentencia um processo, mas não conseguia mudar os modos da jovem, tampouco às leis da vida. A moça era rebelde, fumava, vestia-se mal e tinha um namorado cabeludo, barbudo, com aspecto de sujo, apesar de simpático. A juíza detestava o pretenso genro e Arlete também. A velha era mais maleável que a doutora e, aos poucos, foi mudando sua opinião sobre o rapaz, sobretudo depois que caiu da escada do edifício e ele foi prontamente socorrê-la. Arlete passou a reconhecer as qualidades do moço e, em pouco tempo, passou a ser sua conselheira sentimental.

E, por fim Laura e Joel, um jovem casal de namorados que conviviam maritalmente e faziam sexo quase que o tempo todo. Gemidos, ruídos, cadeiras arrastadas. Pareciam animais no cio e o pior era quando eles resolviam namorar, pois (quase) sempre durante a novela...

O tempo ia passando e passando. Arlete ficava na janela, debruçada vendo o tempo passar. A velha começou a puxar assunto com os vizinhos, ganhando-lhes a confiança e simpatia.

Arlete sempre elogiava a cor do cabelo de Dona Joana e suas roupas. Elas passaram a dividir a mesma cabeleleira e a conta do taxi até o salão de beleza, pois era mais barato. Brígida (a chata moradora do lado), às vezes, acompanhava as vizinhas, pois não podia ficar para trás. A conversa girava em torno de compras de supermercado, ofertas e promoções e sempre sobre cães. Bob era o alvo principal da conversa das idosas. Um belo dia, convencida por Arlete, dona Joana acabou dando o cão de presente para o filho André, veterinário, que morava numa casa com amplo pátio onde o animal teria mais espaço. O elo entre Joana e Bob nunca se quebrou, pois o filho morava há duas quadras da casa da mãe. Arlete, com peso na consciência, deu uma tartaruga de presente para a vizinha.

Lucas e Inês também passaram a conversar mais com Arlete, no principio sobre o tempo, mas depois que a velha soube que Lucas era geriatra e atendia pela Unimed passou a ser a sua paciente número um. Bastava uma simples dor nas juntas para que Arlete estivesse no consultório do doutor ou na sua casa. Arlete aconselhava Lucas a tratar melhor a esposa, com mais paciência, convidando-a para passear mais seguido e, de vez em quando, a moça deveria ser surpreendida com flores. Orquídeas, de preferência. Rosas eram flores muito óbvias e comuns. Em contrapartida, Arlete também ensinou Inês a preparar alguns pratos especiais para o médico, dando-lhe dicas de como manter o casamento, com autoridade de quem foi casada durante cinqüenta anos. Bodas de ouro são bodas de ouro e isso ninguém contesta. A velha sabia das coisas. O casal, aos poucos, se harmonizava. A moça engravidou e deu a luz a uma bela menina chamada Mirela.

Gilda, a Juíza de Direito, sem duvida, seria o grande desafio. Mulher dura e impenetrável. Osso duro de roer. Senhora de si, pelo menos essa era a aparência que passava para os condôminos.

Uma vez Gilda chegou chorando no prédio. Logo Arlete interessou-se pelo problema. A Juíza não deu muita conversa, mas não conteve a emoção e começou a chorar convulsivamente, entre soluços e palavras murmuradas. O problema é que a filha da magistrada havia saído de casa, brigada com a mãe e foi morar com o namorado. Arlete passou a ser conselheira da juíza, decidindo, inclusive, sobre o destino dos réus da doutora, que passaram a ter penas mais leves. A velha não podia competir com o conhecimento jurídico da Juíza, mas em compensação, em experiência de vida, estava muitos anos na frente. A amizade se solidificava cada vez mais. Arlete, com seus bons conselhos, foi a responsável para que Priscila voltasse a morar com a mãe, parasse de fumar e até convenceu a moça a estudar francês. A habilidosa senhora conseguiu que Alan (o namorado) cortasse o cabelo, fizesse a barba diariamente, arrumasse um bom emprego, conquistando cada vez mais a confiança da sogra.

Boa parte dos problemas estavam resolvidos. Bingo. Faltava apenas Laura e Joel, o casal que praticava sexo na hora da novela. Como ela poderia intervir no relacionamento intimo do casal para que pudesse assistir à novela? Uma boa pergunta, sem resposta. Nada que uma quase octogenária não pudesse resolver, faltava-lhe apenas uma boa oportunidade. Esta era a palavra da vez e que os anjos dissessem amém.

Certo dia, Laura e Joel tiveram uma seria discussão no corredor. A moça estava visivelmente alterada e Joel sem paciência. Dinheiro curto. Final do mês. Afinal, os casais passam mais tempo conversando do que fazendo amor, então o dialogo entre eles era fundamental e estava cada vez mais escasso.

Aproveitando a chance de ouro Arlete foi até o apartamento de Laura levando nas mãos um pão fresquinho feito em casa e uma imagem da santa. Agradecida, a moça precisava desabafar e acabou contando seus problemas pessoais para a anciã, durante muitas tardes, entre cafés e filmes e no caminho entre a casa e a igreja (missa das seis). Laura trabalhava como professora todas as manhãs e duas vezes, à noite, assim, dispunha livremente de suas tardes. A troca foi justa: Laura economizava em psicólogo e Arlete poderia meter a colher na vida do casal, embora não desconhecesse o ditado*

A velha aconselhou a moça para conversar mais com o companheiro. Eles deviam fazer planos de vida juntos. Ler jornais e um bom livro. Discutir política internacional, entre um gole e outro de chimarrão. A moça deveria se arrumar melhor, pintar as unhas, pelo menos, duas vezes por semana, usar mais maquiagem e, sobretudo valorizar-se mais como mulher. Laura deveria transar apenas nos finais de semana com Joel, fazendo ‘jogo duro’, com isso teria mais controle sobre a situação. A velha conseguiu convencer a moça que essa era a melhor tática para que ela realizasse seu maior sonho: o casamento na igreja e com o sermão do Padre Jorge. A novela também estava garantida, pois Arlete (de tão esperta que era) começou a contar a história da trama para a vizinha, despertando-lhe o interesse. O prédio todo, por recomendação de Arlete, passou a assistir à novela das nove. Em poucos meses, a moça estava casada, com o aval da família, dos vizinhos e, sobretudo de Arlete, uma das madrinhas da noiva.

A velha passou a discutir menos com Maria, a empregada. Ela aprendeu a fazer as comidas que Arlete gostava, sabia dosar no tempero, tinha paciência quando a idosa se queixava do reumatismo, das fortes enxaquecas e de saudades do falecido. As duas ouviam radio juntas, falavam mal do governo, reclamavam da chuva e do preço do tomate, entre a louça suja da pia e os vapores do almoço em cozimento.

Com a outra velha não tinha mesmo jeito. Impossível concordar sempre com as idéias de Brígida. As duas continuaram sempre discutindo por bobagens. No fundo eram boas amigas, confidentes, falavam de filhos, de quando eram moças, de bailes de muitas décadas atrás, de filmes que haviam assistido. E quando o assunto terminava, elas voltavam a rever sempre os mesmos álbuns de fotografia da família, para o desespero da empregada.

Arlete tornava-se mais e mais popular no prédio. Era amiga e conselheira de todos. As vizinhas iam à casa da velha para que ela opinasse sobre a roupa, sapatos ou a cor do batom. Todos batiam na porta de Arlete quando precisavam de um conselho amigo, de uma receita de bolo, uma sugestão para presente e até qual a melhor pena a ser aplicada ao réu.

A popularidade de Arlete foi tanta que foi eleita por unanimidade a nova sindica do prédio. Prestigio absoluto. A melhor sindica de todos os tempos, pois ela sabia das necessidades dos moradores e procurava, na medida do possível, prove-las nas reuniões de condomínio, dando-lhes sempre seu ombro amigo. Na páscoa, aniversário e natal Arlete ganhava muitos presentes da vizinhança, despertando a inveja de Brígida, com quem dividia caixas e mais caixas de bombons. A família de Arlete aumentava, pois seus filhos lhe deram mais netos, embora as noras fossem outras. Os problemas da velha foram parcialmente resolvidos.

A vida tornava-se tranqüila, embora a solidão fosse permanente. Um dia o pai da juíza- um senhor viúvo- foi morar na casa da filha e para surpresa de Arlete, tratava-se de Candido, seu ex- namorado. O namoro findara por causa do finado coronel. Passados mais de sessenta anos os dois recomeçaram a namorar- cada um em sua casa- palpitando sobre a vida dos vizinhos, enquanto jogavam cartas. Arlete não se esqueceu da receita do pudim de leite (o doce favorito do velho) e nem ele do perfume de alfazema da velha moça. Eles sempre iam ao cemitério visitar seus cônjuges, conversando sobre os filhos, netos, futebol e remédios, segurando bengalas e flores.


* em briga de marido e mulher ninguém mete a colher.



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