Geografia dos Abraços

Cultura Notícias 29 Maio / 2014 Quinta-feira por Gramadosite

Pretendo, neste texto, refletir de que forma o cotidiano se imiscui na criação poética e como certos projetos transformam este mesmo cotidiano. Trato aqui cotidiano no sentido mais trivial, do indivíduo no dia a dia da sociedade, vivendo fatos que à primeira vista parecem insignificantes, mas que repercutem naquilo que se conhece da vida social.

A busca dessas relações, por outro lado, parece dar algumas respostas a perguntas do tipo por que se escreve, de onde vêm as ideias de um poema, e qual o significado dessa luta corporal com as palavras. Não, neste texto, você não encontrará uma teoria bem delineada, com um andamento condizente com objetivos definidos. Trata-se mais de uma conversa sobre um processo de criação, mais voltado para o singular do que para o geral.

Começo com três situações particulares, envolvendo o mesmo personagem, ou seja, quem escreve.

Primeira situação – Em dezembro do ano passado, ainda no Brasil, li uma reportagem sobre a desova das tartarugas da Amazônia às margens do Rio Negro. Tratava da eclosão dos ovos, o percurso dos filhotes até a água, sozinhos, uma vez que suas mães já se encontravam em outras paragens. Dormi naquela noite com milhares de filhotes avançando para as águas do rio, sob os olhares impiedosos das harpias, dos urubus, das cotias, dos jacarés e de outros animais de presa.

Segunda situação – Dois meses depois, passei três semanas em Bali, na Indonésia, na casa do filho de minha mulher, Aloísio. Ele e Luciene têm uma filha, Índia, de três anos, e Kieran, com menos de um. Fui um dia com as crianças ao zoológico de Bali, me lembrando, na ida, que um dos símbolos de Bali é Garuda, o pássaro fabuloso que na literatura indiana é o meio de transporte de Vishnu, o deus responsável pela manutenção do universo. Voltei à Itália e, mês e meio depois, segui para Londres, a fim de visitar minha filha e meu filho. Tinha ainda vivo na memória o nascimento de Lucas, filho da Lívia, há menos de sete meses, em um parto difícil. Na volta à Itália, organizei e arquivei na memória os arquivos de Lucas, Kieran e Índia.

Terceira situação – Pouco depois, em março, comecei a planejar uma viagem até o Irã, em setembro ou outubro deste ano. Abri então a Amazon de Milão e encomendei livros sobre política e literatura daquele país. Entre os livros que recebi, fiquei encantado com A Conferência dos Pássaros, de Farid Attar (1140-1220), que tem uma poesia mística islâmica belíssima. Nesse livro, ele trata da jornada dos pássaros na busca de seu rei, o fabuloso pássaro Simorghi. Cheguei a pensar: o que dizer de uma “conferência” de pássaros na floresta, para discutir a jornada em busca das nascentes do rio Amazonas? Como seria essa jornada? O que diria o gavião para os outros pássaros? E o uirapuru? E o maçarico? E o beija-flor? Arquivei essas perguntas sem obter uma resposta.

Acho que os pesadelos noturnos chacoalharam meus arquivos durante a noite, mesclando-se imagens, misturando-se pássaros e cores, amalgamando emoções e palavras. A verdade é que os pássaros da Amazônia estavam agora voando para a conferência dos pássaros no Irã, onde aconteceria a desova. Lá os guardiões os esperavam e seus nomes eram Lucas, Kieran e Índia. Preocupado, decidi pensar em outra coisa: o imposto de renda italiano. Mesmo assim, no Café da praça onde moro, em San Vito al Tagliamento, rabisquei em um pedaço de papel:

O vento refez os cálculos
Ponto por ponto
E no fim concedeu desconto
De graça, seis garças
E a areia branca.

A harpia que no ar planava…

Almocei imaginando que as tartarugas, pelos olhos das harpias e dos urubus, eram luas desgarradas, com mapas nos cascos. Nessa mistura de arquivos, de repente saltou um caracol, surfando em uma folha de laranjeira. Putz, pensei, isso é Bali, e o que esse caracol está fazendo aqui?

Nos outros dias, tanto no Café de San Vito quanto em casa, escrevi sobre o caracol, um pouco mais sobre as luas desgarradas, mas também sobre uma menina de sete anos chamada Bia.

Acho que o interesse por Bia veio de um livro de poesia que tinha lido há muito tempo e que falava de uma Sabrina. Era como se o narrador conversasse com ela sobre a necessidade de falar o que sentia, já que Sabrina era pequena demais para entender o que acontecia ao seu redor. Nunca mais encontrei esse livro. Nem o poema.

A essa altura, tinha acabado de ler A Conferência dos Pássaros e já estava numa coletânea de poemas de Rumi, publicado pela Penguin Classics. Ora, Rumi é da mesma época que Farid Attar, século XII. Os dois, de certa forma, criaram a irmandade dos dervixes, esses místicos mendicantes afogados no oceano de Deus. Em um poema sobre as discussões de um homem e de uma mulher, Rumi dá a palavra ao homem:

Você é como uma criança que roda e roda,
E pensa no fim que a casa está rodando.

De vingança, escrevi algo sobre Bia, que desejava fazer girar o mundo:

No fim paro de rodar, perdi a conta,
Acredita que acabei ficando tonta?

Escrevi naquele dia até sentir ardência nos olhos. Depois fui fazer as malas porque tinha de pegar o avião. Entre uma camisa e uma calça, entre uma meia e uma escova de dentes, achei muito caótico o que eu estava escrevendo. Precisava organizar melhor minhas coisas.

No avião, voltando para o Brasil, li o relato de uma entrevista feita por Knud Rasmussen (1879-1933) com um membro da etnia Inuit chamado Naukatjik, há quase 100 anos. Como se sabe, Rasmussen foi o notável explorador dinamarquês cujas viagens ajudaram na posse da Groelândia pela Dinamarca. Eu já tinha lido muitos cantos inuits que ele havia traduzido para o inglês, mas era a primeira vez que me chegava esse relato da alma humana que tinha vivido no corpo de todos os bichos.

E ali estava Rasmussen, portanto, no mesmo avião que eu, contando-me sobre Naukatjik e sobre sua crença a respeito deste tipo de alma humana. Segundo ele, uma mulher sofreu um aborto e, para não parecer impura aos olhos da comunidade, jogou o embrião fora. Esse embrião foi comido por uma cadela. Dessa cadela nasce mais tarde um filhote, mas a alma dentro dele não se sente à vontade, pois nunca tinha habitado a pele de um cão. O filhote também não se dá bem com a alma, pois não disputa comida com os outros cães e sempre sai perdendo. Magro, bem magro, encontra a mulher, que lhe diz: “você tem de lutar por seu lugar entre os outros cães, senão morre de fome”. O filhote, agora crescido, retorna ao bando, mas acaba sempre machucado. Finalmente a alma se cansa de ser cachorro e se muda para o corpo de uma foca. Passa mais tarde para um lobo, um caribu, e assim por diante, até que um dia é aprisionada novamente como foca pela mulher que havia sido sua primeira mãe. A mulher não se dá conta de quem se trata, vai cortá-la, mas a alma reage e entra no corpo da mulher, renascendo mais tarde como um humano.

No fim ela deu à luz um menino muito bonito, de corpo bem formado, mas que ao tentar falar, tudo o que conseguiu dizer foi “uha, uha”.

Só então me dei conta de que era essa alma que eu procurava para operar o poema das tartarugas. Até então, eu falava nas luas desgarradas abrindo covas na areia. A harpia, o jacaré ou a coruja também tinham voz, discutindo a condição de luas tão estranhas, já que desde o início achei que um narrador neutro, fora da cena, distanciaria o poema narrativo do leitor. Na minha ideia sobre o poema, no fim, quando os ovos eclodissem e os filhotes de tartarugas se dirigissem ao rio, teria de existir alguém para defendê-los. Um guardião de tartarugas. Então, pensei, bem que essa alma, depois de passar por onça, jaguatirica, capivara, montanha, morcego, poderia fazer esse papel. Levei adiante esse plano, explorando a estada da alma no corpo de cada bicho:

Aí acordei morcego e me esbaldei.

Ajustei minhas antenas e toinn, toinnn jogava o som nos objetos
Toin, toin e me localizava, toin.

Viajei bastante. Subi e desci o rio em rasante,
Frequentei cavernas e pus banca: sou espeleólogo.

Os outros morcegos riam, riam, e pediam que eu lhes contasse
O que via nas entranhas da terra, os veios de ouro, de prata,
As cavernas subterrâneas e os inexplorados silêncios.

Finalmente, depois de ter voado do Rio Negro a Belém, essa alma se humaniza e se transforma em guardião das tartarugas de água doce e… e, bem, o avião já estava chegando a São Paulo.

Tinha dado o nome de Geografia dos Abraços aos poemas que vinha criando. Já tinha 113 deles. Precisava, como disse, sistematizá-los. Então retirei do conjunto os que tinham a ver com Bia. Eram 25. Escolhi o título O Mundo de Bia. Durou alguns minutos. Me dei conta de que já existia um livro com o título O Mundo de Sofia. Optei então por O Livro de Bia.

Os outros poemas, sem unidade aparente, dividi-os por temas e mantive o título Geografia dos Abraços. Também durou pouco. Acontece que retomando O Livro de Bia, mudei o título para ABC dos Abraços. Como consequência, o título Geografia dos Abraços se perdeu. E eu tinha ainda de resolver o título da alma de todos os bichos e a desova das tartarugas. Ficaria para mais tarde, quando, talvez, esperando uma súbita iluminação, conseguisse resolver o problema.

A história da desova das tartarugas, ainda sem título, prosseguia agora em contraponto. De um lado, as aventuras da alma no corpo de todos os bichos; do outro, a chegada das luas para desovar às margens do Rio Negro. Intitulei, com pesar, Pedaço de Coisa, até achar título melhor. Tinha agora uns 40 poemas. Mas havia um problema. Era para crianças, e a parte do “embrião” me incomodava. Havia a palavra aborto. Um cachorro iria comer “pedaço de coisa”, como estava na entrevista de Rasmussen, mas isso podia chocar a sensibilidade de uma criança pequena. Aborto é uma palavra forte. Teria de estudar um jeito de fazê-lo com outras palavras. Normalmente não faço concessões ao público infantil, quando escrevo, mas como pai que fui e sou, estou sempre atento.

Estava cada vez mais feliz com Bia, que em ABC de Abraços abria seu caminho sozinha. Não precisava me preocupar. Ela prosseguia falando de seu mundo ou ouvia o que outro narrador indefinido falava com ela, sobre a noite, o medo, as perdas, a morte, o tempo cíclico, a vida em família, o amor, a escola. Um exemplo? Quando uma amiga muda-se de cidade, e Bia olha pela janela, avista uma nuvem de andorinhas:

Achavam que eu também
Estivesse partindo,
Como se eu fosse uma delas,
Uma andorinha.

Resta o conjunto inicial, com 106 poemas, sem título, já que Geografia dos Abraços se perdeu. Vai me dar trabalho. Até porque suspendi tudo, pois entrei em uma ciranda de revisões e de releituras de dois livros que estão por sair pela Record. O primeiro deles, O Rapaz do Metrô, poemas para jovens em oito chacinas ou capítulos. Trata da matança de jovens negros de periferia de São Paulo pela Polícia Militar. São cerca de 80 poemas do aprendiz de manutenção de freios que vive o medo de ser executado por policiais militares por saber demais. O segundo é um romance intitulado Viagem à Calábria. Estava pronto há mais de cinco anos. Retive-o, durante este tempo todo. Foi o livro em que mais trabalhei e também aquele que mais me emocionou.

Viagem à Calábria trata da infância de um personagem em Minas e a invasão do espaço urbano sobre o cerrado e do cerrado sobre a cidade durante a construção de um gigantesco pássaro no planalto central, com uma asa norte e uma asa sul. Como contraponto temporal, o mesmo narrador, 50 anos depois, tenta compreender a grande complicação que é a memória e seus limites, pois, como ele mesmo diz, a morte não me incomoda, o que me incomoda é a vida:

“Estou aqui na Itália, agora, para cumprir uma promessa que nunca fiz. Nunca fiz, mas agora cumpro. A de meu pai ver a Itália com os meus olhos. Não promessa lacrimosa, de matriz melodramática. Não, isso, não. Mas o que posso fazer? De vez em quando a realidade segue esse caminho. Muitos e muitos anos atrás, meu pai me pediu dinheiro para ver a Itália antes de morrer. Eu não tinha. Melhor, não tinha o suficiente para emprestar. E só agora venho à terra que ele tanto queria ver e lhe empresto meus olhos. Com eles, verá a terra que tanto amava.”

O primeiro livro, O Rapaz do Metrô, está pronto e vai para as livrarias dentro de umas duas semanas. O segundo demora um pouco mais, passa pela última prova.

Acho que é isso!

Ah, não, espera! Relia um livro de poesia alemã quando encontrei poema popular que era a cara de Bia. O título, no original, é “Das hölzerne Männlein”. Passei-o para o português e, com algumas adaptações, ficou assim:

O Boneco de Madeira da Bia

Este é o boneco de madeira da Bia.

Esta é a casa do boneco de madeira da Bia.

Esta é a porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Esta é a fechadura da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Essa é a chave da fechadura da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Esta é a fita da chave da fechadura da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Este é o rato que roeu
a fita da chave da fechadura da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Este é o gato que comeu
o rato que roeu
a fita da chave da fechadura da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Este é o cão que mordeu
o gato que comeu
o rato que roeu
a fita da chave da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Este é o porrete que surrou
o cão que mordeu
o gato que comeu
o rato que roeu
a fita da chave da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Este é o fogo que queimou
o porrete que surrou
o cão que mordeu
o gato que comeu
o rato que roeu
a fita da chave da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Esta é a água que apagou
o fogo que queimou
o porrete que surrou
o cão que mordeu
o gato que comeu
o rato que roeu
a fita da chave da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Este é o boi que bebeu
a água que apagou
o fogo que queimou
o porrete que surrou
o cão que mordeu
o gato que comeu
o rato que roeu
a fita da chave da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Este é o açougueiro que abateu
o boi que bebeu
a água que apagou
o fogo que queimou
o porrete que surrou
o cão que mordeu
o gato que comeu
o rato que roeu
a fita da chave
da porta da casa
do boneco de madeira da Bia.

Viagem à Calábria trata da infância de um personagem em Minas e a invasão do espaço urbano sobre o cerrado e do cerrado sobre a cidade durante a construção de um gigantesco pássaro no planalto central, com uma asa norte e uma asa sul. Como contraponto temporal, o mesmo narrador, 50 anos depois, tenta compreender a grande complicação que é a memória e seus limites, pois, como ele mesmo diz, a morte não me incomoda, o que me incomoda é a vida:

“Estou aqui na Itália, agora, para cumprir uma promessa que nunca fiz. Nunca fiz, mas agora cumpro. A de meu pai ver a Itália com os meus olhos. Não promessa lacrimosa, de matriz melodramática. Não, isso, não. Mas o que posso fazer? De vez em quando a realidade segue esse caminho. Muitos e muitos anos atrás, meu pai me pediu dinheiro para ver a Itália antes de morrer. Eu não tinha. Melhor, não tinha o suficiente para emprestar. E só agora venho à terra que ele tanto queria ver e lhe empresto meus olhos. Com eles, verá a terra que tanto amava.”

O primeiro livro, O Rapaz do Metrô, está pronto e vai para as livrarias dentro de umas duas semanas. O segundo demora um pouco mais, passa pela última prova.

Acho que é isso!

Ah, não, espera! Relia um livro de poesia alemã quando encontrei poema popular que era a cara de Bia. O título, no original, é “Das hölzerne Männlein”. Passei-o para o português e, com algumas adaptações, ficou assim:

O Boneco de Madeira da Bia

Este é o boneco de madeira da Bia.

Esta é a casa do boneco de madeira da Bia.

Esta é a porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Esta é a fechadura da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Essa é a chave da fechadura da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Esta é a fita da chave da fechadura da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Este é o rato que roeu
a fita da chave da fechadura da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Este é o gato que comeu
o rato que roeu
a fita da chave da fechadura da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Este é o cão que mordeu
o gato que comeu
o rato que roeu
a fita da chave da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Este é o porrete que surrou
o cão que mordeu
o gato que comeu
o rato que roeu
a fita da chave da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Este é o fogo que queimou
o porrete que surrou
o cão que mordeu
o gato que comeu
o rato que roeu
a fita da chave da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Esta é a água que apagou
o fogo que queimou
o porrete que surrou
o cão que mordeu
o gato que comeu
o rato que roeu
a fita da chave da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Este é o boi que bebeu
a água que apagou
o fogo que queimou
o porrete que surrou
o cão que mordeu
o gato que comeu
o rato que roeu
a fita da chave da porta da casa do boneco de madeira da Bia.

Este é o açougueiro que abateu
o boi que bebeu
a água que apagou
o fogo que queimou
o porrete que surrou
o cão que mordeu
o gato que comeu
o rato que roeu
a fita da chave
da porta da casa
do boneco de madeira da Bia.

Agora, sim, é isso.

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