No pólo sul do Brasil

Esportes Artigos 02 Agosto / 2012 Quinta-feira por Gustavo De Marchi

O frio seco, não incomoda tanto, não dói na alma e não “rangueia cusco”, não que seja gostoso; já o nosso, do tipo úmido, transmite uma sensação de muitos graus a menos do que registram os termômetros. É essa impressão refrescante que nos arrebenta. Aliás, já diz um ditado, “só têm duas coisas que derrubam um gaúcho: bala no peito e vento nas costas!”. O “frio mentolado” tem subdivisões, de acordo com a quantidade de frio e de umidade. Por exemplo, um tipo muito severo é o “frio molhado” de São José dos Ausentes, um caso extremado: muito frio e muito úmido. Frio de enforcar banho, se bem que não foi o que houve no causo que irei contar.

Estávamos pescando em Ausentes na madrugada mais fria do inverno. Chegamos de manhazinha. O sol levantando e nós vestindo os macacões para entrar no rio. Estava tão gelado que nem as trutas mordiam as moscas. Saia uma fumaça da superfície da água. Nem lambari pulava. Isso foi até quase o meio-dia. As trevas em forma de gelo. Só quando o sol esquentou, começamos a pegar as trutas, poucas, é verdade, mas lutadoras, nos poços mais profundos, com muita insistência e moscas lastreadas e chamativas.

Durante a tarde, a temperatura começou a cair vertiginosamente e, pelas tantas, já estava em zero. O problema é que a vontade de pescar era muita e o peixe pouco. Quando o sol se pôs, estávamos ainda pescando no rio, contrariando todas as regras de segurança, tentando pegar a “saideira”. O frio era absurdo. Os dedos endurecidos recebiam a água que vinha com a linha, sem percepção de tato, e pescávamos por instinto, sem energia, operando com baterias auxiliares. No lusco-fusco comecei a chamar os amigos. Hora de sair do rio, voltar para a pousada. No dia seguinte as trutas iriam sofrer o pênalti. Era perigoso permanecermos na água àquela hora.

Mas quem, qual boca aberta, que tropicou em uma pedra mais alta, invisível ao anoitecer? Eu. Foi um tombo feio. Mais feio que tombo com as mãos no bolso. Pitava, distraído, tentando chegar aos companheiros. Caí para frente, bati com a cabeça em uma pedra no fundo, acho que engoli o pitoco do cigarro junto com a água. E o rio me levou um tanto. Muitas pedras. Bati a canela, ombro, boca, e outras coisas que os roxos foram revelando depois. Do jeito que atingi o fundo, subi e tentei ficar de pé. Tamanho o medo que o rio me levasse para sempre. Uma morte horrível. Não foi meu caso. Nada ficou seco.

E o frio? Milhões de agulhas de gelo perfurando a pele. Era possível perceber cada célula sentindo frio. Recuperado do susto e calculando as avarias no sistema, tomei um golão de uísque que o companheiro alcançou. Desceu com suavidade anestésica. Reanimou. Hipotermia. Pneumonia. Precisava me esquentar. Marchar. Tinha pouco tempo e alguma água nos pulmões. O trote até o fogão a lenha era longo e penoso. Saindo do rio e do mato, ganhamos o campo e sentimos o vento contra. Eu pensava em uma roupa seca, em deitar em baixo do fogão, em tomar uma guampa de canha, em me enrolar em todos edredons de pena de ganso do universo. Mas, pensamentos não esquentam. Chegando à varanda do Chico, que nos hospedava, o choque final: o termômetro marcava menos sete graus centígrados. Eu não conseguia sentir aquilo? Eu não sentia nada! O frio mentolado é típico aqui no Pólo Sul do Brasil. O que mais lamentei foi não ter conseguido enforcar o banho, como havia planejado.

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