Extremo

Esportes Artigos 28 Junho / 2012 Quinta-feira por Gustavo De Marchi

Após um sono tumultuado no Radio Farol de Rio Grande, o grupo de 10 andarilhos iniciou a caminhada. 230 quilômetros a serem percorridos em oito dias, pela maior praia do mundo, no inverno. Entre eles uma garota, a Carol. Um grande trajeto a pé, no inverno, contra o vento Sul. Pelo que consta nunca uma mulher fez esta caminhada, mas a Carol, nem pensou que seria a primeira garota a fazer isto. O grupo se pôs em marchar contra um vento feroz e uma chuva fina e chata. É o mal-assombrado espírito de aventura que faz destas coisas. Quando a pessoa está possuída, larga tudo e se manda por aí a campear mundo.

Dorflex. Este era o meu almoço, disse a Carol. As dores eram insuportáveis, os pés estavam acabados. Parar era pior, o melhor era continuar e terminar com aquilo de uma vez. Relembro em flashes nossa conversa, que passou voando e terminou com uma pergunta. Sair da zona de conforto, de forma absoluta, é algo interessante e permite perscrutar um pouco do nosso lado animal. Afundando na areia com uma mochila pesando 20 kg, o vento parecia impedir a passagem. A cargueira estava lotada, estofada com um pequeno universo útil e uma muda de roupa sobressalente. Usou tudo que levou, menos uma capa de chuva extra, o anorak segurou a onda. As botas foram o Waterloo. Todos de tênis, e os pés da Carol sendo massacrados pelas botas de confiança. O pior de tudo é a paisagem que não muda. Passa dia, passa noite, o clima muda, a paisagem é a mesma. É a fronteira da razão. Ausência de lógica. Tudo branco. Deve ser algo como estar preso dentro de um cenário sem fim, por 192 horas. Um labirinto linear. Tudo igual, mar de um lado, areia do outro. Das cinco da manhã até entardecer. Janta, dorme, acorda, café da manhã, caminha, janta, dorme, acorda... Caminha, caminha, caminha, mar, areia, vento, areia, chuva, areia, e o mar sempre ali infinitamente ali. Às vezes, interrompido por um pingüim cansado, como aquela trupe de andarilhos na praia, ou por uma baleia franca, migrando em sua rota, assim como eles, perseguindo um objetivo. Aqueles vultos em meio ao mau tempo, aquela procissão que andava em fila indiana para proteger-se do vento de até 90 quilômetros por hora. Ora, se agachando para suportar melhor o peso de suas cruzes, em forma de mochilas; ora, errando o passo em uma cruzada de talvegue, pisando sobre o limiar da razão.

Compraram massa em quantias industriais antes de partir. Pés gigantes. Bolhas. Esparadrapos. Café da manhã reforçado, depois apenas a janta. Durante o dia, têm barras de cereal. Fogareiro. Água da chuva de vez em quando. A incrível história do ovelha, quem disse que ovelha não é pra mato?; a ovelha negra do grupo. Pé, areia e dor. Desistência. O Spot de localização foi um diferencial, permitiu aos amigos acompanharem real time o desenvolvimento do trajeto. Chuva. Ventorréia. Chuva de novo. Neblina. Sol, apenas no final. Os cachorros. Andarilhos sempre vão reunindo cachorros pelo caminho e este grupo parece ter sido privilegiado pela companhia do melhor amigo do homem, no caso, amiga, a cadela Priscila que acompanhou a jornada por 160 km. Na Marinha alertaram sobre bandidos foragidos na região. Sobre as dunas, duas figuras levaram o medo ao grupo. Olhar inimigo. Durante aquela noite, um veículo com lanterna rondou atrás deles. Passado o susto, era um casal que soube da expedição e queria ajudar de alguma maneira. Mão amiga. O “Pastor” acolhendo em meio ao nada. A Marinha auxiliando. A fartura na pesca. Hipoglós. Assaduras. Banho, só no Farol do Albardão, com direito a hospedagem e camas. Concheiro, 53 km de conchas, difícil de caminhar. Câmera secando em frente ao fogo. A janta era um momento muito bom, uma trégua aos momentos de desespero. Ou vai ou racha. No Hermenegildo um mercadinho: a Disneylândia para os famérridos: comeram como se fosse a última vez, ou a primeira. O último dia. Apenas 12 km. A barra do Chui, o fim do Brasil. O fim. Parabéns pela conquista!
E a Carol me pergunta, tu ainda queres ir sozinho? É justamente o que procuro Carol, este silêncio aterrorizante, narcotizante, psicotrópico, este ruído infernal da mente, o chiado da alma, do qual nunca poderemos escapar e que ouvimos apenas na mais profunda solidão.

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