O dilúvio dos Juca

Esportes Artigos 09 Abril / 2012 Segunda-feira por Gustavo De Marchi

O Nelsinho crescia ali, jogando bola com moranga e fugindo do cabo da enxada como o diabo da cruz. Corria até a casa da irmã e perguntava ao cunhado Caolho Antônio, se podia ficar “cuidando das galinhas”. Caolho Antônio, homem lento e burro, deixava e agradecia. Era o mesmo que dá-las às raposas. Sempre morria alguém, no time das galinhas.

Nelsinho adorava mesmo as galinhas. Aquelas aves que não voavam eram um enigma para ele, que tinha um espírito curioso como o fogo. Deduziu que serviam para caminhar, ciscar e correr. Coisas que se faz com as patas. Destas, correr era a melhor coisa que uma galinha sabia fazer, então, a título esportivo, amarrava tampinhas, latas, tocos e pedras aos pés das galinhas e quando estavam distraídas dava um “sustão” nelas. A disparada era o grande evento, a “polvadeira” no ar. O barulho dos objetos amarrados nas patas, correndo atrás das galinhas, as perseguindo, impulsionava o bando na correria desatinada. Galinhas de corrida, as que não morriam, se aperfeiçoavam.

As experiências com as galinhas tomavam algum tempo, distraiam bem, só que não era tão divertido como pescar. Vivendo entre o mar e o rio, pescar era muito melhor que qualquer outra coisa que se pudesse fazer com aquela idade. Pescava bem, tinha pacto com os peixes, o pequeno Nelson. Entrava a noite pescando. Na época que começou ir à aula, simplesmente olhar para o céu azul era o suficiente para sua imaginação de guri sair da salinha de madeira pelas janelas quadriculadas. Em segundos estava pescando. Voava com a imaginação. Só queria pescar. E houve o dia que, para não ser interrompido pela professora, deixou a imaginação ir para aula e levou o corpo para ir pescar.

A família ia com as finanças arruinadas. Produziam um pouco de cada, mas bem pouco, e vendiam na vila. No verão melhorava, havia veranistas; já no inverno era uma desgraça sem tamanho. Houve um ano, que a miséria entrou em casa por mão amiga. Era um seis de janeiro e não havia parado de chover desde três semanas antes. Entre o mar e o rio, todos os caminhos foram sepultados sob uma pasta de areia e lama. Não havia comunicação terrestre com as cidades vizinhas, tampouco com a capital. Ninguém veio passar o Natal, o Ano Novo, ou veranear na vila do mar. A produção apodrecia no pé. Os animais foram acolhidos pela numerosa família dentro de casa, mais precisamente, na mesa. Sobraram no quintal algumas galinhas e um porco que chafurdava feliz naquela lama toda.

Naquela noite escura de janeiro, chovendo diluvianamente, batem a porta.

Era o vizindário cantando um Terno de Reis. Na tradição, muito forte no litoral, recebe-se o grupo que entoa canções, no dia de louvação aos Reis Magos, com uma grande festa. Bebida e comida em profusão é a lei. Babico era um homem centrado, mas, sem fibra nenhuma, nitidamente comandado pela mulher, vivia resmungando atrás dela. A mulher era a matriarca, com pingos de um sangue alemão explosivo em sua composição genética. Nitroglicerina pura. Babico ao ver o bando afrouxou as pernas, resmungou mais alto com a mulher; umas poucas galinhas, um porco, alguma mandioca, farelo de milho e cachaça era a provisão para o inverno. A mulher, enfurecida com a desfeita ao Terno que propunha o marido, compreendeu que aquilo era como negar comida aos próprios Reis Magos e bradou a célebre frase “Sangue de Juca, não negarás!”. Mandou um filho matar um porco, as galinhas, servir a cachaça, esvaziar as latas e foi um festão e todos cantaram Terno e um milagre parecia acontecer: a chuva começava a parar lentamente.

Quando amanheceu, não havia nem porco feliz, nem galinhas de corrida, nem Babico. Voltara a chover torrencialmente e o Babico foi embora para sempre, deixando o seu lugar vago na mesa para a fome, que veio devorar a família Juca. O dilúvio dos Juca foi decisivo na vida do Capitão, pois a partir deste momento, ele era obrigado a ir pescar de manhã até a noite, enquanto a imaginação ia para aula. Por muito tempo, os Juca comeram peixes e bananas em uma época que ninguém pegava nada de peixe. Mas, o Nelson tinha um talento natural para a pesca, não era só o gosto, ou o prazer de pegar um peixe, havia algo anormal na relação, pescava mais que qualquer outro pescador.

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