A aliança de pano

Esportes Artigos 20 Março / 2012 Terca-feira por Gustavo De Marchi

A euforia com o sucesso da primeira remada oceânica não era para menos. Na tentativa anterior, sete anos antes, eu havia fracassado miseravelmente e, por milésimos de segundo, a catástrofe não fora trágica. Naquela tentativa desgraçada, eu havia usado um caiaque velho de fibra, pesado pra burro, mais denso que a água e que, segundo as leis da física, afundaria com certeza ao mínimo deslize. Desta vez não, eu tinha a tecnologia ao meu lado e, claro, contava com a sorte também, afinal, tinha meu velho chapéu de pano. Antes de fazer-me ao mar, considerei alguns fatores de segurança: o Joker é um caiaque que jamais afundará, pois seu material é flutuante, inquebrável, possui compartimentos estanques, poderia até cair do caiaque, ou virar, mas, jamais o afundar; o colete salva-vidas era eficiente, reforçado, com cinto de segurança e um canivete automático no bolso, com o fio barbeando, que poderia ser útil em uma emergência; o remo estava amarrado e havia alguma provisão a bordo.

No dia seguinte ao da primeira remada, não me contive! O sol estava lindo, o vento era quase nulo e não havia uma nuvem no céu: fui remar. Desta vez mais longe, mar grosso. Preparei o caiaque na praia. As pessoas paravam, olhavam, faziam perguntas, achavam belíssimo o meu Joker. Algumas crianças travaram uma disputa de conhecimento: era uma lancha, ou um navio, ou uma canoa? Um cachorro parou e, em um momento de distração, quase batizou o casco com a pior espumante do mundo. Fui entrando no mar com o caiaque rebocado pela mão, até passar a arrebentação, e daí sim, num upa, subindo pela borda, sentei na cadeira de remo. Criei assim, uma rotina de navegador dos sete mares, com água a bordo, comidinhas, cigarros secos e uma profusão de idéias absurdas na cabeça.

Passei três dias incríveis e ensolarados remando. Viagens inesquecíveis e ondas temerárias. Era necessário negociar com as ondas com muito jogo de cintura: às vezes, é melhor segurar no remo, alguns segundos, e deixar a onda vir, do que enfrentá-la em seu auge de energia. Recuar para atacar, uma voz interior me dizia. E, parecia que alguém estava me ensinando como proceder nestas transações com as ondas. Cruzar uma onda grande, destas que se formam lá fora, no meio do nada, deixava-me fortalecido, mais seguro, mais marinheiro. Remando, vi as praias de longe, achei um castelo entre as dunas, cruzei uma praia de nudismo, algumas praias desertas, um veleiro no meu horizonte me serviu de bússola para o vento e as gaivotas sempre estavam por perto me olhando com muita naturalidade. Em um ou outro momento pensei no perigo de estar ali sozinho naquele barquinho, com poucos litros de água para beber. E se o vento soprasse forte e me arrastasse como aconteceu no primeiro dia, na lagoa? Pior, e se eu encontrasse uma corrente que me levasse para o alto mar? Esta segurança imaginária, que coisa, eu acreditava mesmo nela. O mar voltou a salgar meu sangue, isto era o que mais importava. Depois de anos mantendo uma distância regulamentar de segurança, reatamos a velha amizade. Eu e o mar fizemos uma aliança de pano.

– Continua semana que vem!

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