Diários Amazônicos

Esportes Artigos 05 Março / 2012 Segunda-feira por Gustavo De Marchi

A diferença na velocidade da água era notável. A cor permanecia a mesma, chocolate-drop. Fazia algum tempo que estava pescando com iscas de meia-água, “tipo jig”, e resolvi substituir por uma isca de superfície, para aquele local especial. A escolhida foi uma “zara”, grande, de cor osso.

Lancei a isca por baixo dos galhos da vegetação próxima a pequena boca que daria acesso ao lago. Com movimentos rápidos, fortes e precisos fiz a isca bailar em ziguezague pela superfície, lançando água e fazendo barulho. Quando a “zara” saiu da sombra da vegetação ouvimos a explosão na superfície.

Com um golpe certeiro, o tucunaré jantou a isca. Levou-a em direção do mato inundado. Este movimento brutal tirou muita linha da carretilha. Eu levantara a vara e ferrara o bichão, tentando segurar na estrela. A linha saia zunindo. Não poderia o deixar entrar no meio das árvores, seria perda total. Fechei a estrela e dei manivela até cansar um pouco o peixe. Ele viu com quem estava lidando. Mudou de direção e brigamos por um bom tempo até que se entregou exausto e pude o ver quando já estava próximo do barco. Era belíssimo, o porteiro da boca do lago.

De todas as formas este tucunaré nos motivou a varar o lago. O processo é selvagem. Entramos no lago com motor elétrico, pelo estreito canal e seguimos por cerca de cinco minutos, até encontrarmos o trajeto obstruído por árvores. A partir deste ponto, com auxílio de varas, conseguimos ir empurrando o barco por mais um longo trajeto, quando um novo obstáculo nos bloqueou a passagem, desta vez, uma muralha compacta de galhos, troncos, copas de árvores e lianas. Era desanimador. Abrimos uma picada com facões, pulamos do barco e fomos empurrando ele pelo meio do túnel, abaixados; uma trabalheira sem tamanho, que tomou mais de uma hora de serviço braçal pesado em um calor insuportável, metidos na lama até os joelhos. Contudo, o canal abriu-se após este último obstáculo e pudemos utilizar o motor elétrico até chegar ao lago, que era enorme, lindo, intocado e o trajeto foi Amazônia pura.

O lago era um refúgio de bons tucunarés na faixa dos quatro a cinco quilos, pegamos mais de uma dezena deles cada um e resolvemos encerrar a pescaria, moídos, esfarrapados, cortados, cansados e felizes. A pesca consagrou-se com iscas de meia-água e valeu cada segundo, cada espinho, cada arranhão, cada gota de suor e cada milímetro de tranqueira do trajeto para encontrar o passo para aquele templo castiço da pesca esportiva.

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