Pequenos e médios negócios aniquilados pelo impetuoso "Buraco Negro"de uma economia globalizada

Economiaenegocios Artigos 22 Outubro / 2020 Quinta-feira por Padre Ari

Não há a mínima chance dos pequenos e médios negócios em se contrapor aos "milionários e/ou bilionários" que comandam o mercado global. Afinal, esse processo, por si mesmo, conduz à destruição de qualquer barreira a este cruel e impiedoso sistema econômico.
Por outro lado é interessante observar alguns termos chaves e sutis para manter vivo este sistema: consumo, liberdade, tecnologia e a mobilidade de escolher onde estar, aliás, para isso os mesmos têm em seu poder os mais sofisticados meios para virtualmente transferir ou movimentar somas exorbitantes, em questão de segundos, de uma parte a outra do planeta.
Observe caro leitor, o engodo subjacente a este sistema: "...a globalização arrasta as economias para a produção do efêmero, do volátil (por meio de uma redução em massa e universal da durabilidade dos produtos e serviços) e do precário (empregos temporários, flexíveis de meio ambiente". (op.cit PETRELLA, Ricardo {docente} da Universidade Católica de Louvain – in Bauman, Zygmunt – Globalização: As consequências humanas Zahar – 1999 p.86).
Ora, neste quadro paradigmático é importante frisar de forma lamentável a cegueira de parcela significativa da classe média que não se dá conta da enrascada em que estão, ao contrário, alguns, salvo exceções, defendem de "unhas e dentes" um sistema obsoleto e sem futuro para a humanidade como um todo.
A obsessão é tão marcante que não conseguem perceber que é preciso reagir fazendo parcerias, cursos, seminários e encontros contínuos com economistas especializados e de "notório saber", para que, conjuntamente, possam criar mecanismos, sem o uso da violência, mas com determinação, influenciando, também, as Universidades e Centros Educacionais na promoção de cursos de educação financeira nas Universidades, como o despertar de uma consciência crítica nas áreas das Ciências Humanas para preparar as novas gerações para algo novo, que não se incentive apenas habilidades, mas os faça pensar para fazer a diferença.
Por outro lado, não se deve ter a ilusão que será um caminho fácil e de curto prazo. No entanto, o importante é iniciar o processo de mudanças em vista de um futuro muito mais focado no todo da sociedade e com perspectiva inclusiva, de solidariedade e respeito à dignidade humana e ao meio ambiente. Ser consciente dessa transformação teórica e prática é fundamental para a transmutação, através dos "experts" em economia e das ciências humanas, afim de que se possa fazer a passagem deste modelo para outro mais justo, saudável e que fomente o crescimento de todo o tecido social, seja local e/ou mundial. Isso sem dúvida exige mudança de paradigma.
Esta é a proposta que o Papa Francisco aborda na sua maravilhosa Encíclica "Fratelli Tutti", com o propósito de pensar e implementar um novo modelo de economia em favor de todos. Afinal, trata-se da Doutrina Social da Igreja. E Francisco é muito objetivo, determinado e claro quando em 04/10/2020 em Assis assinou "...esta humilde contribuição", como ele mesmo disse.

A riqueza, quando é partilhada por todos, tem como efeito prático a construção de um mundo de fraternidade e respeito à dignidade humana. Em contrapartida, vê-se de maneira melancólica e triste um fenômeno que está acontecendo, ou seja, uma nova corrida para a aquisição de bens por uma minoria privilegiada e que alimenta, cada vez mais, o desejo pelo ter e pelo poder. Imaginário este, incrustado na mente da elite financeira, mas também numa parcela da classe média que pensa ser preciso esnobar o que tem, embora jamais se sintam satisfeitos. A maioria que alimenta essa busca do consumo deve pensar bem antes de se jogar nessa corrida absurda e sem sentido. A vida é muito mais bonita do que gastar os seus dias em acumular riquezas.
No artigo próximo passado que publiquei, em 11/10/2020, cujo título foi: "O vampirismo antropológico da ideologia neoliberal e seus paradoxos", recebi um comentário de um leitor que achei interessante. O mesmo citando o ex-padre Bert Helinger que dizia: "...o "merecimento" e o desejo por todos os "brinquedinhos de luxo" é atitude de criança e não de adultos. Vive sobre a égide das compensações". E segue: "...Vem sempre à questão de qual é a missão de uma pessoa que consegue ser rico e milionário? Que diferença ela {esta pessoa} e o seu dinheiro fazem no mundo?

Agradeci o comentário, pois o mesmo me acrescentou e enriqueceu a reflexão do meu texto. Partindo dessa profunda observação, pergunta-se: Como é possível que tantas pessoas não consigam olhar além de sua própria ideologia e/ou convicção para questionar a escolha feita? E mais: Ironicamente não são pessoas analfabetas, mas de uma classe, salvo exceções, de "pseudos intelectuais" que não se dão o trabalho de conhecer e discernir a realidade através de uma análise metodológica "tomando distância" = imparcialidade, como diz Paul Ricouer. E aqui calha a palavra de Francisco, papa:
"...a história {da pós-modernidade infelizmente} dá sinais de regressão. Reacendem-se conflitos anacrônicos que se consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos. Em vários países, uma certa noção de unidade do povo e da nação, {vem} penetrada por diferentes ideologias, {criando} novas formas de egoísmo e de perda do sentido social mascaradas por uma suposta defesa dos interesses nacionais". (FRANCISCO, papa – "Fratelli-Tutti" – Sobre a Fraternidade e a amizade social – nº 11 – 04/10/2020).
Todo o processo de mobilidade contínua da sociedade contemporânea é provocado pelo fenômeno do consumismo, afinal o tipo de economia do sistema neoliberal exige que todo o comportamento frente a produtividade não deva ter durabilidade, mas tudo passageiro e volátil. Por isso é que: "...a cultura da sociedade de consumo envolve sobretudo o esquecimento, não o aprendizado". (BAUMAN, Zygmunt – 1999 p.90)
É preciso conhecer a artimanha deste sistema de que: "...a estratificação da sociedade de consumo é o grau de mobilidade e sua liberdade de escolher onde estar".
Outro aspecto que é preciso frisar neste paradigma é que as pessoas vivem num processo constante de "...inquietude, a mania de mudanças constantes, de movimentos, de diversidade – ficar sentado, parado é a morte… o consumismo é assim o análogo social da psicopatologia da depressão com seus sistemas gêmeos em choque: o nervosismo e a insônia". (ibidem p.01)
Observe caro leitor! A sociedade contemporânea, embriagada neste sistema neoliberal, investe pesado para criar sempre mais necessidades supérfluas, e assim, as pessoas não conseguem mais pensar, refletir, silenciar, pois isto as perturba. Por outro lado, estar em movimento não é sinônimo de mal estar, mas promessa de bem aventurança. Daí infere-se que para aumentar a capacidade de consumo da sociedade pós-moderna "os consumidores não devem nunca ter descanso". Portanto, fica claro que o mercado de consumo seduz os consumidores através de vários mecanismos.


A PERDA DO SENTIDO DA HISTÓRIA DESAGREGA CONTINUAMENTE A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

A Encíclica "Fratelli Tutti", em seu primeiro capítulo, aponta questões sérias e preocupantes para cada cristão católico, bem como para homens e mulheres de boa vontade, para que abram os olhos e reflitam a realidade posta nesse capítulo que leva o título de: "As sombras dum mundo fechado". Por quê?

Quais os pontos chaves a serem observados e refletidos pelos leitores?
A abertura do mundo, hoje, trata-se de uma expressão de apropriação {indevida} da economia e finanças.
O emergir de muitos conflitos locais como o desinteresse pelo bem comum que são instrumentalizados pela economia global impondo um modelo cultural único.
Esta cultura em que se vive unifica o mundo, mas ao mesmo tempo divide as pessoas e as nações. Por quê?

A globalização nos torna vizinhos, mas não nos faz irmãos uns dos outros.
Esse sistema nos massifica e, por outro, privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária.
Os mercados aumentam, entretanto, as pessoas desempenham apenas funções de consumidores e expectadores.

Percebe-se o avanço do globalismo que favorece sempre os mais fortes, aliás, que se protegem a si mesmos, mas dissolvem as identidades regionais, especialmente os mais frágeis e pobres.
Nota-se que desaparece cada vez mais uma consciência histórica e {crítica} e, paulatinamente emerge uma cultura "desconstrutivista", individualista e sem conteúdo algum.

Em contrapartida, emerge novas formas de colonização cultural.

As palavras democracia, liberdade, justiça e unidade são manipuladas para servir como instrumento de domínio, como títulos vazios de conteúdos que servem para justificar qualquer ação.
Infelizmente não há um projeto objetivo e sensato em benefício de todo o tecido social.

É preciso ter uma consciência que esteja além das convicções que muitas vezes se pensa que estão corretas. Fixar-se em ideologias seja qualquer que for é pisar num terreno pantanoso e perigoso. A pessoa madura e sensata sempre irá fazer uma análise diante de qualquer afirmação que se diz verdadeira e absoluta. É bom pensar! (continua)

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