A espiritualidade do cristão e o seu compromisso social

Economiaenegocios Artigos 23 Setembro / 2020 Quarta-feira por Padre Ari

Entretanto, como cristãos, especialmente, os católicos tem-se diante de cada um aquilo que num dado momento não se pode ficar no muro, e sim, optar.
A cultura hodierna além de ser pluralista é controversa, o que na prática encurrala os que aderem a viver uma espiritualidade profundamente cristã e voltada para a praticidade existencial. Portanto, partindo desse pressuposto não há espaço para uma vivência dos valores do Reino sem também seguir no engajamento de transformar o próprio ambiente em que se vive. Daí a exigência do discípulo ao desprendimento de tudo aquilo que possa obstaculizar o avanço no seguimento do Mestre. É uma escolha exigente e sem dúvida, como se espera de cada cristão neste momento da história uma espiritualidade madura, realista e comprometida com a construção de um mundo novo em que todo o ser humano tenha seus direitos respeitados pelo fato de ser “humano”.

Em contrapartida quando o cristão ciente de sua vocação em meio a estas diversidades de espiritualidades deve procurar o centro mais importante que norteia o seguimento desta espiritualidade, ou seja, aquela que tem a Pessoa de Cristo e sua Palavra que vai nos impulsionar para uma contínua renovação. Seguir o Mestre é um processo não de um amor platônico desvinculado da historicidade, mas sintonizado com a mesma. Ora, isso sempre tem como ponto de partida a “conversão” sincronizada com o Mistério Trinitário. Portanto viver a espiritualidade cristã significa:
“...a relação pessoal com Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, que é o espirito de Jesus. Vida, portanto, pessoal, consciente e livre. Dom de Deus, acolhido na conversão, de que o Batismo é sinal eficaz {e isto} desenvolve-se no seguimento de Jesus. Floresce na prática do amor, em que dizemos “sim” na docilidade ao Espírito”. (CATÃO, Francisco – Espiritualidade cristã Teologia Espiritual – Siquem/Paulinas – 2009 p.89).
O anúncio da Boa Nova do Reino não se reduz a ritos, fórmulas, leis, regras e muito menos em moralismos. É preciso ressaltar que na vida não basta ser, mas também agir e por esta mesma razão é que a espiritualidade cristã “...deve trabalhar mais as categorias do agir do que com as categorias do ser”, afinal é algo inerente à vida do cristão maduro, autêntico e comprometido com as questões políticas socioeconômicas, embora, e sobretudo, sem bandeira partidária, étnica e cultural. Afinal o rosto humano seja de quem for, pois sempre retrata o “rosto do Criador”.
Outro aspecto a ser abordado é o fato dos cristãos buscarem continuamente o diálogo com a cultura, as diversas correntes ideológicas, embora sempre com cuidado e clareza não apenas conceitual da teologia cristã católica, mas voltada sempre ao testemunho pessoal e comunitário. Chama a atenção nessa reflexão o pensamento do teólogo Jean Mouroux quando aborda em seu livro: “Fe y experiência cristã”. Mouroux foi um católico francês cujo pensamento e perspectiva sempre se basearam na visão antropológica do personalismo. Teve grande influência no pensamento teológico pré-conciliar. Tinha uma estreita ligação com teólogos como Henri de Lubac, Jean Danielou, Marie Dominique Chenu e outros. Paulo VI na última sessão do Concílio Vaticano II nomeou-o como perito.
Mouroux se destacou por sempre buscar um profundo diálogo com a cultura, a Igreja e o mundo, o cristianismo e o humanismo. A intenção dele era apresentar a mensagem cristã de uma forma mais viva e aberta às necessidades da sociedade de seu tempo. No entanto, parece que a preocupação dele ainda tem sua atualidade na cultura contemporânea por frisar que é preciso fazer uma reflexão sobre a experiência de cunho personalista. Ele foca o chamado de Deus ao homem em Jesus Cristo, isso implica uma resposta pessoal que vai sempre comprometer a existência humana. Portanto: “...a experiência cristã não é empírica, mas experiencial, não é um experimentar da ação direta do Espírito, mas a experiência do “sim” que damos ao Pai no Espírito, concretizado nos atos de fé, esperança e amor com que acolhemos Jesus em nossa vida”. (CATÃO, Francisco – 2009 p.95).
A experiência cristã é a base da espiritualidade pela qual os cristãos, especialmente os católicos devem seguir. No entanto, deve ficar explícito que “...a universalidade da salvação se concretiza na história, através da homogeneidade da experiência salvadora de Jesus com a experiência de vida de todos os humanos” (CATÃO,2009 p.99).
Há outro aspecto a ser destacado nesse paradigma da espiritualidade cristã quando se fala da inserção no mundo, pois “...a universalidade da salvação se concretiza na história, através da homogeneidade antropológica da experiência salvadora de Jesus com a experiência de vida de todos os humanos. Somos chamados a comungar na prática do bem, laço de união com Cristo e, por conseguinte, caminho da salvação. E essa verdade é a base, ao mesmo tempo da unidade e da catolicidade da Igreja, que se tornou um dos pontos centrais do posicionamento cristão em face do mundo, tal como foi entendido pelo Concílio Vaticano II”. (ibidem)
Em contrapartida os cristãos hoje passam por um processo paradoxal e isto exige de leigos, sacerdotes, bispos, religiosos (as) e consagrados profunda convicção em termos de vivência da fé cristã, mas também e de modo especial há hoje também, necessidade de diversificar os agentes de pastoral no estudo das diversas áreas da ciência para poder dialogar com a cultura vigente, eivada de paradoxos, pois: “...no processo de secularização que afeta o Ocidente e se estende com a globalização à todo o planeta, assistimos a um desmoronar progressivo do mundo cristão, de tal sorte que as expressões religiosas vão perdendo seu peso e nos obrigam a procurar novos canais de comunicação com o mundo se quisermos, como cristãos inseridos na {temporalidade}, cumprir dignamente a missão de proclamar o Evangelho”. E segue:
“...a espiritualidade cristã transcende as fronteiras da Igreja e se alimenta do diálogo com todas as formas espirituais da busca de Deus, comum a todos os humanos, ao longo da história”. Daí se infere que toda estrutura da ação cristã possui dois vetores: um antropológico e outro cristológico.
O que se percebe no imaginário da cultura contemporânea é que a mesma possui um constante e crescente desequilíbrio, entre pessoa e comunidade. Por um lado, emerge a visão do individualismo presente no imaginário do tecido social e por outro, se destaca as formas de massificação enaltecidas pelas estruturas burocráticas do poder, pela economia e pela mídia, que reduzem ao mínimo, quando não tolhem completamente o exercício da autêntica liberdade pessoal. Veja caro leitor, que na subjacência dessa visão fica explícita a instrumentalização do ser humano à medida que:
“...a pessoa deixa de ser considerada, em primeiro lugar, sob a alegação de preservação das diferenças culturais, étnicas, tribais, sociais, econômicas, políticas e até religiosas”, no entanto, trata-se da perda de uma autêntica valorização da pessoa de sua liberdade e tudo passa a ser uma massa sem rosto, indiferente, mas irônica e sutilmente aparece sob o jugo de um poder discreto e profundamente cruel. Esse é novamente o momento de cultivar a meditação a partir da Pessoa de Jesus e de seu agir.
O desafio ao cultivar a espiritualidade crística é sermos instrumentos de mudança e transformação desse mundo massificado e narcisista para um mundo solidário, inclusivo, justo e feliz, embora, e, sobretudo sempre focado nos ensinamentos do Mestre Jesus.
“Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,1-8).
É bom pensar!

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