MERCADO PERTURBADO PELO CRISTIANISMO? COMO ASSIM?

Economiaenegocios Artigos 14 Setembro / 2020 Segunda-feira por Padre Ari

Por outro lado, o progresso, o desenvolvimento, o avanço da ciência e o trabalho em princípio tudo leva a valorizar e promover a dignidade humana e, portanto, é positivo.
No entanto deve ficar claro que no momento em que há uma inversão dos símbolos cristãos, mormente em se tratando de celebrações cristãs de importância fundamental para a espiritualidade crística, é preciso ter senso crítico. Por quê?
É inadmissível uma inversão de símbolos cristãos transformados em simples objetos mercantis, ou seja, os cristãos jamais podem se omitir em manter viva a Boa Nova, seja pelo testemunho ou pelo anúncio da Palavra. Mas em contrapartida não pode ser conivente com a destruição daquilo que nos presentifica algo maior principalmente quando se trata do Mistério da Salvação. Daí é que se infere a crítica a contravalores de uma parte significativa da sociedade que fez uma ruptura com a fé cristã em vista de satisfazer apenas o consumo, em outras palavras: o lucro pelo lucro.
É preciso destacar e frisar bem para tornar mais compreensivo o termo “crítica” quando se aborda essa questão da fé cristã num contexto político socioeconômico da cultura hodierna. Se por um lado é preciso fazer uma crítica às transmutações da simbologia cristã que aparecem em muitos ambientes, por outro não há necessidade de se afastar do convívio e do trabalho dentro desta mesma sociedade. A crítica, por sua vez, deriva dos termos gregos “Krisis” e “Krinein”= discernir.
Para a melhor compreensão do assunto em pauta, vamos a exemplos: Está se aproximando uma das festas cristãs de fundamental importância aos cristãos, em que se abordam questões básicas para a fé no que diz respeito à História da Salvação. Trata-se da celebração do Mistério Pascal que é o cerne de todo o cristianismo e que não foi possível neste ano celebrar. No entanto, a outra trata da solenidade do Mistério da Encarnação. Focamos nesta Festa do Santo Natal que está pela frente. Quando da preparação percebe-se algo curioso e que nem sempre os cristãos, especialmente muitos católicos se dão conta de alguns desvios na maneira de celebrar e relembrar tão significativo evento para a humanidade, ou seja, em vez de se expor presépios de Natal, observam-se salvo sempre as exceções, que em muitas lojas as vitrines de Natal são compostas por símbolos mitológicos pré-cristãos: gnomos, fadas, delfos e outros. Este é um paradoxo que se deve questionar.
Os cristãos precisam ter presente que é necessário testemunhar e insistir no verdadeiro e profundo significado daquilo que se está celebrando, ou seja, os verdadeiros símbolos destas festas litúrgicas. Isso não significa trabalhar contra o mercado, mas saber colocar as coisas no seu devido lugar.
Portanto, é possível sim, uma sintonia entre as festas cristãs importantes para a espiritualidade cristã, e que, de alguma forma favoreça o mercado, contanto que se preserve o sentido original destas festas e celebrações cristãs. Torna-se cada vez mais importante a consciência que os cristãos promovam uma evangelização nesta sociedade pós-moderna, mas sempre tendo presente diante de si a missão que cada discípulo necessita no processo de enculturação do autêntico anúncio da Boa Nova sem jamais perder de vista a essência do Mistério Salvífico.
É preciso consciência de viver na prática a espiritualidade cristã, buscando o início de um caminho que possa ajudar este encontro com a transcendência. O foco de nossa profissão de fé é a Santíssima Trindade que cada um de nós recebeu no Batismo. Portanto, é possível viver profundamente uma vida autenticamente cristã, sem prescindir de estar inserido na cultura pós-moderna com seus valores e contravalores, embora, e, sobretudo sabendo discernir entre a espiritualidade cristã de outras.
Cultivar a espiritualidade cristã no contexto de uma cultura plural é preciso dar alguns passos: Para o iniciante é prudente e sensato primeiro a leitura espiritual seguida da meditação, oração e contemplação. Mas há muitas formas de meditação que os cristãos precisam saber discernir, e qual é tipo de meditação que está cultivando, afinal a meditação não é um caminho para o conhecimento esotérico, mas um caminho de um amor maior, não se trata de um caminho de especulação, mas de prática. Há em nosso tempo uma busca e interesse pela meditação, e, isto é positivo, embora e por outro, se necessita “discernir” que tipo de meditação é que nos conduz àquilo que os grandes santos e pensadores religiosos nos ensinam.
“...a meditação é o caminho da reconciliação e unidade, pois é o que mais existe de mais simples. É o caminho mais natural de transformar a vida divina em um caminho espiritual”. (FREEMAN, Laurence – Perder para encontrar – A experiência transformadora da meditação – Vozes 2ªed. – Tradução de Alexandre de Andrade Silva – 2009 pp.48-49). À medida que progredimos na meditação, tornamo-nos mais simples e compreendemos que a simplicidade vai tornar sempre seguro nosso caminhar.


A ESPECIFICIDADE DA MEDITAÇÃO CRISTÃ DE OUTRAS MEDITAÇÕES EM CURSO EM NOSSA SOCIEDADE

Nesse contexto existe algo que muitas vezes não nos damos conta e que destrói totalmente a fé cristã para seguir certo niilismo. Uma coisa é a espiritualidade cristã que foca tudo na Pessoa e na Palavra de Deus e por outro lado, há o cultivo de uma espiritualidade sem Deus e/ou, segundo nossas imagens de Deus. Esse pressuposto deve ficar bem claro e explícito, pois os cristãos, especialmente muitos católicos, embora bem intencionados se deixem conduzir por tipos de espiritualidades que muitas vezes prescindem de Deus e seguem uma espiritualidade e meditação que é narcisista, ou seja, que conduz a pessoa para simplesmente seu bem-estar. Daí a capacidade de saber discernir.
Convido o leitor para refletir (Mt 16,21-25), onde Jesus convida os discípulos para :
“...ir à Jerusalém, pois iria sofrer muito da parte dos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, para ser morto e ao terceiro dia ressuscitar” Pedro reage e Jesus diz: “Se alguém me quiser seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga. Pois aquele que pretender salvar sua vida, há de perdê-la e quem perder sua vida por amor a mim, há de encontrá-la”.
Pedro ao reagir retrata o pensar de nossa cultura contemporânea, pois {hoje} se quer um Deus inofensivo, usá-lo para nós mesmos, para que as coisas nos corram bem. Na verdade isso retrata que queremos apossar-nos de Deus. O teólogo João Batista Metz diz: “....nossa atual imagem de Deus também se mostra assim, “sem lugar para o sofrimento”. Nós construímos uma imagem de Deus que corresponde aos nossos gostos. Quando, então, um sofrimento nos atinge, nos sobrevêm dores insuportáveis e não sabemos mais o que fazer, dizemos: Mas isto não pode ser. Deus é misericordioso. Como pode acontecer isto? {então} nossa imagem de Deus desmorona. (op.cit – in GRÜN, Anselm – Se quiser experimentar Deus – Vozes 2ªed – 2001 p. 168).
Há nesta reação algo paradoxal, pois, se por um lado: “...tocamos o mistério de Deus, e sentimos uma profunda paz interior, no momento seguinte, falsificamos nossa visão de Deus, {pois} com nossa imagem de Deus misturam-se nossos próprios desejos e pensamentos”. É exatamente como Jesus diz a Pedro “Não pensamos como Deus pensa, mas como agrada aos seres humanos”. (ibidem p.170).
Em um artigo que publiquei em 27/01/2020, sob o título: “O sutil engodo da literatura e movimentos de autoajuda” tenho abordado a questão da autoajuda e os diversos movimentos embutidos em nossa cultura. Em tais livros e movimentos nos defrontamos com títulos como: Descobrir a própria força; A força do pensamento positivo, Ter sucesso na vida e uma infinidade de títulos e cursos na mesma linha. Observe caro leitor que tudo que é tratado nestes eventos são para que as coisas corram bem para o ser humano e assim, obter o maior bem possível. No entanto, e com frequência,
“...estes livros de autoajuda, {organizações e movimentos} prometem mais do que podem cumprir. Prometem receitas patenteadas para “tirar o máximo” de todas as situações, sempre tendo em vista o próprio bem-estar. Em muitos livros existe um {forte} traço narcisista”. (GRÜN, 2001 p.171).
Ora as palavras de Jesus, sem dúvida, não deixam de serem palavras de autoajuda em sentido pleno. Mas o detalhe está em que “...Ele não nos diz como “podemos tirar o máximo da vida. Só aquele que se esquece de si, e se envolve com a vida, é que há de sentir o que a vida é, e que riquezas ela esconde {...} têm uma missão, que com sua vida eles devem contribuir com alguma coisa para a transformação deste mundo. “Só quem deixar de usar tudo para si mesmo, só quem estiver pronto para envolver sua vida em favor dos outros, só este a haverá de ganhar”. (ibidem). Erich Fromm tem uma expressão assim: “...aprender a SER humano”. Por isso que a CRUZ é o símbolo dos opostos, e o homem contemporâneo tem dificuldade para assimilar a ideia do sofrimento.
“...na cruz, assumo não somente meus próprios aspectos sombrios, mas também os conflitos da convivência humana. Se neste mundo eu seguir com coerência o meu caminho, necessariamente irei deparar-me com a cruz. Quando assumo a cruz, novamente Deus há de brilhar em meu caminho”. (ibidem p.175).
Portanto, é bom se ter consciência que: “...a caraterística teológica e historicamente da espiritualidade cristã é que ela tem por fonte, centro e objetivo a pessoa de Jesus”. (CATÃO, Francisco – Espiritualidade Cristã – Teologia Espiritual – Siquem/Paulinas – 2009 p.37). E segue:
“...essa forma de conceber a espiritualidade cristã mostra que não se trata de uma espiritualidade entre muitas outras, mas da realidade que está na raiz de todas as espiritualidades humanas, pois a vida espiritual verdadeira é a vida em Deus, guiada pela sua Palavra, Jesus, e animada pelo seu Espírito”.
O texto dessa semana tenta retratar o que significa a meditação nesta espiritualidade cristã. Não se trata de meditar para aprofundar simplesmente o bem-estar e, sim, algo mais, ou seja: “...a centralidade do Jesus vivo, {que} é hoje, talvez mais do que nunca, o caminho para a restauração de um autêntica espiritualidade cristã fundada no Novo Testamento”. (CATÃO, 2009 p.57). Os cristãos, especialmente muitos católicos, necessitam rever suas escolhas quando se trata de cultivar uma espiritualidade. O ponto de partida para a espiritualidade cristã é sempre aquela que conduz ao evento do Novo Testamento, ou seja, a partir de JESUS. É bom pensar! (continua no próximo artigo)




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