MORAL DE RESPONSABILIDADE: Pressuposto ético para a transformação da cultura contemporânea

Economiaenegocios Artigos 28 Agosto / 2020 Sexta-feira por Padre Ari

Por outro lado, percebe-se que não há um fechamento hermético da parte da mesma em relação a valores que estão ausentes do imaginário da mesma. É preciso redescobrir nesses paradoxos culturais a linguagem mais adequada para que os valores do Reino sejam internalizados e aceitos.
O mundo vive um cansaço em todas as dimensões da vida moderna e pós-moderna, já que as escolhas feitas até então são de natureza material com impulsividade ao consumismo que esvazia o todo da vida. Se o cristão estiver atento aos sinais dos tempos, ver-se-á que na escuta da linguagem e dos símbolos em curso poder-se-á perceber que há sim, espaço e abertura para o anúncio da Boa Nova do Reino para cristãos, mormente os católicos, para a inserção do rosto crístico numa cultura que se apresenta sem rosto e indiferente a tudo o que não conduz a adquirir bens de consumo.
A maneira que melhor encaixa neste paradigma é a capacidade de cultivar a dom da escuta, da humildade e do carinho para com o irmão, seja ele quem for. No entanto, e antes de qualquer coisa o que marca a abertura da atual sociedade para aquele que diz “crer” é o testemunho pessoal, como das comunidades eclesiais que vivenciam a espiritualidade no profundo do ser-si-mesmo. Esse paradigma certamente é o que fará a diferença no processo da evangelização. Observe:
“...os valores mais sentidos no mundo secular atual são os da responsabilidade, da liberdade, da consciência sincera, da solidariedade, da maturidade e do discernimento”. (HAERING, Bernhard – Moral e Evangelização Hoje – Paulinas – 1077 p.70).
O mundo atual vive o paradoxo do relativismo em todas as direções, e, assim a exigência para um autêntico processo evangelizador deve passar necessariamente pelo testemunho vivo e real de cada pessoa que proclama que tem fé.

Chama à atenção a observação que Rudolf Oto faz em relação à religião como tal. Quem foi Rudolf Oto? Foi um eminente teólogo luterano alemão, filósofo e um erudito em religiões comparadas. É autor do livro “O Sagrado” publicado pela primeira vez em 1917. Foi um dos mais importantes tratados teológicos em língua alemã do século XX. Ele é conhecido pelo conceito do “numinoso” que exprime uma profunda experiência emocional que ele argumenta estar no coração das religiões do mundo e que é fundamental para o entendimento religioso e filosófico da atualidade. Ele faz a seguinte afirmação:
“...onde o ethos sacral não amadureceu, porque não se encontrou com um Deus infinitamente santo e misericordioso, {esse ethos} não exerce {nenhuma} influência crítica e purificadora sobre os costumes que deveria exercer {e, por outro lado} tende com excessiva facilidade, {a} uma sansão de caráter religioso”. (op.cit HAERING, pp.74-75).
É bom observar que em todas as religiões se encontra o ethos sacral e o ethos sancionado. Ora, partindo desse paradigma é possível deduzir que o mundo contemporâneo e seu imaginário espera assim como se sente tocado, em sua conduta ético/moral quando os cristãos e/ou não, especialmente os católicos, tenham uma postura coerente com o ato de proclamar “eu tenho fé”. Afinal essa assertiva tem seu valor à medida que há uma sintonia entre o dizer e o fazer. Partindo desse pressuposto a fé/moral convence e se torna aos olhos da cultura vigente não apenas um sinal como um processo que desafia e conduz à transformação com dinamicidade e marca profundamente o coração do homem desta cultura contemporânea.


A DIRETRIZ ÉTICA PARA A EVANGELIZAÇÃO DO HOMEM PÓS-MODERNO TERÁ RESULTADO SEMPRE A PARTIR DA MORAL DA RESPONSABILIDADE


Todo o processo da evangelização deste mundo hodierno, sem dúvida, se constitui tarefa árdua, embora, e, sobretudo da parte do evangelizador haja uma necessidade de se confiar muito mais na “GRAÇA”, e nem tanto nos métodos e estratégias para atingir a meta do anúncio. Afinal diante das dificuldades e obstáculos para proclamar a Boa Nova, a base sempre será mediante uma experiência pessoal de Deus, para não incorrer em moralismos, fundamentalismos engessados, saudosismos de outros tempos, mas consciente de presentificar aos novos paradigmas elementos que sejam frutos de uma experiência pessoal com a transcendência, e, ao mesmo tempo sem negligenciar a essência da fé provinda da escuta da Palavra de Deus, da vivência dos sacramentos que são sinais vivos da presença de Deus entre nós. Haering, faz uma observação que deve nos fazer pensar ante esta cultura vazia e consumista:
“...grande parte dos cristãos acham-se intelectual e espiritualmente pouco preparados para afrontarem as dificuldades e as oportunidades da hora presente”. (ibidem p.83). E segue:
“...a moral é antes de mais nada a fé vivida e encarnada na vida do homem. Ela traduz as exigências do ideal evangélico e do testemunho que todo cristão deve dar na sua vida de cada dia”.

Daí a importância de se ter presente a leitura e a visão aguçada em relação aos “sinais dos tempos”. Somos uma Igreja em saída e não acomodada em nosso bem-estar. É bom ter presente e consciência do alerta de pensadores e intelectuais quando nos apontam para olhar na direção do amanhã da fé cristã. Vejamos:
“...sociólogos e psicólogos sociais afirmam claramente que o futuro será construído por 2 ou 3% de pessoas ou grupos, os mais dinâmicos. A Igreja não pode renunciar ou perder aqueles sem os quais não teria, em termos humanos, nenhum futuro no mundo de amanhã”. (ibidem)
O texto dessa semana vem novamente desafiar a nós cristãos, mormente os católicos, pois: “...estamos acostumados a pensar a nossa sociedade como sendo fanaticamente materialista. Mas não estamos propensos a pensar sobre nós mesmos como materialistas, porque ninguém gosta de ser chamado “materialista”. Ainda assim devemos reconhecer que , de muitas maneiras, nosso estilo de vida, personalidade e hábitos mentais são condicionados pela preocupação excessiva da sociedade com o lucro, produtividade e eficiência”. (FREEMAN, Laurence – Perder para encontrar – A experiência transformadora da meditação – Tradução de Alexandre de Andrade Silva - 2ª edição – Vozes – 2009 pp.178-179). E segue:
“...cada um de nós gostaria de pensar que estamos acima de uma cultura materialista, com sua preocupação compulsiva com posses, dinheiro, status e sucesso. Mas todas as forças desta sociedade nos moldam, pois o materialismo segue uma política de sedução sutil e amplamente subliminar. Talvez sua grande decepção é que ele não seja de todo materialista {...} o curso curioso de uma sociedade materialista é “abstração” e o grau ao qual consequentemente vivemos em nossa cabeça somente, através da razão científica e da análise acadêmica”.

O maior desafio da evangelização em nossa sociedade é algo que nos encurrala na coerência do nosso ser cristão. Urge o encontro com o próprio “eu”, embora seja preciso prudência e senso de observação. Por quê?
“...é da essência do ser humano que sejamos comprometidos na busca do nosso “eu” interior {...} Mas, na sociedade moderna, com seus grandes poderes de abstração, uma forma de psicologia espiritual tem se tornado uma grande indústria. Métodos, jogos ou técnicas de autoconhecimento, autorrealização e auto descobrimento são, porém muitas vezes, uma busca fútil que não leva mais longe do que às imagens a mais do self. Quanto mais cerebral e abstrato, mais leva para um pior senso de alienação. Até mesmo os métodos físicos desta indústria são cerebralmente controlados e levam ao desequilíbrio”. (ibidem FREEMAN, pp.180-181).
É importante frisar que se por um lado, o cristão no processo de evangelização desta cultura da pós-modernidade necessita de uma espiritualidade profunda a começar pela “meditação”, por outro, estar atento para não ser engolido por espiritualidades que não condizem com o agir cristão da experiência do Deus da Criação. Por quê?
É preciso discernimento nesta busca pelo “eu” através do silêncio e da meditação.
“...muitas das buscas modernas por individualidade e identidade são conduzidas com a ajuda de sistemas. Sistemas intelectuais complexos que expressam padrões cerebrais ou psicológicos {que} são empacotados e popularizados. Estão organizados em torno de uma estrutura de tipos de personalidade. Quando aplicamos este sistema por nós mesmos ou por outrem, normalmente com certo custo financeiro, podemos constatar que estamos sendo classificados e categorizados”. (FREEMAN, p.182).
É bom lembrar-se que a meditação que se necessita para a evangelização é um caminho espiritual, não um sistema materialista, nem deve viver preocupado com lucro, produtividade, eficiência ou definições. Não é um sistema cerebral, mas um caminho que o ser humano como um todo está buscando. “Autoconhecimento e experiência de Deus abrem-se juntas e uma para a outra, é vital”. Sempre é bom saber discernir o caminho por onde andamos. Mas o encontro com Deus é fundamental para este processo de evangelizar a cultura contemporânea.
Pense!


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