Reinventar a história, desconstrução estrutural e volta às origens: Eis o desafio!

Economiaenegocios Artigos 02 Julho / 2020 Quinta-feira por Padre Ari

Fazendo uso da expressão de Edgar Morin ao se referir à crise em curso é nítida que se está diante de uma “desconstrução estrutural” de todo o imaginário contemporâneo até então vigente. Por outro lado, deve-se frisar que não se trata de um momento passageiro da humanidade, mas, e, sobretudo de uma mudança profunda epocal que já vem se arrastando há muito tempo, embora sem a percepção da maioria, justamente por viver, alienada e obcecada por um paradigma de um progresso descontrolado, consumo desmedido e uma visão retilínea de um progresso sem limite, mas com o agravante ante o esquecimento de “SER”. A corrida é sem precedente, seja do ponto de vista da economia, de uma política manchada pelos vícios do poder, da corrupção, dos conchavos como se tudo tivesse perpetuidade na temporalidade. Ora, a perspectiva linear e infinita no contexto da história é uma realidade que paulatinamente vai desmantelando qualquer pessoa de bom senso, ao perceber a fragilidade do mundo das coisas materiais e, isso tem um nome ilusão, pois nada tem uma certeza absoluta na historicidade, tudo é biodegradável inclusive a própria ciência é descontínua em seus paradigmas.
Observe caro leitor como se tem falado nas últimas décadas, aliás, e que tem conduzido muitos ao desespero ao abordar o “fim do mundo” e a “morte”, aliás, que é um limite intransponível. Não se deve alimentar que assim que passar a pandemia tudo retornará ao que foi esse é um engodo crasso. Voltar àquilo que chamam de normalidade, é um paradigma que terá que ser repensado, com um ritmo desacelerado e um retorno à dimensão de uma espiritualidade profunda e autêntica aliada aos novos parâmetros pós- pandemia, aliás, que deverá caminhar em sintonia com os mesmos.
Percebe-se certo entusiasmo com a rapidez e criatividade que se percebe com novas tecnologias e metodologias para encarar os novos tempos nos diversos setores do mercado e da economia, das organizações e da educação, dos meios de transportes e do cuidado da natureza e da saúde. No entanto, é bom ter em conta que as mudanças no contexto geral, sejam no trabalho, desenvolvimento em geral, nas relações interpessoais é necessário ter um olhar arguto e crítico no conjunto da vida e do homem que se compõe de uma trilogia: é um ser cognitivo, biológico e espiritual. Essa tríplice constituição no decorrer da vida sempre há de exigir o cultivo da espiritualidade, da meditação, do silêncio e a promoção dos valores. A ideologia iluminista frisou com destaque e de forma unidimensional o racionalismo, absolutizou a ética da razão, mas se prescindiu da ética da ternura e tem conduzido a sociedade ao esquecimento do “EU” no afã (do fazer) ativismo, do consumismo e do prazer. O novo se resume no equilíbrio entre “mente e espírito” como é muito bem abordado no livro: A Psicologia da Espiritualidade – Autor: Larry Cullidord – 2015 - Ed. Fundamento.
Ironicamente tem surgido os protagonistas messiânicos, que sempre é prudente desconfiarem dos ditos milagreiros sectários e alienantes que lançam mão de textos bíblicos com uma hermenêutica fundamentalista, cujas afirmações são extraídas e pinçadas fora do contexto exegético, principalmente do livro do Apocalipse, como se tivessem realmente certeza do que estão anunciando. É bom lembrar-se que o próprio Jesus respondeu aos discípulos quando foi indagado sobre a questão do fim: “...quanto ao final dos tempos ninguém sabe, nem os anjos do céu e nem o Filho do homem, somente o Pai”. Já se teve experiências trágicas no século passado e em outras ocasiões no Brasil e em outros países desses aventureiros da boa fé de muitos. E então!!

Portanto, cuidado com os messianismos baratos anunciando o final dos tempos. Ora, deve ficar bem claro que já terminou um determinado “tipo de mundo” e, já se está vivendo outra realidade, embora ainda o tecido social como um todo não acordasse. Esses messianismos baratos de fundo de quintal, além de perturbar a sociedade e explorá-la emocional e financeiramente a muitos, tem provocado nos incautos inúmeras disfunções psíquicas como fomentar estados depressivos alarmantes e perigosos para o conjunto da sociedade. O medo sempre provoca insegurança como paralisa qualquer ser humano.
ZANOTTI, Gabriel – Nasceu em 1960 em Buenos Aires na Argentina. Professor de Metafísica e de Filosofia da Ciência na Université de “Norte Santo Tomás de Aquino; prof. da Escola Superior de Economia Y Administração de Empresas (ESEADE) e na Escola Superior de Economia e Administração de Empresas em L’UNSTA. Possui Doutorado em Filosofia pela Universidade Católica da Argentina (UCA); é autor de 16 livros, entre eles “Epistemologia da Economia – {publicado no Brasil} PUCRS, 1997.
No entanto dentre os vários livros por ele publicado, me debruço neste artigo em seu livro Existência humana y mistério de Dios onde o mesmo faz uma belíssima leitura como analisa o momento em que a sociedade local e mundial vive. Zanotti é incisivo quando afirma que a crise mais profunda que se manifesta no atual momento do ser humano é o “...esquecimento do próprio “eu”. Exemplifica e fundamenta a afirmação ao mostrar o movimento de um rio que às vezes é turbulento, outras vezes calmo, porém sempre em contínuo fluir para “Aquele” que é o lugar mais profundo”. (ZANOTTI, Gabriel – p.8).
Sem margem de dúvida, Zanotti chama a atenção do leitor quanto ao envolvimento do ser humano num mundo irreal e ilusório ao colocar como verdade última o mundo das coisas, de reducionismos em relação ao conforto e o bem-estar material, do consumo desmedido como se isso fosse resposta última do sentido da existência humana, contudo e por outros, obcecados pelos fascinantes avanços tecnológicos a cultura contemporânea abortou a noção do sentido da própria existência. Essa é a crise do tempo presente.
Portanto está claro que o ser humano tem perdido a capacidade de penetrar no próprio ser-si-mesmo, pois não possui mais tempo para parar e silenciar, tudo se resume no “fazer” e não no “ser”: “...o risco é de permanecer na superfície e não no centro do “Eu” {...} o risco de conhecer o fazer, mas {por outro} ignorar “o ser”, {em outras palavras}, o risco de esquecer de viver. Esse primeiro esquecimento de ser {é o início} do esquecer de “ser”. (ZANOTTI, p.10)
Tal comportamento do tecido social retrata “...uma cegueira da inteligência que se converteu naquilo que ele crê que é: planejar, avaliar, medir e calcular {...} porém não consegue tempo para meditar, contemplar e compreender {...} é uma inteligência que não entende. Portanto, é um não saber sobre a alma”. (op.cit Zambrano in – Zanotti, ibidem p.10). Heidegger chama a isso de “existência inautêntica”. {pois} é viver permanentemente na superfície.
Então é possível afirmar com Edgar Morin, se vive uma crise do “pensamento” e infelizmente se está num contexto de mundo “prenhe” de superficialidade, realidade que sempre mais vai dificultar o entendimento que se necessita para dar passos conscientes e profundos, por isso a crise atual nos induz à um tempo de “desconstruções estruturais”, até então seguidas por cientistas e pesquisadores, salvo sempre as exceções, como por uma filosofia da história que não responde mais na solução do problemas que emergiram do progresso.
O fascínio provocado pelo absolutismo da ideologia iluminista se tornou obsoleto e anacrônico e, esta postura do “ter” no imaginário da tecnociência, tem mergulhado toda a humanidade numa solidão existencial sem referência de sentido e desbancando a própria ciência de que a mesma sempre é biodegradável, usando as palavras de Morin. Por outro lado, após esta pandemia tenha-se certeza que o mundo não será mais o mesmo, terá que repensar e reinventar uma nova filosofia da história, com novos métodos, paradigmas e imaginários mais inclusivos, e, sem jamais ter a pretensão de “verdade última”, mas consciente da transitoriedade e da constante decomposição de seu objeto.
É uma ruptura de época para um novo contexto com novos desafios em todos os meandros societários da temporalidade. A partir desse pressuposto pandêmico, o mundo não será mais o mesmo. Quanto ao “gestar a coisa pública” sem dúvida, também vão exigir novos paradigmas, pessoas competentes e preparadas e não terá mais espaço para amadorismos na Conjuntura Política socioeconômica. Candidatos ao serviço público com tendências autocratas, sociopatas e cleptocratas terão que ser banidos do contexto dos Estados Nações. Não se suportará mais “chefes” em qualquer organização e/ou instituições, e, sim líderes que agregam com o intuito de proporcionar equilíbrio e crescimento para todo o tecido social.
Finalmente novamente frisa-se que: “...urge mudanças profundas, pois o ser humano é tripartite: corpo-espírito-alma, é uma espécie de “osmose”, uma ligação orgânica e vital que lhe faz ser diferente no contexto do cosmos. Se for negligenciada uma dessas três dimensões: “...produz-se o desequilíbrio que pode ser denominado, “ruptura”, “carência”, “vazio existencial”. (op.cit – SIMARD, Jean Paul – Espiritualidade: Os recursos da alma para cura dos sofrimentos e das doenças – Paulinas – 2016 p.40 – in SILVA, Ari Antônio – Ética, Espiritualidade e Cidadania – Ser Cristão na Cultura Pós-Moderna – Ed. Nova Harmonia pp.42-43). E segue:
“...a doença e o sofrimento são com frequência aquilo que nos leva a encontrar na vida essa dimensão que falta {...} uma vez encontrada e integrada, essa dimensão representa um importante fator de cura”.

Concluo esse artigo com as palavras do sociólogo Jacques Grand’Maison: “...somos gigantes no plano material, mas anões no plano espiritual”.
É bom pensar!

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