A ideologia da “Dialética do Iluminismo” e sua influência na teologia cristã

Economiaenegocios Artigos 13 Dezembro / 2017 Quarta-feira por Padre Ari

Em diversos artigos publicados tenho abordado a questão da ambiguidade da ideologia iluminista que na prática norteou o pensamento de toda a cultura contemporânea, com algumas consequências trágicas. O século XX próximo passado tem se caracterizado por ter sido uma época de grandes massacres, guerras, genocídios, lutas fratricidas, ódios étnicos e tantos outros acontecimentos. É bom lembrar que sempre na subjacência dos acontecimentos permeia uma ou mais ideologias que são concepções de mundo e que alimentam os acontecimentos. Uma das referências que marcou o século XX vem do racionalismo de séculos anteriores tendo como ponto alto o século XIX com o paradigma do iluminismo e sua conhecida frase lapidar: “A razão é guia infalível de toda a verdade”. Na prática isso significou um racionalismo exacerbado com destaque ao subjetivismo e o pragmatismo nele fundamentado.

Sempre procurei ter o cuidado e a sensibilidade ao abordar tal assunto ao criticar alguns elementos no que diz respeito à razão humana. A razão é algo importante entre os seres humanos, no entanto é preciso também mostrar os paradoxos e contradições quando tal assertiva é levada ao absoluto. Nesse sentido é preciso perceber que se corre o risco de colocar no seu bojo algo impactante seja do ponto de vista positivo ou negativo.
“Negar a grandeza da razão humana é ingenuidade: por outro lado, ela não significa que esteja num nível de superioridade e acima do Criador”. (SILVA, Ari Antônio – Planeta Terra em Crise – Urge repensar a história com Novos Paradigmas – Ed. Harmonia – 2017 – p.92).
A mais de 50 anos do Concílio Vaticano II a Igreja tentou fazer uma nova leitura do Evangelho para uma nova evangelização. Foram tempos conturbados para a Igreja. O Anúncio do Reino na modernidade com novos paradigmas, e, alguns extremamente complexos, pelo desenvolvimento da tecnologia e o avanço das ciências em geral, veio a exigir mudanças, embora tenha sido um processo doloroso em várias dimensões.
Se por um lado, o Concílio propôs novas formas de evangelização sempre atento à essência da fé cristã, por outro, os conflitos e as resistências não foram menos intensas, embora sempre fossem mais positivas do que o contrário. E nesse percurso de mais de meio século, se tem caminhado entre sombras e luzes, embora as tensões das mudanças continuem e devem ser permanentes. Não se pode ficar no saudosismo, ainda mais que as transformações ocorrem muito mais rápidas em nosso tempo. Inseridos neste contexto da cultura da modernidade com suas contradições há um esforço em se buscar uma resposta de sentido ao niilismo presente nessa cultura marcada por um pluralismo nem sempre sadio.
Um aspecto a ser destacado e que tem tornado difícil à evangelização no hoje da história é o fato da ideologia subjetivista ter empurrado a fé para o privado. “A fé tem uma forma necessariamente eclesial, é professada partindo do corpo de Cristo, como comunhão concreta dos crentes. A partir deste lugar eclesial, ela abre o indivíduo cristão a todos os homens”. (FRANCISCO, papa – Lumen Fidei – nº22).
No entanto, o que se percebe é que o pensamento moderno desqualificou a fé a uma disfunção estranha que não se pode admitir, pois: “...a fé não é um fato privado, uma concepção individualista, uma opinião subjetiva, mas nasce de uma escuta e destina-se a ser pronunciada e a tornar-se anúncio”. (ibidem)

As ideologias transversais e niilistas continuam rondando o imaginário da cultura contemporânea
Os discípulos missionários de que fala a Igreja e a questão da “Igreja em saída”, tem que ter presente que a evangelização nesse contexto no hoje da história não se trata de coisa simples, mas muito mais complexa que se possa imaginar. É bom frisar que toda essa ideologia que herdamos das últimas décadas, foram marcadas por um racionalismo com base no avanço das ciências, e, infelizmente tem se distanciado de uma sociedade marcada até então por uma cultura de “fé”, onde a mesma sempre esteve inserida. Essa cultura se distanciou de uma antropologia que colocou habitualmente a dimensão do “ser religioso” como parte essencial do humano e não acidente de percurso. No entanto, percebe-se que nossos agentes de pastoral, muitos ainda não se deram conta do que está por detrás dessa cultura vigente, ou seja, uma sociedade que cultiva uma espiritualidade sem Deus, individualista com traços da famosa “teologia da prosperidade”, que já tenho abordado em livros que publiquei.
Por isso o cultivo do individualismo é o melhor campo para disseminar essa “pseudo-espiritualidade” que reforça a absolutização da razão, a valorização da individuação em detrimento da individualidade e que estimula um progresso, desenvolvimento tecnológico focado no ter, na economia de mercado e saciando o feroz sistema financeiro. Por outro lado, acentua a ideia do mercado financeiro retilíneo e infinito.

A Igreja é inserida no contexto das culturas, e, por isso mesmo, não deixa também de ser contaminada pelo pensamento racionalista no agir cristão, na sua pastoral e no pensar teológico. A Igreja por vezes tem chegado a muitas comunidades estabelecendo uma estrutura institucional com reflexos dessa ideologia racionalista. Onde e como? O papa Francisco tem acenado:
1. No engessamento preocupante da pastoral que obstrui a nova evangelização e que dificulta a acolhida do povo de Deus.
1.2. A falta de novas metodologias pastorais, às vezes com excesso de leis e regras.
1.3. Ter as portas abertas para todos, e acabando com a frieza de muitas comunidades que se burocratizaram e impedindo as pessoas de se achegarem nas horas de dificuldades ou até para aconselhamentos e confissões.
1.4. Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores [...] a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa.
2. Francisco na Exortação Apostólica chama a atenção ao afirmar: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EA, 49) e segue:
3. Não quero uma ‘Igreja preocupada’ com ser o centro, e que acaba presa numa emaranhado de obsessões e procedimentos [...] se alguma coisa nos deve santamente inquietar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem força, sem a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha e sem um horizonte de sentido de vida.
4. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentidos tranquilos enquanto la fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. (Mc 6,37).

É neste contexto que parece haver a necessidade para novamente rever, recordar qual a missão da Igreja nesta cultura secular, economicista, asfixiante e na qual, com ou sem muita consciência, a pastoral acabou assimilando a ‘ideologia da dialética do iluminismo”. A Exortação Apostólica do Papa Francisco é muito feliz e se faz necessário sempre novamente refletir.

É bom pensar!

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