O Século XX deixou mais ruínas sociais do que novas construções

Economiaenegocios Artigos 27 Novembro / 2017 Segunda-feira por Padre Ari

O contexto do construto político socioeconômico vigente é um retrato do esvaziamento e do trágico reducionismo a que se chega no novo século sem clareza de paradigmas que façam emergir uma nova sociedade. Os possíveis parâmetros que pudessem reconstruir o “novo” foram reduzidos às cinzas. É com esse imaginário político socioeconômico que se iniciou o novo século, ou seja, sem perspectivas.
Outro aspecto a ser frisado no contexto da atual cultura é a desconstrução do social para priorizar a individuação e, com consequência a tramitação de uma economia que ninguém consegue controlar levando os Estados Nações ao descontrole, a conflitos fratricidas que a curto e médio prazos não será possível vislumbrar uma resposta adequada para solucionar questões referentes ao bem comum, seja de natureza nacional ou internacional.
“Faz-se necessário reconstruir todas as instituições sociais e coloca-las a serviço da subjetivação dos atores e da salvaguarda da terra, e não mais do lucro”. (TOURAINE, Alain – Após a crise – Vozes – 2011). E segue:
“...cada qual sente a dificuldade é imensa e o fracasso muito provável, mas também que os termos {...} indicam a única solução para uma crise que vai além do funcionamento da economia já que ela se produziu num mundo onde todos os vínculos entre economia e sociedade foram rompidos pela globalização de uma economia que ninguém consegue controlar”.

Infelizmente é preciso admitir que: “...a ideia de sociedade está destruída. Seu desaparecimento implica reparação completa da análise dos sistemas daquelas condutas e das representações: hoje é impossível oferecer interpretações antropomórficas dos sistemas sociais”. (TORAINE, 2011).

Sempre nesses momentos cruciais das civilizações, onde o processo de transformação acontece, jamais se pode deixar para segundo plano o todo da própria sociedade para priorizar outras. Tal postura sempre há de forçar um processo de desintegração com consequências incalculáveis para o prosseguimento da história tanto no plano da ecologia humana, quanto da ecologia ambiental. Entretanto parece ser este o fator que está em jogo nesse momento da história contemporânea. Houve um excesso de valorização de aspectos importantes, embora não fossem a totalidade que constitui o equilíbrio da natureza.
Impulsionada por um paradigma unilateral como seja a “Dialética do Iluminismo” conduziu a cultura do último século próximo passado a nos legar uma concepção de vida e de história que fez com que na atualidade se tornasse difícil o reencontro do progresso, do desenvolvimento com harmonia e sustentabilidade pela unidimensionalidade do imaginário em voga. É preciso então, redescobrir novamente o fio do avanço à prosperidade, embora considerando o que seja sustentável para a criação como para os humanos, aliás, que todos fazem parte da natureza.

O desafio da atual cultura é recompor uma dinamicidade cujo paradigma se baseia em primeiro lugar na recolocação da “dignidade humana” no seu lugar mas, ao mesmo tempo onde todos tenham consciência da sua responsabilidade para com a Criação. A herança recebida nos últimos tempos tinha como objetivo apenas explorar a natureza sem critérios. Isso teve e tem seu preço.

“A cultura atual tende a propor estilos de vida de ser e viver contrários à natureza e dignidade do ser humano (...) o impacto dominante dos ídolos do poder, da riqueza e do prazer efêmero se transformaram, acima do valor da pessoa, em norma máxima de funcionamento e em critério decisivo na organização social”. (Documento de Aparecida, 387). E segue:
Diante dessa realidade, anunciamos, uma vez mais, o valor supremo de cada homem e de cada mulher. Na verdade, o Criador, ao colocar a serviço do ser humano tudo o que foi criado, manifesta a dignidade da pessoa humana e convida a respeitá-la.
Diante do fascínio que ainda alenta grande parte da humanidade pelo progresso e o desenvolvimento, logicamente que isto não significa paralisar, gerando um fenômeno de desestruturação do tecido humano e da ecologia ambiental, urge a pergunta: o que se quer com esta lógica de alimentar objetivos ousados? É para o bem comum de toda a criação, especialmente do ser humano, ou para mostrar “poder de fogo” de uns para com os outros? É preciso revisar para onde queremos ir, que metas se têm e com que preço se quer alcançar. Em que tais megaprojetos vão contribuir para uma sociedade mais humana, solidária e justa que promove o espírito de igualdade?
O autor do livro: “A civilização do medo”- VIEIRA, Paulo de Castro, nos propõem algumas reflexões que podem nos ajudar a questionar certos pressupostos da lógica do cientificismo, aliás, muito presente em muitas pesquisas que são elaboradas. Tais objetivos alimentam a corrida para descoberta de novas tecnologias. Em princípio é positivo, no entanto sempre é bom fazer uma análise crítica do que permeia e alimenta tais pesquisas!
“Não se faz um mundo diferente com pessoas indiferentes à ideia de um local melhor para todos. Não se pode crescer infinitamente perante uma economia baseada nos recursos finitos de um planeta devassado a favor de tão poucos {...} enquanto não mudarmos as palavras que nos farão avançar, o mundo continuará a ser um lugar só para alguns, apenas. Em economia isto significará, por exemplo, substituir a palavra “crescimento” pela tão esquecida palavra “cuidar”. (VIEIRA, Paulo de Castro – A CIVILIZAÇÃO DO MEDO – O mundo como nunca o imaginávamos... – 4 Estações Editor – Ltda. Parede – Portugal – 2017). E segue:
“A ideia de um ser humano escravo dos modelos econômicos tem-se mostrado falha, só assim se justificando que hoje, neste preciso momento, haja gente na rua disposta a morrer em defesa do óbvio. E que mundo é este em que para se ser justo é preciso ser louco?”.

Reencontrar novamente o sentido do progresso e do desenvolvimento da atual cultura é uma assertiva que clama para entrar nos conceitos do imaginário do novo século que apenas iniciamos e que certamente fará a diferença. Do contrário as perspectivas não são alentadoras, ainda mais cujas realidades trágicas que se vivenciam e são veiculadas diariamente pelos diversos meios de comunicação nos deixa com “reservas”. “...mudar o mundo é recentrar em torno desta ideia de CUIDAR. A economia do cuidar opõe-se à economia do medo”. (VIEIRA, 2017). E segue: “Cuidar tornou-se a palavra mais esquecida do competitivo mundo das empresas, das escolas e, talvez por isso, das nossas vidas”.
Com muita propriedade Bento XVI nos alerta quanto à posição da ciência:
“Quando esta se coloca como última palavra sobre a Verdade, a mesma relativiza, mostrando “sua provisoriedade”. A ação é cega sem o saber, e este é estéril sem o amor. Por isso há uma ligação inteligente entre o pensamento de Gadamer e aquilo que as duas encíclicas de Bento XVI têm colocado. As ponderações morais e a pesquisa científica devem crescer juntas, pois a excessiva fragmentação do saber e o isolamento das ciências humanas relativamente à metafísica atrapalham o desenvolvimento e, portanto, necessitam alargar o conceito de razão, ciência, metodologia científica para abrir perspectiva de sentido a uma cultura que insiste, muitas vezes, em fechar-se sobre si própria, o que não deixa de ser uma asfixia para a dignidade humana inserida na temporalidade que busca o “sentido” (apud Bento XVI – in Mundo Melhor – Justiça, Solidariedade e Transcendência – SILVA, Ari Antônio - 2012)
Sempre é bom frisar que a humanidade caminhou e cresceu em muitos aspectos, embora em outros haja a necessidade de ajustes para que as novas gerações sejam preparadas para o desconhecido. O futuro é viver bem no hoje da história, é colocar alicerces sólidos baseados em valores e princípios norteadores, de modo especial pelas virtudes cardeais e as virtudes teologais. São referências que no conjunto da sociedade farão a diferença para um mundo melhor.
É bom pensar!

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