As fontes de um historiador

Cultura História 16 Outubro / 2013 Quarta-feira por Marília Daros

“Operar uma crítica de fontes é fundamental. De resto, nada como se assegurar da formação do suposto historiador. Não, não é preciso fazer curso de História para publicar livros, mas é preciso ser rigoroso no que se pesquisa e responsável no que se escreve para ser confiável. Do contrário serão apenas histórias da carochinha.”

A origem das histórias que escrevemos precisa ter uma fonte de verdade. Um diário, uma agenda, um jornal, uma foto, um recorte de escola, uma poesia, um desenho. Tantas são as formas de se provar o que se conta. A história que se conta. Porque contar por contar, não tem muito sentido para quem lê. E contar histórias verdadeiras e até, pessoais, pode ser, para o historiador, uma forma de se tornar o alva, a mira, dos que não necessitam que estas verdades históricas apareçam.

“Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário.”
(George Orwell)

Então, certamente, será um revolucionário de sua época. Uma pessoa que pode trazer, a qualquer hora, uma história real sem ser uma “história da corochinha”.

Uma história de fale de uma falsa informação sem documentação e a real documentação encontrada afinal. Por isto é tão fácil escrever histórias irreais, ou, histórias que não tragam dissabores a ninguém.

Me criei sendo verdadeira.
Minhas histórias não poderiam ser apenas narrativas de vida, mas documentadas, com registros meus ou de outros, mas com registros. Por isto, minhas fontes sempre iniciaram em casa, nos meus diários, minhas agendas, minhas conversas com meu pai e minha mãe, com parentes, em memória oral, com fotos e documentos que fui guardando ou pegando emprestado nas leituras de meu pai. Quando escrevi meu primeiro livro fui bem clara: nas leituras das publicações de meu pai depois de seu falecimento, encontrei janelas e portas, ou frestas, que me levaram a pesquisas que até contradisseram suas lembranças, quando documentadas.
Mas outras, confirmadas e comprovadas.
Por isto o título foi “Janelas, Portas, Varandas e saudades... Gramado em algum momento do passado.” Lá em 1993. Então as fontes de um historiador, no meu caso, foram os meus primários guardados. E eu precisava guardar os guardados de meu pai. Foi quando tomei conta, literalmente, de sua história. Para provar as minhas histórias. E sozinha, claramente hoje posso dizer, fiz as leituras que precisava fazer para entender meu passado e dar norte ao meu futuro. E foi o que fiz. Sem a ajuda de ninguém, apenas, como solução para um entendimento de vida e um contar de vidas que se somariam as minhas e que seriam fundamentais para que a história de Gramado tivesse um contar melhor e maior. Mais honesto e mais documentado.

“O mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir.” (Milton Santos, pensador)

E pensando assim, fui investigando e escrevendo. Pesquisando e escrevendo. Fui guardando e escrevendo. Fui amando cada vez mais as minhas fontes e arquivando tudo o que poderia servir de fonte no futuro para minhas investigações.

A família talvez não tenha sempre entendido desta forma. Mas nunca contestaram. Para todos, os meus e os guardados do pai eram uma somatória de papéis e fotos que só um apaixonado poderia entender. Que apaixonada que fui e sou.

E se isto não pode ser entendido, então, certamente, não sou uma historiadora, mas uma apaixonada guardadora de papéis.

Não é a mesma coisa?
Apenas que não tenho um diploma na mão para isto. Mas a maior parte dos historiadores que convivi, não eram titulados, mas sim, habilitados pela vida na história. E me abraçaram e me acarinharam por ser assim, apaixonada pela micro-história de minha região.

E eu rendo minha homenagem aos meus mestres, aos amigos da história que a história me deu, graduados ou não. Foram eles que me ensinaram a olhar com cuidado, não tão apaixonado, mas fixo na verdade, a zelar e guardar a história de minha terra e de minha família.
Bendita hora em que os conheci e os ouvi.
Foram as melhores e maiores lições que tive em minha vida, pois me deram o norte que procurava para preservar a memória de minha identidade.

Hoje, se esta preservação de identidade não é entendida como solidária, então me desculpem, mas eu não vou parar de agir assim.
Meu norte foi traçado e a minha vida, curta ou longa, vai continuar buscando e fazendo fontes, para mim e para outros historiadores que mais adiante, ou agora, estejam preparando seu norte, como eu.

Quem sabe um dia já serei fonte.
Afinal, os escritos de nossas histórias podem ser, boas histórias para os investigadores do futuro e eu então serei portas, janelas e varandas abertas para outras curiosidades.

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