A Casa da Tia Dozolina

Cultura História 19 Dezembro / 2012 Quarta-feira por Marília Daros

A Tia Dozolina era irmã de meu pai, Hugo Daros. Nasceu em São Marcos em 20 de julho de 1910 e faleceu em Caxias do Sul em 31 de agosto de 1976. Casou em Gramado mesmo numa festa grande para a época, com o tio Angelin Carrazzai, de família conhecida de Canela. Isto nos idos dos anos 30 do século XX. Quando casaram foram morar perto dos meus pais, na Borges de Medeiros, esquina com o antigo Hospital Santa Terezinha, pra quem está lembrado. Era uma casa de madeira, anexa a casa de meu avô Augusto Daros. Meu pai, como filho que cuidou dos pais até o final de suas vidas, teve o privilégio de herdar, com a concordância de todos os seus irmãos, a casa do vô Augusto Daros. Então, esta propriedade familiar foi o meu berço inicial, pois meus pais, quando casaram em 1942, ali foram residir.

Tio Angelin era caminhoneiro e puxava madeira para o cunhado Mário Bertolucci. Viajava muito e se saiu bem na época, tanto que adquiriu a sua propriedade na Borges de Medeiros, numa área razoável para os dias de hoje, que ficava onde agora é o hotel Vovó Carolina total e ia até a Rua São Pedro que na época era apenas uma pequena comunicação aberta artesanalmente pela comunidade nas Legiões do Trabalho, famosas em nossa terra.

Pois tio Angelin tinha uma propriedade de dar inveja a muita gente rica, mesmo sendo a pessoa mais simples que eu conheci. Era um homem pacato e gostava de fazer filhos. E tia Dozolina também. Eles tiveram o Armando, a Zila, a Iolanda, a Avany (que foi princesa das Hortênsias), a Vera Maria e a Valesca.

A casa da tia Dozolina era o melhor lugar do mundo para uma criança com sede de aventura. Além de ter um terreno grande, a casa era habitada por muita gente e eu amava estar lá, comer aquela feijoada inesquecível na mesa cheia de gente (eu não era boa de garfo, só lá!), aquele montão de quartos, de camas, aquele sótão com tantos mistérios (que a gente inventava existirem!). Então tinha ainda o poço de água de vertente, o canal que cruzava o terreno com várias “pontes ou passagens” que a gente se aventurava a passar. Um grande jardim na frente da casa com canteiros de tijolos em ponta. Tinha um ipê lindo nos fundos, e ao lado, a maior pilha de pneus de caminhão que já vi, onde a gente subia por fora e adentrava, numa emoção que até agora me dá alegria reviver em pensamento. Tinha tanta árvore frutífera que a gente comia fruta o ano inteiro, diretamente da fonte, ou seja, subindo mesmo na árvore e comendo lá em cima mesmo... Era muito bom o sabor de cada fruta e atirar os caroços para baixo. Lá no fundo do terreno não tinha árvores, mas um campinho muito gostoso que em belo dia resolvemos que seria muito melhor se tivesse uma piscina. E nós começamos a cavar. Acho que era um retângulo de uns 3X4 metros aproximadamente e a gente cavou uns 30 a 50 cm de profundidade. Mas aí a gente se deu conta de que não aguentaríamos cavar tanto para dar uma piscina. Resolvemos radicalizar e enchemos o espaço, de serragem da antiga Construtora Gramadense que ficava em frente, na Borges, onde hoje é o Mc. Levantamos duas varas com vários pregos pra marcar altura e uma vara para saltar. E lembro que passamos semanas praticando “Salto em altura” quando ainda nem se pensava o se dava o devido valor para as Olimpíadas. Muito divertido. Um belo dia deu uma chuvarada tão grande que alagou nosso ponto de salto. Abandonamos o projeto...

A tia Dozolina topava tudo. Uma mulher doce e habilidosa, cheia de filhotes em volta (dela e da vizinhança!) e com uma gastronomia de dar inveja hoje em dia a qualquer “chef”. Minha mãe nunca se opunha que eu fosse à tia, porque sabia que lá, certamente, eu estaria muito bem cuidada e alimentada e, especialmente, feliz. Era quase uma creche de tanta criança. As fotos registram isto desde meus 2 anos de idade.

Do lado da casa da tia Dozolina tinha a casa de madeira dos Peccin, dona Irma e seu Almeris, meus padrinhos de batismo. Casa onde nasceram a Vanderlei, o Laurence e o Luciano. Já aí, vão mais 3 primos que acabavam na mesa da tia Dozolina. Do outro lado da dona Irma, era a casa dos Balzaretti, dona Julieta e seu Euzébio. E do Nailor (meu compadre), do Flávio e da Eunice. Já aí se vão mais 3 vizinhos que acabavam degustando também por lá. Que me desmintam se estiver exagerando. Na frente tinha os Dal Ri com mais uma tropa de filhos. O Candiago fogueteiro com mais uns 2 ou 3. Os Ferreira, os Schwingel, meu Deus, quanta gente habitava aquele pedacinho da Borges da nossa infância.

Mas a casa da tia Dozolina era o centro deste universo infantil. Ficava bem mais abaixo da rua e para chegar nela se descia uma escadaria de uns 10 degraus, sem mentira. Quando fizeram a Pousada Vovó Carolina, acho que nem precisaram escavar...
Aqueles baús no sótão eram um convite para a imaginação. A escada de subida já era uma aventura, quanto mais, subir. Até hoje trago esta imagem na minha memória. Ali, em dias de chuva, a gente se divertia muito. Na realidade, a gente se divertia sempre, mas sem muitos brinquedos. Primeiro, que ninguém tinha muito brinquedo. O que se tinha eram brincadeiras. E bota brincadeira nisto. Qualquer pedaço de madeira, um galho, um tijolo, uma pedra, serviam para nossas peripécias. Nem bicicleta tive, imaginem. Aprendi a andar na bice do mano Dirceu e acho que acabei detonando com a dita cuja. Também, ele já era grandão com pernas compridas e não conseguia mais andar nela. Deve ser por isto que acabou sendo meio minha.

Assim, na tia Dozolina tinha filho pra todos os amigos, pois ela tinha uma escadinha de várias idades e cada um dos filhos tinha amigos de sua idade o que equivale a dizer que, sempre tinha gente em casa. Da família e dos amigos dos filhos. Sem contar as vizinhas que tomavam chimarrão diariamente. Tenho a lembrança da dona Julieta Balzaretti que ia tomar chimarrão na minha casa (já era a casa da Borges perto da Farmácia Galeno do Seu Benno Ruschel). Antes ela passava no armazém do seu Baqui e comprava batatas. Levava as batatas junto e enquanto tomavam chimarrão, as batatas cozinhavam, adiantando o almoço no fogão a lenha. A prosa e a comida corriam juntas. Pois na tia Dozolina não era diferente: enquanto se conversava, se fazia alguma coisa. Toda a turma da tia aprendeu a bordar e a costurar. Por muitos anos até foi um grande ganho da família, pois recebiam muitas encomendas. Acho que a Zila, que hoje mora em Caxias do Sul, ainda borda e costura. Restou ela e a Valesca. Todos os demais se foram. Quando bate a saudade, olho as fotos que a Zila me mandou. E as que tenho da família. A Zila inclusive, fez um grande resgate familiar arrumando todo o acervo de imagens da família Carrazzai e seus envolvimentos.

Que bom lembrar dos Carrazzai. Uma família das pioneiras de Canela e que casou com Daros, uma das pioneiras de Gramado. A tia Dozolina nos anos 60 eu acho, acabou indo morar em Caxias do Sul com os filhos ainda solteiros e muitas foram as vezes que lá estive procurando aquela mesma mesa amiga e parental de afetos e sabores. E também, lá, a casa era muito movimentada. Mas o tempo é implacável com as lembranças não escritas e a gente acaba deixando passar a hora certa dos registros. Inda bem que estou fazendo este agora.

Quem não conheceu tia Dozolina Daros Carrazzai certamente perdeu a chance de conhecer uma grande mulher. Ela foi quase milagreira em seu tempo e uma parceira incondicional da vivência familiar. Por detrás de seus óculos redondinhos, aro de metal e lentes escuras ela olhou o mundo com simplicidade e sem egoísmos. O mundo sem ambições, mas na medida certa para a sua vida. E a vida que sonhou, não sei se conseguiu ter, mas nunca a vi se queixar de nada.

Hoje, passado tanto tempo, vejo que Gramado era muito feliz nestes tempos, no luxo da simplicidade que perdemos. E com alegria vejo o lado norte da Borges de Medeiros iniciar o processo de desenvolvimento moderno. Mas também com preocupação. Não podemos, do lado norte, cometer os mesmos enganos do desenvolvimento central e do lado sul. Se tivemos tanto antes, e de tanta qualidade, não podemos tirar exemplos desta aprendizagem? Não podemos revitalizar algumas coisa que já viviam?

Se podemos fechar uma rua para um evento turístico comercial, não podemos fechar esta mesma rua para uma gincana infantil, uma maratona de bicicletas ou apenas, para caminhadas sustentáveis? Tenho certeza que podemos. Sem paternalismos, mas com os parceiros empresariais gostosos que temos e que sabem bem o que é ser criança, jovem e adolescente. E especialmente, sabem bem o que é ter uma família.

E para isto, não precisamos vender nossos valores por cinco moedas nem nossa identidade a troco de bananas.

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