“CONSCIÊNCIA DE SI” significa liberdade interior, embora não absoluta

Economiaenegocios Artigos 09 Julho / 2020 Quinta-feira por Padre Ari

Vê-se que no processo da criação do humano explícito em (Gn 1,27) a expressão: “...façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Já em outros momentos tenho explicado que tal afirmação na prática significa: o dom da inteligência, da vontade e da liberdade, afinal Deus não tem imagem e nem forma.
Talvez nesse momento da história a própria realidade nos obriga a entrar no “próprio ser-si-mesmo” para uma profunda e consciente análise das escolhas que até então se tem feito visto de vários ângulos. O fato é que a cultura hodierna perdeu o fio do porque fomos criados e, desta forma tem se afastado do verdadeiro sentido da existência. Fomos criados para viver a liberdade é natural tomar decisões e de alguma forma torna-se dono do próprio destino. No entanto, deve se ter ciência que enquanto inseridos na temporalidade vive-se condicionados por muitos fatores, principalmente em se tratando de ser livre na interioridade, ou seja, cultivando a mesma, embora sempre preocupados pelo cuidado vida humana e do meio ambiente como dos valores que ajudam a construir a paz interna. Sempre é bom lembrar que: “...o primeiro benefício depois da saúde é a paz interior”. (François de la Rochefoucauld).
Esse é o paradoxo da pós-modernidade quando que tem se deparado com uma situação inusitada, ou seja, a Pandemia do Covid-19, por sua vez, essa tem afetado não apenas a saúde da humanidade, mas a economia, as relações interpessoais e a produtividade no mundo empresarial, seja na forma de gerir os negócios, como também em todo o desenvolvimento que aquece e flui o mercado como um todo. Por um lado, essa situação tem feito o ser humano a se voltar para dentro de si mesmo, por outro, isolar-se e aprender e desenvolver novos hábitos e paradigmas criativos para não paralisar a própria existência em todos os aspectos.
Percebe-se que educação, saúde, higiene, alimentação, transportes como todos os aspectos que fazem parte da vida societária pós-moderna marcada por um ativismo sem precedentes, se viu forçada a parar e internalizar o próprio existir através de um processo de silêncio, meditação e contemplação mergulhando no “eu” existencial. Esta interiorização forçou a redescoberta de outro mundo até então colocado em segundo plano, ou seja, a dimensão da espiritualidade, pois o ativismo não permitia parar. Pode-se afirmar que é a “noite escura” do qual São João da Cruz fala no trajeto da vida do ser humano.
Em contrapartida o uso habitual da expressão: “tempo é questão de dinheiro” sofreu um desbanque profundo ante essa Pandemia ao retratar que tempo não é somente para se trabalhar, produzir e consumir, mas, e, sobretudo é ter tempo para vivenciar e curtir as benesses da vida, de cultivar as relações interpessoais como da tecnologia e do progresso, tempo de ser saboreado e cultivado, vivenciado, até para a melhor fluência de um progresso e desenvolvimento com sustentabilidade. Talvez nesta crise Pandêmica nos obrigue a ver que não é o acúmulo do ter, mas a qualidade de vida que acontece muito mais na frugalidade da vida, embora e sempre em benefício de todos. Não há porque prescindir das coisas boas daquilo que a ciência e progresso nos proporciona, no entanto o tempo presente aponta que talvez, urge um desacelerar o ritmo colocando o pé no freio, pois o tempo é de reflexão, mas com novos métodos e paradigmas sem prescindir do avanço da ciência e do desenvolvimento, embora de maneira sustentável, harmônica e com a sensatez própria de quem realmente tem consciência que quer vencer e ser feliz. Entretanto saber que tudo é provisório que esteja no tempo e no espaço. É preciso se conscientizar de que:
“...em cada um de nós há o lugar sagrado, ao qual só Cristo, tem acesso. No santuário, no espaço mais íntimo do coração, todo homem é puro. Pois aí está Cristo que na sua entrega na cruz nos demonstrou o amor puro. Assim podemos aproximar-nos de Deus “de coração sincero”, cheios de fé, com o coração purificado com água pura””(Hb 10,22)
E segue: “...a verdadeira purificação ocorre na consciência, no lugar mais íntimo do homem, no espaço sagrado do silêncio, ao qual ninguém tem acesso, a não ser Cristo que entrou em nós por meio da sua morte {...} porque Cristo habita em nós, somos limpos, purificados pelo seu amor”. (GRÜN, Anselm – Para que tua vida respire liberdade – Paulus – 2005 p.38).
A Carta aos Hebreus nos ajuda nesse tempo de difícil vivência, a induzir cada um de nós de que o momento é de esperança e não de desespero ante a dramática situação vigente, embora e, sobretudo exige que a sociedade descubra o lado positivo deste momento crucial em que se está vivendo, embora ainda muitos negligenciem o momento para não dizer, minimizam como se fosse algo sem um sentido específico. É uma mudança de época e requer outros imaginários e paradigmas para seguirmos adiante.
As imagens que a Carta aos Hebreus nos explica a Redenção através de Cristo devem sem dúvida {nos impulsionar a ver} imagens de esperança no contexto dessa situação conflitante. Por quê?
“...no meu íntimo já sou puro; o espaço interior do silêncio em mim é imaculado, sem mancha; aí Cristo reina em mim; e onde ele habita em mim, entro em contato com a imagem sem falsificação e sem mácula do meu autêntico ‘Eu”. E segue:
“...esse eu formado por Deus já é puro. A sujeira não pode poluí-lo, apenas pode cobri-lo com uma camada de pó. Mas não pode sujá-lo. A fé nessa realidade interior livra-me de todas as vozes auto desvalorizantes e auto dilacerantes. Mesmo quando se acumula sujeira em mim, o santuário interior permanece intocado. Aí sou puro e limpo, imaculado e intacto”. (ibidem) O PÓS-PANDEMIA COVID-19 E A SUPERAÇÃO DA IDEOLOGIA DA “RAZÃO ANALÍTICA-INSTRUMENTAL”

O destaque da atual crise local e mundial é um desafio a toda a cultura contemporânea que terá que refazer e rever conceitos e valores para redimensionar uma existência humana com sentido. Pois, obcecada pela ideologia do ter e do consumo perdeu: “...uma referência para o bem viver não apenas em termos de fraternidade e solidariedade humana, mas também, e, sobretudo na fragmentação do meio ambiente em seus diversos aspectos”. (SILVA, Ari Antônio – Ética, Espiritualidade e Cidadania: Ser cristão na cultura pós-moderna – Ed. Nova Harmonia – 2019 p.104). Portanto, o atual contexto aponta para mudanças profundas em todas relações seja interpessoais, Políticas socioeconômicas mas também religiosas, afinal o caminho visto sob a ótica da temporalidade nunca é retilíneo e infinito, mas está mostrando os revezes do próprio cosmo que reclama a postura humana frente ao todo da historicidade. Por quê?

“...a razão organiza tudo, e só se justificam as realidades que perante a razão são consideradas legítimas e socialmente aceitáveis {...} a razão hermenêutica, dialética, simbólica, sapiencial e instrumental-analítica {...} foi a que predominou soberanamente sobre todas as demais, como exigência da nova ordem do mundo surgida na Europa, a partir dos novos processos de produção, do mercado e do poder político” (op.cit Boff, Leonardo – In Silva: Ética, Espiritualidade e Cidadania -2029 p. 104). O momento da realidade presente questiona a validade desse perfil ante a dimensão do progresso e do desenvolvimento, e, portanto é preciso repensar novo paradigma que seja sustentável e que promove o bem comum, a justiça social e a sobrevivência da humanidade como um todo.
Em contrapartida Boff, Leonardo é enfático ao insistir que: “...é preciso incorporar outras formas de utilização da razão e abrir espaços para modos diferentes de realizar a natureza humana {...} a reflexão mais recente parte do fato de que a realidade é extremamente complexa e não se deixa enquadrar pelo conceito teórico, nem reduzir a fórmulas simples. Para ter acesso a ela, necessita-se de sensibilidade, de intuição e de capacidade de comunhão com ela {...} particularmente no campo da educação, da medicina, da política e das ciências relacionadas com a vida e a ecologia, tem-se necessidade de algo mais do que o conhecimento científico”. (op.cit ibidem – Boff, 2007 - in Silva p.106).
Portanto fica patente que o contexto atual da existência humana frente a esta pandemia é um desafio explícito para cada um fazer uma viagem para dentro de si mesmo e avalizar as escolhas que se tem feito nos últimos tempos. Explica-se assim, a crise da identidade de cada “eu” que tem obrigado de alguma maneira a entrar no silêncio de si. Sem dúvida é mudança epocal e complexa, pois se esbarra com algo intransponível e questionou a “onipotência humana” em todos os aspectos da vida.
É bom frisar e ter ciência que: “...quando a lógica do mercado e a lógica do Estado se põem de acordo entre si para continuar o monopólio dos respectivos âmbitos de influência, com o passar do tempo definha a solidariedade nas relações entre os cidadãos, a participação e a adesão ao serviço gratuito, que são realidades diversas do dar para ter, própria da lógica de transação, e do dar por dever, próprio da lógica dos comportamentos públicos impostos por lei do Estado”. (op.cit – Bento XVI Cáritas in Veritate – nº39 – in Silva, Ari A. p.106).
Concluo este texto convidando o leitor para refletir fazendo minhas estas palavras: “...um materialismo mais sombrio e a serviço unicamente dos próprios fins ocupou o lugar da economia original {e naturalmente equilibrada {...} houve um desenvolvimento de um mundo em que jogos de poder, cobiça e corrupção, e que} impulsionaram redes aristocráticas, urbanas e industriais”. (Bernard Mandeville). Portanto é momento de superar o que se tornou obsoleto e anacrônico e criar novos paradigmas para a construção de uma nova sociedade e um novo tempo. Aproveite a quarentena e o isolamento, pois sempre é salutar examinar a consciência e se redimir daquilo que não esteja edificando uma sociedade saudável e feliz!

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