“A ECOLOGIA HUMANA É INSEPARÁVEL DA NOÇÃO DE BEM COMUM” (Laudato Si’ – 156)

Economiaenegocios Artigos 27 Junho / 2017 Terca-feira por Padre Ari

A natureza humana e ambiental necessita a atenção de todo o gênero humano, ou seja, das pessoas e as diversas organizações societárias, mormente dos gestores públicos, para promover, motivar e incrementar de forma contínua a defesa do homem e da vida como um todo. Sem margem de dúvida, a ecologia humana, mais do que nunca se torna importante, pois tem um papel fundamental e relevante. Afinal o homem e a mulher como seres pensantes e de significados, não só possuem como desempenham uma tarefa “unificadora na ética social”. Desse paradigma deve emergir uma consciência objetiva que fará a diferença entre um imaginário social mecanicista, formal e utilitarista, para um desenvolvimento de um rosto humanizado prescindido apenas da funcionalidade. É preciso ter uma abertura para o senso de que toda a natureza humana e ambiental é algo sagrado, pois isso significa que tudo foi criado por Deus, e de nós se espera o respeito e o agradecimento para com o Criador de tudo. Por outro lado, pergunta-se: que significa o princípio do bem comum relacionado à ecologia humana e ambiental? “...É o conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar a mais plena e facilmente a própria perfeição.” (apud Vaticano II – Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo – Gaudium et Spes, 26 – in ‘Laudato Si’). Partindo desse pressuposto fica explícita a responsabilidade humana sobre si mesma e o próprio ambiente onde está inserida. O desenvolvimento e o progresso tecnológico sem nenhum critério valorativo não passa de uma hermenêutica equivocada, pois induz o tecido social a um imaginário de autodestruição. O texto bíblico: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra, submetei e dominai (...) os peixes do mar (...) as ervas (...) as árvores, que são frutos e dá semente será vosso alimento”. E segue: “...todas as feras, as aves do céu, tudo o que rasteja sobre a terra e que é animado pela vida, eu dou como alimento toda a verdura das plantas: e assim se fez” . Esse texto do livro do Gênesis exige uma autêntica e real interpretação, pois em nome de um desenvolvimento e progresso tecnológico, prescindindo de critérios sustentáveis não têm consciência que essa cultura elegeu o desenvolvimento de forma retilínea e infinita. Essa visão da cultura contemporânea, muitas vezes, e de diversas formas tem extrapolado qualquer limite de sustentabilidade levando a situações trágicas e de destruição aquilo que Deus criou, para o bem e a felicidade de toda a humanidade. É bom frisar que o termo, “dominai” é força de expressão, até porque toda a linguagem bíblica sempre tem usado uma linguagem hiperbólica para destacar aspectos que são relevantes para o ser humano. Portanto, a palavra, “dominai” quer significar sabedoria de “administrar” a criação, afinal não se é o dono da criação, como não se tem o direito de explorá-la sem a responsabilidade devida, pois temos algum dia de prestar contas ao Criador da responsabilidade recebida no “cuidado da “Casa Comum”. “A ecologia humana implica também algo muito profundo que é indispensável para criarmos um ambiente mais dignificante e a relação necessária da vida do ser humano com a lei moral inscrita na sua própria natureza.” FRANCISCO, (papa) – Carta Encíclica Laudato Si’ – Sobre o cuidado da casa comum – Paulus/Loyola – 2015). Já afirmava Bento XVI quando abordava a “ecologia do homem” ao se referir à natureza. O ser humano também possui uma natureza e faz parte da mesma, e por esse mesmo motivo urge respeitá-la, não se permitindo que se faça dela algo a ser manipulado como se apetece. “É preciso reconhecer que o nosso corpo nos põe em relação direta com o meio ambiente, e com os outros seres vivos; a aceitação do próprio corpo como dom de Deus é necessário para acolher e aceitar o mundo inteiro como dom do Pai e da casa comum; pelo contrário, uma lógica de domínio sobre o próprio corpo transforma-se numa lógica, por vezes sutil, de domínio da criação”. (ibidem). E segue: É preciso “...aprender a aceitar o próprio corpo, a cuidar dele e a respeitar os seus significados essenciais para uma verdadeira ecologia humana (...) ter apreço pelo próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade, para se poder reconhecer a si mesmo no encontro com o outro que é diferente; assim é possível aceitar com alegria o dom específico do outro ou da outra, obra de Deus criador, e enriquecer-se mutuamente”.


AS CONTRADIÇOES NA ADMINISTRAÇÃO DA CRIAÇÃO PARA SUPRIR AS DEMANDAS DO MERCADO E DO CAPITAL FINANCEIRO

Para não parecer um juízo temerário de arbitrariedade, quando se fala das contradições que acontecem na cultura contemporânea e se vive essa realidade, tomemos alguns exemplos paradoxais de mutação e ingerências indevidas na criação, cujos desfechos são trágicos a curto, médio e longo prazo. Através desses exemplos da realidade vivida no hoje da história, urge despertar uma consciência crítica na forma de gerir a “Casa Comum” dentro da cultura vigente. Analisando alguns dos muitos fatos, a realidade é assustadora como devastadora para toda a humanidade. Por quê? Toda a desigualdade social, discriminações, exclusões que se vive na contemporaneidade, é o retrato fiel de atitudes irresponsáveis do ser humano na administração da “Casa Comum”.

1. O problema das sementes e do plantio dos alimentos. As sementes dos alimentos consumidos hoje pelas pessoas são geneticamente modicadas com objetivos unicamente voltados para a demanda da economia de mercado e o insaciável capital financeiro, que se coloca como fim último. As sementes chamadas transgênicas sempre são propriedades de grandes empresas transnacionais que patenteiam as mesmas, para que todos tenham que comprar dessas organizações. Com isso desaparecem as chamadas sementes “crioulas” ou se quiserem “originais”, obrigando todos se quiser plantar devem comprar dessas empresas. Tudo sem levar em conta até aonde as mesmas não interferem na saúde das pessoas.
2. Temos o exemplo das frutas e verduras compradas em grandes supermercados. De certa forma, também o homem moderno é cumplice desta realidade, pois se dirigindo ao mercado procura sempre frutas, verduras e legumes que são mais bonitos para os olhos e isso estimula o uso de agrotóxicos colocando em risco a saúde das pessoas.
3. Os cruzamentos genéticos de animais, aves, porcos, bois e outros para o consumo humano, salvo exceções, sempre são fabricados com o uso de produtos artificiais, ou seja, rações preparadas para acelerar o processo de crescimento para o abate, não importando as consequências a médio e em longo prazo.
4. O uso de pesticidas não deixam de ser legítimos venenos, basta ler as fórmulas que sempre alertam para os cuidados que devem ter, esses são usados nas lavouras em quantidade significativa, e, muitos morrem intoxicados por eles. Com as chuvas os mesmos são levados para os rios atingindo os veios de água potável, gerando doenças graves, aliás, muitas sem cura e conduzindo ao óbito. Outro exemplo é o desaparecimento paulatino das abelhas, desaparecendo e morrendo, pois ao buscar nas flores e na vegetação o néctar para fabricar o delicioso mel, encontram a morte por envenenamento. É o resultado dos pesticidas usados indiscriminadamente nas lavouras. Não se tem mais paciência e o bom senso, e muito menos, a lógica para aproveitar a adubação orgânica que faz o mesmo efeito, ou, até melhor, sem ter contraindicações para o consumo humano e também dos animais, embora paulatinamente começa haver reações para a mudança de hábitos, no uso indiscriminado dos agrotóxicos. Por outro lado, se percebe experiências louváveis na produção de alimentos omitindo os agrotóxicos Infelizmente por trás de tudo, sempre há o interesse de comercializar os pesticidas fabricados por empresas de fertilizantes que detém o monopólio da comercialização, aliás, que são venenos químicos e nocivos à saúde humana e animal, fabricados sem nenhum escrúpulo, e pior: com danos irreparáveis à saúde humana e animal e da ecologia ambiental.
5. Por outro, se deve reconhecer que a poluição das águas não é apenas consequências dos pesticidas, mas também pela irresponsabilidade dos hábitos modernos de centros urbanos que se localizam em beiras de arroios e rios. O absurdo de lixo, como plásticos, dejetos humanos jogando nos arroios, rios, no mar ou em qualquer lugar e não tendo noção do estrago da natureza. Outro aspecto é não separar o lixo, embora já haja boas iniciativas e positivas de reaproveitamento do lixo.
6. A saúde do ser humano é proveniente da própria natureza, embora também haja insistência em seguir apenas a medicina convencional, quando há tratamentos alternativos eficientes e de comprovação científica que ajudam as pessoas ao dom da cura. No entanto, por trás dessa resistência sistemática, grupos oligárquicos e outros que permeiam a indústria farmacêutica alimentada pelos grandes laboratórios, que produzem remédios em quantidade exorbitantes, e, muitos, para não dizer todos, com sérios efeitos colaterais. No entanto, já se está tomando consciência que grande parte das doenças pode ser curada através da medicina fitoterápica, ou da medicina alternativa natural que não tem efeitos colaterais. É o caso do câncer tratado unicamente com quimioterapia, radioterapia que matam todas as células doentes e sãs. Entretanto, ainda há muita reação e resistência aos tratamentos alternativos. Sempre por trás ronda o interesse do mercado com sua voracidade. 6. Outro problema sério são as florestas com plantio de árvores geneticamente transmutadas para a comercialização de madeira, é o caso do “pinus”, do “eucalipto” que devastam e destroem a terra onde são plantados. Os mesmos, infelizmente ocupam grandes áreas de terra boa que poderia servir para o plantio de alimentos. Por outro lado, essas árvores geneticamente transmutadas desiquilibram a fauna, a vida selvagem, a ponto que os animais sem o seu habitat natural aos poucos vão para o processo de extinção.
7. Finalmente, embora não se tenha a pretensão de esgotar o assunto, vê-se o homem reduzido a um simples indivíduo, perdendo sua individualidade, liberdade e identidade, sendo reduzido a uma mercadoria. Objetivo? Novamente para alimentar a voracidade do dinheiro. Exemplos claros são: A prostituição, a exploração de crianças e mulheres, o trabalho escravo, o tráfico de pessoas e de órgãos humanos e o rentável comércio das drogas e muitas outras disfunções políticas, sociais e econômicas. Tudo isso e muito mais é algo para se pensar e questionar. Deus nos deu o presente da criação ao ser humano para administrar. É assim que o homem está se comportando? É a postura que agrada aos olhos de Deus? É preciso repensar, reavaliar e tomar atitudes concretas de mudança de paradigma para uma autêntica ecologia humana e ambiental para o bem das gerações vindouras. Que mundo está se legando para o futuro da humanidade? É bom pensar!

Categorias:   Notícias | Artigos | Economia e Negócios | Estilo | Cultura | Esportes